{"id":15470,"date":"2009-06-17T17:48:00","date_gmt":"2009-06-17T17:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=15470"},"modified":"2009-06-17T17:48:00","modified_gmt":"2009-06-17T17:48:00","slug":"uma-leitura-livre-em-clima-democratico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-leitura-livre-em-clima-democratico\/","title":{"rendered":"Uma leitura livre em clima democr\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<p>Deixei o pa\u00eds na manh\u00e3 do dia seguinte \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. J\u00e1 levava comigo os jornais cheios de n\u00fameros e coment\u00e1rios, euforias e pesadelos, justifica\u00e7\u00f5es e profecias. A meio do dia, em espa\u00e7o alem\u00e3o, pude folhear outros jornais da Europa, que comentavam o mesmo tema, no mesmo tom. L\u00e1 como c\u00e1, uns, sem olharem \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es em que ca\u00edam, outros, justificam os resultados com a crise social geral, outros ainda, com opini\u00f5es fixadas no modo de agir dos partidos, que os eleitores acabavam de castigar.<\/p>\n<p>As leituras pol\u00edticas s\u00e3o, por vezes, monoc\u00f3rdicas e superficiais, ditadas pelo imediato que exprime gosto ou desgosto. O exame das causas, porque exige pondera\u00e7\u00e3o, tempo e saber, raramente ultrapassa o trivial. Mesmo quando, de modo cr\u00edtico, se tenta opinar sobre a crescente absten\u00e7\u00e3o, o leque vai apenas da indiferen\u00e7a pelo acto eleitoral \u00e0 op\u00e7\u00e3o mais agrad\u00e1vel pela praia ou pelo passeio, do pouco conhecimento do que est\u00e1 em causa, \u00e0 falta de confian\u00e7a nos pol\u00edticos profissionais. Porque tudo dito, nada muda.<\/p>\n<p>Quem vota \u00e9 o cidad\u00e3o do povo. Gente de diferente sensibilidade e cultura, com experi\u00eancias e projectos diversos, com hist\u00f3rias e intui\u00e7\u00f5es n\u00e3o coincidentes. Alguns fazem das coisas pol\u00edticas uma paix\u00e3o, carregada de interesses e por isso n\u00e3o faltam. Outros, v\u00e3o por seu p\u00e9, mantendo vivas as dificuldades e agress\u00f5es que levam consigo e a que nem sempre est\u00e3o alheios os que se sentam nas cadeiras do poder se acaso esquecem o bem comum e o povo concreto. Se muitas coisas, no dia a dia, j\u00e1 se v\u00eaem a olho nu, por altura das campanhas eleitorais e depois da contagem dos votos, o quadro torna-se mais ilustrativo, e emoldurado pelo muito que se diz ou se cala. <\/p>\n<p>A gente que decide votar ou anda alienada e ao sabor das opini\u00f5es dos seus, ou calada a aguardar atenta a hora de poder dizer, com o voto, a sua opini\u00e3o determinante, sobre o que se passa no pa\u00eds e atinge a sua vida e a de muitos. As elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o se ganham nem se perdem com com\u00edcios e cartazes, mas nas urnas. O que se grita nas campanhas, o que se diz e as pessoas que o dizem, apenas confirmam o que j\u00e1 se pensa e se sabe. Alguns eleitores, armadilhados contra os da outra cor, fecham os olhos e ouvidos e s\u00f3 d\u00e3o raz\u00e3o aos seus. Ent\u00e3o, as opini\u00f5es viram dogmas e as verdades do outro lado n\u00e3o passam de mentiras do seu. O povo sensato observa isto tudo e vai formando o seu ju\u00edzo. <\/p>\n<p>Mas, j\u00e1 n\u00e3o falta quem, relativizando o alcance das decis\u00f5es pol\u00edticas, sabe bem o caminho por onde n\u00e3o se pode ir porque n\u00e3o leva sequer a um bem poss\u00edvel para todos. Como percebe tamb\u00e9m a linguagem que n\u00e3o respeita ningu\u00e9m e menos ainda os que pensam de outro modo, a agress\u00e3o programada a sentimentos comuns e a valores indiscut\u00edveis, a teimosia em impor decis\u00f5es alheias \u00e0 verdade e \u00e0 realidade, o malabarismo das palavras ardilosas que n\u00e3o convencem, a desonestidade pol\u00edtica que p\u00f5e os interesses dos partidos acima do interesse nacional, a pouca seriedade de quem faz da democracia uma palavra que enche a boca, mas que, na pr\u00e1tica, frequentemente a denega.<\/p>\n<p>O povo tem intui\u00e7\u00f5es de horizontes largos que escapam aos pol\u00edticos de vistas curtas e depressa esqueceram que \u201co povo \u00e9 quem mais ordena\u201d. Pelo menos nas urnas de voto n\u00e3o deixa que se mande nele, com a impunidade de d\u00e9cadas passadas e mesmo de tempos mais recentes. Ainda que abafado pelo poder que o n\u00e3o respeita, o povo j\u00e1 aprendeu a saborear a liberdade que ningu\u00e9m lhe pode tirar. Assim, n\u00e3o lhe escapa a contra cultura que se lhe quer impor, o desrespeito pela fam\u00edlia, seu maior bem, os ultrajes dos corruptos \u00e0 sua honestidade, as mentiras com que o pretendem iludir, o orgulho de quem n\u00e3o o ouve, os problemas vitais sem solu\u00e7\u00e3o, as portas do futuro fechadas aos jovens\u2026 Este povo tamb\u00e9m vota. Sabe pouco da Europa, mas sabe muito da vida. Conhece os pol\u00edticos que ficam e aos que querem entrar. Sabe esperar e sabe dizer \u201cbasta!\u201d. Os partidos passam, o povo permanece. Ele \u00e9 riqueza sem dono. Quem n\u00e3o o escutar, nem respeitar, acaba sempre por ser julgado por ele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deixei o pa\u00eds na manh\u00e3 do dia seguinte \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. 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