{"id":15862,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=15862"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"a-biblia-foi-escrita-para-nos-dizer-como-o-ceu-vem-ate-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-biblia-foi-escrita-para-nos-dizer-como-o-ceu-vem-ate-nos\/","title":{"rendered":"A B\u00edblia foi escrita para nos dizer como o c\u00e9u vem at\u00e9 n\u00f3s!"},"content":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Couto, orador do Congresso, especialista em Sagrada Escritura <!--more--> Ant\u00f3nio Couto, padre e superior da Sociedade Mission\u00e1ria da Boa Nova, \u00e9 doutorado em Teologia B\u00edblica pela Pontif\u00edcia Universidade Urbaniana (Roma) e professor na Universidade Cat\u00f3lica, no Porto. Com v\u00e1rios livros e artigos publicados, \u00e9 director das revistas \u201cIgreja e Miss\u00e3o\u201d e \u201cHuman\u00edstica e Teologia\u201d. \u00c9 membro da Congrega\u00e7\u00e3o para a Evangeliza\u00e7\u00e3o dos Povos, desde 18 de Julho de 2004.<\/p>\n<p>\u201cReconheceram-no no partir do P\u00e3o\u201d \u00e9 uma express\u00e3o do relato dos Disc\u00edpulos de Ema\u00fas. Este relato \u00e9 fundamental para entender a Eucaristia?<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos relatos importantes. Este \u00e9 apenas um deles, que tem a particularidade de colocar a Eucaristia no nosso caminho, na nossa casa e na nossa vida.<\/p>\n<p>No relato, o significado e a mensagem s\u00e3o mais importantes do que os factos? N\u00e3o h\u00e1 mais refer\u00eancias a Cl\u00e9ofas, nem os arque\u00f3logos t\u00eam a certeza da localiza\u00e7\u00e3o e exist\u00eancia de Ema\u00fas&#8230;<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o primeira que pervade os relatos dos Evangelhos, sejam eles quais forem, n\u00e3o \u00e9 passar para o leitor dados biogr\u00e1ficos, geogr\u00e1ficos, cosmol\u00f3gicos ou outras informa\u00e7\u00f5es do g\u00e9nero. A inten\u00e7\u00e3o primeira que preside \u00e0s p\u00e1ginas dos Evangelhos \u00e9 transmitir a not\u00edcia (a \u00fanica verdadeira not\u00edcia que algum dia tenha existido) do acontecimento da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, e fazer com que esse acontecimento transforme a nossa vida. De facto, os textos b\u00edblicos n\u00e3o foram escritos para nos dizer como vai o c\u00e9u, nem t\u00e3o-pouco como se vai para o c\u00e9u, mas sobretudo como o c\u00e9u vem at\u00e9 n\u00f3s!<\/p>\n<p>De Cl\u00e9ofas n\u00e3o h\u00e1 mais refer\u00eancias\u2026 A menos que o queiramos ver em Alfeu (Mt 10,3), forma aramaica de Cl\u00e9ofas, pai de Tiago (Mt 10,3), dito o Menor (Mc 15,40), tamb\u00e9m dito \u00abirm\u00e3o do Senhor\u00bb (Gl 1,19), a quem devemos a Carta com o seu nome. Este Cl\u00e9ofas (Alfeu) pode bem ser o marido de Maria de Cl\u00e9ofas (Jo 19,25), maneira muito hebraica de designar a esposa, que, com o simples nome de Maria, aparece como m\u00e3e de Tiago (Mt 27,56; Mc 15,40, Lc 24,10). De resto, uma antiqu\u00edssima tradi\u00e7\u00e3o, veiculada por Hegesipo e Eus\u00e9bio, faz de Cl\u00e9ofas esposo de Maria de Cl\u00e9ofas, prima em 1.\u00ba grau de Maria, m\u00e3e de Jesus, indo, neste particular, ao encontro da informa\u00e7\u00e3o de Jo 19,25, que faz de Maria de Cl\u00e9ofas irm\u00e3 de Maria, m\u00e3e de Jesus. Interessante pista para os \u00abirm\u00e3os\u00bb de Jesus: Tiago, Jos\u00e9, Judas e Sim\u00e3o (Mt 13,55; Mc 6,3).<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o da \u00abaldeia de Ema\u00fas\u00bb, as opini\u00f5es t\u00eam andado divididas \u00e0 volta de quatro localidades: a) Abu Gosh (antiga Qariat Iear\u00eem), a 75 est\u00e1dios para Ocidente de Jerusal\u00e9m; hip\u00f3tese dif\u00edcil de sustentar, dado que se trata de uma cidade (n\u00e3o de uma aldeia) e a dist\u00e2ncia n\u00e3o corresponde; b) Hirbet El-Mizzeh (antiga Ham Moshah), que Fl\u00e1vio Josefo translitera Ammaus, a 30 est\u00e1dios de Jerusal\u00e9m; dif\u00edcil de sustentar: \u00e9 Ammaus, e n\u00e3o Emmaus, e a dist\u00e2ncia tamb\u00e9m n\u00e3o corresponde; c) Ammaus da plan\u00edcie, referida em 1 Mac 3,40.57; 4,3; 9,50, situada a 160 est\u00e1dios de Jerusal\u00e9m; dif\u00edcil de sustentar: trata-se de uma cidade e n\u00e3o de uma aldeia, e a dist\u00e2ncia tamb\u00e9m n\u00e3o corresponde; d) El-Qub\u00e8ibeh (antiga Emmaus), aldeia a 60 est\u00e1dios para Ocidente de Jerusal\u00e9m. Esta aldeia apresenta os argumentos mais s\u00f3lidos para ser a Ema\u00fas de Lc 24. A\u00ed est\u00e1 hoje uma igreja do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, estilo rom\u00e2nico-g\u00f3tico de transi\u00e7\u00e3o, que respeita as linhas (e algumas pedras) de uma igreja constru\u00edda pelos cruzados no s\u00e9culo XII. A partir de finais do s\u00e9culo XIV, era para aqui que se encaminhavam j\u00e1 todos os peregrinos.<\/p>\n<p>Sem pretender sequer resumir a sua interven\u00e7\u00e3o no congresso, qual a principal mensagem deste relato?<\/p>\n<p>Este relato desvenda, de forma muito pedag\u00f3gica, a letra ileg\u00edvel daquela morte de Jesus na Cruz: auto-destitui\u00e7\u00e3o por auto-doa\u00e7\u00e3o a n\u00f3s e por n\u00f3s, e faz-nos passar da nossa tristeza, dissens\u00f5es, decep\u00e7\u00f5es, inquieta\u00e7\u00f5es e disjun\u00e7\u00f5es, para um movimento novo de conjun\u00e7\u00e3o e de alegria nova, assente na maneira nova de viver de Jesus: RECEBER, BENDIZER, PARTIR e DAR-SE.<\/p>\n<p>\u201cJesus p\u00f4s-se com Eles a caminho\u201d, diz o relato, para no final partilhar o p\u00e3o. A Eucaristia surge assim como o final de um percurso de f\u00e9?<\/p>\n<p>A Eucaristia traduz aquela vida e aquela morte de Jesus que, dando-se por amor, fica sempre connosco, e preside ao nosso caminho, \u00e0 nossa vida, \u00e0 nossa mesa. A Eucaristia n\u00e3o surge apenas no final de um percurso. Ela \u00e9 o percurso: in\u00edcio, centro e fim.<\/p>\n<p>\u201cVoltaram imediatamente para Jerusal\u00e9m\u201d, depois de O reconhecerem, diz S. Lucas. Significa que a missa \u00e9 vazia se n\u00e3o levar \u00e0 cidade? Ao encontro com os outros? H\u00e1 aqui alguma ideia de compromisso?<\/p>\n<p>O Ressuscitado faz conjun\u00e7\u00e3o. Os dois partiram de Jerusal\u00e9m, em disjun\u00e7\u00e3o e dissens\u00e3o com o grupo (a comunidade dos \u00abOnze\u00bb e dos outros com eles), e iam no caminho em disjun\u00e7\u00e3o at\u00e9 um com o outro. Tinham perdido o sentido. Entenda-se: tinham perdido Aquele que dava sentido \u00e0s suas vidas. Encontrados por Ele no caminho (\u00abcaminhava com eles\u00bb) e no \u00abpartir do p\u00e3o\u00bb, reencontraram o sentido, e fazem a viagem ao contr\u00e1rio, para Jerusal\u00e9m, movimento novo de conjun\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o com o grupo. Vivendo com Ele e como Ele, aprendemos naturalmente a ir sempre mais ao encontro dos nossos irm\u00e3os. A celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia leva sempre a muitos e novos compromissos.<\/p>\n<p>Recentemente algu\u00e9m dizia que cada pessoa \u00e9 aquilo que for capaz de narrar sobre si pr\u00f3pria. O relato de S\u00e3o Lucas \u00e9 um relato da nossa identidade eclesial, ou seja, s\u00f3 somos Igreja quando e sempre que O reconhecemos no P\u00e3o?<\/p>\n<p>Ele \u00e9 que se faz ver a n\u00f3s e se faz reconhecer por n\u00f3s. Ele \u00e9 que desencadeia em n\u00f3s a nossa vida. Biblicamente, eu n\u00e3o sou a auto-consci\u00eancia do que fa\u00e7o, mas a h\u00e9tero-consci\u00eancia daquilo que me \u00e9 feito e que eu sou chamado a reconhecer: \u00abDeus fez em mim grandes coisas\u2026\u00bb. Eu sou o relato daquilo que me \u00e9 feito. E o relato relata, isto \u00e9, une, re\u00fane, enla\u00e7a, entrela\u00e7a. Duplamente: os factos e as pessoas. \u00abRe-lata\u00bb os factos, pondo-os em \u00abre-la\u00e7\u00e3o\u00bb. E essa rela\u00e7\u00e3o dos factos \u00abrelata\u00bb o narrador e o narrat\u00e1rio; re\u00fane as pessoas, portanto, fazendo-nos, n\u00e3o s\u00f3 estar juntos, mas, mais do que isso, nascer juntos como irm\u00e3os. \u00c9 o relato que faz a Igreja. O relato \u00e9 diferente da not\u00edcia. A not\u00edcia \u00e9 r\u00e1pida. Junta o mensageiro e o destinat\u00e1rio. O relato precisa de tempo, porque faz o narrador descer ao n\u00edvel do narrat\u00e1rio, fazendo-nos nascer juntos. Portanto, faz-nos irm\u00e3os. Eis a Igreja. \u00abNa noite em que Ele ia ser entregue\u2026\u00bb, assim come\u00e7a o mais belo relato que conhe\u00e7o. O an\u00fancio sera sempre necess\u00e1rio. Mas eu diria que a originalidade da Igreja n\u00e3o \u00e9 tanto anunciar o amor. \u00c9 relat\u00e1-lo!<\/p>\n<p>Quais os outros relatos b\u00edblicos fundamentais eucar\u00edsticos?<\/p>\n<p>Desde logo, aqueles que conhecemos como relatos da institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia: Mt 26,26-27; Mc 14,22-23; Lc 22,17-20; 1 Cor 11,23-25, sem esquecer 1 Cor 10,16, porventura a mais antiga men\u00e7\u00e3o da Eucaristia, a\u00ed dita \u00abEulog\u00eda\u00bb, b\u00ean\u00e7\u00e3o, ben(di)\u00e7\u00e3o, que nos situa na linha do bendizer, da benevol\u00eancia e da benefic\u00eancia\u2026 O nome \u00abEucaristia\u00bb acentua mais o dar graces, agradecer, ser reconhecido\u2026 A \u00abFrac\u00e7\u00e3o do p\u00e3o\u00bb tem um bem vincado car\u00e1cter social.<\/p>\n<p>Mas o vocabul\u00e1rio da Eucaristia encontra-se ainda nos chamados relatos da multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es: Mt 14,19; 15,16; Mc 6,41; 8,6; Lc 9,16; Jo 6,11. O mesmo vocabul\u00e1rio se encontra ainda numa cena do Livro dos Actos (27,35), com Paulo em relevo.<\/p>\n<p>Em todos estes textos \u00e9 not\u00f3rio o seu vocabul\u00e1rio eucar\u00edstico.<\/p>\n<p>Muitos dizem-se crist\u00e3os, mas n\u00e3o \u201cv\u00e3o \u00e0 missa\u201d. O que n\u00e3o est\u00e1 correcto? Dizerem-se crist\u00e3os, ou n\u00e3o serem atra\u00eddos pela missa?<\/p>\n<p>A missa n\u00e3o deve atrair ningu\u00e9m. Se atra\u00edsse, haveria nela algo de idol\u00e1trico. S\u00e3o os \u00eddolos que atraem. Mas os \u00eddolos s\u00e3o ocos e vazios. Na verdade, n\u00e3o fazem nada. Somos n\u00f3s que neles colocamos o fasc\u00ednio que sobre n\u00f3s exercem. S\u00e3o criaturas nossas, desdobramentos nossos. Fazendo um \u00eddolo, torno-me ao mesmo tempo dono e escravo de mim mesmo. Dou ordens a mim mesmo por interposto \u00eddolo; na verdade, prostro-me diante de mim. A B\u00edblia \u00e9, com certeza, o livro mais cr\u00edtico que existe acerca da idolatria. A Eucaristia \u00e9 uma reuni\u00e3o de reunidos pelo Deus vivo, que nos chama e nos comunica a Sua vida, o Seu amor libertador. O Deus b\u00edblico n\u00e3o atrai nem suga nem subjuga. Liberta. S\u00f3 as pessoas livres, sendo chamadas, podem livremente responder ao chamamento. A Eucaristia \u00e9, portanto, o espa\u00e7o da pessoa e da palavra e do p\u00e3o. Espa\u00e7o de amor e de liberdade concedido por Deus para n\u00f3s aprendermos a ser filhos e irm\u00e3os, e n\u00e3o donos e escravos.<\/p>\n<p>\u201cTornar as missas mais atractivas\u201d \u00e9 uma necessidade pastoral ou uma ilus\u00e3o?<\/p>\n<p>A pastoral \u00e9 uma coisa s\u00e9ria. Deve fazer chegar \u00e0s pessoas a Palavra e o P\u00e3o do amor e da liberdade. N\u00e3o consta que Jesus Cristo tenha dado algum dia algum espect\u00e1culo. O que deu foi a vida por amor.<\/p>\n<p>Sendo o texto b\u00edblico uma componente fundamental da Eucaristia, como fazer para que a Palavra seja compreendida e \u201cdigerida\u201d pelos homens e mulheres modernos?<\/p>\n<p>Muito estudo. Muita ora\u00e7\u00e3o. Boa pedagogia. \u00c9 hoje indispens\u00e1vel, para servir bem a Palavra de Deus aos nossos irm\u00e3os, l\u00ea-la muito e estud\u00e1-la pacientemente com os melhores coment\u00e1rios \u00e0 m\u00e3o. Depois \u00e9 preciso rez\u00e1-la e sabore\u00e1-la e viv\u00ea-la e diz\u00ea-la. Em termos pr\u00e1ticos, eu diria que um padre, para presidir a uma boa celebra\u00e7\u00e3o e fazer uma boa homilia, precisa de investir pelo menos 16 horas na sua prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Couto, orador do Congresso, especialista em Sagrada Escritura<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[],"class_list":["post-15862","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eucaristia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15862","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15862"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15862\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15862"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15862"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15862"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}