{"id":15871,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=15871"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"passou-a-fase-da-adaptacao-e-tempo-da-encarnacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/passou-a-fase-da-adaptacao-e-tempo-da-encarnacao\/","title":{"rendered":"&#8220;Passou a fase da adapta\u00e7\u00e3o; \u00e9 tempo da encarna\u00e7\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>D. Francisco Jo\u00e3o Silota \u00e9 bispo de Chimoio, diocese mo\u00e7ambicana com cerca de 61 mil km2 (\u00e1rea equivalente a dois ter\u00e7os de Portugal) e um milh\u00e3o de habitantes. Os cat\u00f3licos s\u00e3o 75 mil e a diocese tem 25 padres. Em Portugal, a convite da Funda\u00e7\u00e3o Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre (FAIS), D. Francisco Silota, que \u00e9 tamb\u00e9m vice-presidente do Simp\u00f3sio das Confer\u00eancias Episcopais de \u00c1frica e Madag\u00e1scar (organismo que re\u00fane representantes dos bispos de todo o continente), passou por Aveiro e conversou com o Correio do Vouga, numa altura em que se comemora Dia Mundial das Miss\u00f5es (pr\u00f3ximo domingo), sobre a sua diocese, a coopera\u00e7\u00e3o entre igrejas e pa\u00edses, a democracia em \u00c1frica e a incultura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Francisco Silota, como \u00e9 a sua diocese e o seu povo?<\/p>\n<p>A minha diocese vai do rio Zambeze, no Norte, ao rio Sabe, no Sul. A popula\u00e7\u00e3o \u00e9 um pouco mais que 1 milh\u00e3o, em 61661 km2. Feliz ou infelizmente, desta popula\u00e7\u00e3o toda, s\u00f3 75 mil s\u00e3o cat\u00f3licos baptizados, 7,5 por cento da popula\u00e7\u00e3o. Os outros s\u00e3o de outras domina\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, mu\u00e7ulmanos e da religi\u00e3o tradicional, os chamados \u201canimistas\u201d. Mas que \u00e9 isso de animista?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 essa a designa\u00e7\u00e3o habitual?<\/p>\n<p>Quando dizem \u201canimista\u201d, interrogo-me. N\u00f3s, crist\u00e3os, at\u00e9 certo ponto somos animistas. Temos as nossas peti\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s dos nossos irm\u00e3os j\u00e1 mortos. Acreditamos na comunh\u00e3o dos santos. Temos o Dia de Todos os Santos. O nome de animismo est\u00e1 baseado na incompreens\u00e3o de alguns antrop\u00f3logos. Foram a \u00c1frica, por pouco tempo, viram as pessoas a fazerem liba\u00e7\u00f5es, talvez a pronuncia\u00e7\u00e3o de nomes familiares, e pensaram que os africanos adoram os esp\u00edritos. Ou ofere-cem sacrif\u00edcios aos esp\u00edritos. N\u00e3o adoram os esp\u00edritos. Veneram os antepassados. Os sacrif\u00edcios n\u00e3o s\u00e3o entregues finalmente aos esp\u00edritos, mas a Deus. Os esp\u00edritos servem de intermedi\u00e1rios. O mesmo se passa na sociedade africana. Se temos um chefe com os seus conselheiros e algu\u00e9m traz um presente, n\u00e3o vai entreg\u00e1-lo directamente ao chefe. H\u00e1 sempre tr\u00e2mites at\u00e9 chegar ao chefe. E o chefe tamb\u00e9m n\u00e3o entrega nada directamente \u00e0 pessoa. Essa media\u00e7\u00e3o est\u00e1 em todo o lado. Alguns n\u00e3o compreenderam bem os africanos, da\u00ed chamaram \u201canimistas\u201d. Hoje fala-se mais em \u201creligi\u00e3o tradicional\u201d, que em alguns lados est\u00e1 mais formalizada.<\/p>\n<p>Como v\u00ea a coopera\u00e7\u00e3o entre igrejas, por exemplo, com o envio de jovens em experi\u00eancias mission\u00e1rias ou o acolhimento de padres africanos em Portugal?<\/p>\n<p>Na minha diocese n\u00e3o temos jovens volunt\u00e1rios de Portugal ou de outros pa\u00edses. A ideia, como ideia, apoio-a muito. A Igreja, por defini\u00e7\u00e3o, deve ser uma comunh\u00e3o. Que haja coopera\u00e7\u00e3o, \u00e9 normal. Em Novembro passado estivemos \u2013 parte dos bispos de \u00c1frica e dos bispos da Europa \u2013 reunidos [em Lisboa] para trabalhar nessa comunh\u00e3o, para manifestar essa solidariedade. Formar uma Igreja que seja fam\u00edlia e solidadiredade \u2013 isso \u00e9 que \u00e9 a globaliza\u00e7\u00e3o em sentido positivo. Todos trabalharmos juntos e para o mesmo fim. Estar\u00edamos a reproduzir as primeiras comunidades, em que tudo era para todos e todos para cada um. N\u00e3o havia essa tenta\u00e7\u00e3o que todos n\u00f3s temos: uns mais privilegiados e outros mais pobres, uns superiores e outros inferiores. Algumas dioceses est\u00e3o a fazer gemina\u00e7\u00f5es. Isso \u00e9 positivo, dependendo dos acordos que fazem.<\/p>\n<p>Pode haver alguma tenta\u00e7\u00e3o de superioridade entre igrejas, algum colonialismo encapotado?<\/p>\n<p>Se, de facto, o que vai para ajudar olha de cima para baixo, como superior, ah, isso \u00e9 perigoso. Mas temos de tentar aquela solidariedade de que falamos em Novembro. O trabalho vai demorar muitos anos. Vamos tentar como irm\u00e3os. Entre irm\u00e3os, um \u00e9 mais capaz disto, outro \u00e9 mais capaz daquilo, mas cada um contribui para todos. A\u00ed, dificilmente acontece o esp\u00edrito de paternalismo, que \u00e9 muito perigoso. Pode haver uma manipula\u00e7\u00e3o indirecta. Queiramos ou n\u00e3o, se aquele que ajuda n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o clara, o dinheiro acaba por mandar mais. O dinheiro influencia a linha de poder de um pa\u00eds e o mesmo acontece na Igreja. Isso n\u00e3o. Uma ajuda na comunh\u00e3o deve conduzir-nos a responder aos desafios encontrados localmente. N\u00e3o pode perturbar o movimento da igreja local.<\/p>\n<p>Como \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o social na sua diocese? H\u00e1 not\u00edcias que nos dizem que Mo\u00e7ambique est\u00e1 a crescer muito em termos econ\u00f3micos. Isso nota-se no seu povo?<\/p>\n<p>Bom, meu irm\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil responder, sobretudo agora que temos muita gente a padecer de fome e de sede por causa da seca. Grande parte de Mo\u00e7ambique \u2013 e mesmo da \u00c1frica Austral \u2013 tem problemas de fome. Na nossa diocese temos cinco distritos mais afectados, tr\u00eas no Norte e dois no Sul. Na parte Sul, desde Abril, devia ser tempo de colheitas, mas porque n\u00e3o choveu o suficiente, h\u00e1 gente que passa fome e sede. Andam 20 a 30 km em busca de \u00e1gua. Parece exagerado, mas \u00e9 mesmo assim. A fome \u00e9 uma realidade. Os membros da Assembleia da Rep\u00fablica deram voltas pelo pa\u00eds fora para verificar onde havia maior intensidade de fome. Algumas das zonas mais afectadas s\u00e3o da minha diocese.<\/p>\n<p>Os relat\u00f3rios internacionais dizem que Mo\u00e7ambique \u00e9 dos pa\u00edses africanos com maior sucesso no combate \u00e0 mis\u00e9ria&#8230;<\/p>\n<p>Pode ser que os n\u00fameros da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica de Mo\u00e7ambique sejam positivos. Ou que as finan\u00e7as dos bancos digam que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 a melhorar. Mas ainda h\u00e1 muita fome. O actual governo tem um programa de luta contra a pobreza absoluta, mas n\u00e3o me quero pronunciar, porque s\u00f3 tem meses. Como tudo \u00e9 relativo, \u00e9 poss\u00edvel que relativamente aos outros pa\u00edses de \u00c1frica, o movimento de baixo para cima seja maior em Mo\u00e7ambique. Mas o que constato \u00e9 que a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 muito pobre.<\/p>\n<p>Mo\u00e7ambique tem sido apontado como exemplo de transi\u00e7\u00e3o da guerra civil para a democracia. A democracia est\u00e1 bem implantada? As feridas da guerra civil est\u00e3o saradas?<\/p>\n<p>Creio que as feridas, para ficarem curadas e cicatrizadas, v\u00e3o levar muito tempo. De facto, est\u00e1-se a tentar viver o esp\u00edrito do acordo Geral de Roma, mas \u00e9 dif\u00edcil sair de uma situa\u00e7\u00e3o que vivemos durante anos. Em 1990 sa\u00edmos do regime monopartid\u00e1rio para o multipartidarismo. Mas a viv\u00eancia do multiparditarismo e da democracia est\u00e1 cheia de quest\u00f5es. Que democracia? A imita\u00e7\u00e3o do ocidente? Se \u00e9 isso, como vamos respeitar a tradi\u00e7\u00e3o local? \u00c9 uma quest\u00e3o que se p\u00f5e. Que haja certas liberdades, \u00e9 certo que h\u00e1. Que as armas se tenham calado, sim. Mas, creio que o esp\u00edrito de respeitar a liberdade de opini\u00e3o de uma maneira completa ainda \u00e9 um processo.<\/p>\n<p>Considera que uma democracia africana seria algo de dife-rente de uma democracia ocidental?<\/p>\n<p>Interrogo-me sobre isso. Podemos imitar e temos de estar abertos e acolher o que de positivo vem dos outros; sen\u00e3o, formamos um gueto. Devemos seleccionar, mas para seleccionar temos de ter ra\u00edzes. Nesse caso, o que recebemos dos outros enriquece o que j\u00e1 temos.<\/p>\n<p>Mas acredita que com uma ou outra adapta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 um regime que mais corresponde ao anseio dos povos&#8230; Isto \u00e9, pergunta pelo figurino da democracia, mas n\u00e3o a questiona&#8230;<\/p>\n<p>Se \u00e9 o respeito das liberdades e dos deveres, em que com responsa-bilidade h\u00e1 liberdade pol\u00edtica, econ\u00f4mica e religiosa, concordo. Faz parte dos direitos humanos. Com uma democracia que seja o respeito pelos direitos humanos concordo a 100 ou 200%.<\/p>\n<p>Veio a Portugal a convite da FAIS. Esta funda\u00e7\u00e3o tem colaborado com a sua diocese?<\/p>\n<p>A FAIS, quer a delega\u00e7\u00e3o de Portugal, quer no sentido geral, tem-nos ajudado muito. No meu caso, h\u00e1 dois anos tive um problema s\u00e9rio com uma viatura. Em quest\u00e3o de horas conseguiram contactar Fran\u00e7a e de l\u00e1 mandaram uma pe\u00e7a para o meu carro de dezassete anos, de forma a voltar a andar. Isto pode parecer uma coisa reles, mas se o bispo n\u00e3o tem com que se deslocar, como vai atender o seu povo? Sei que a Funda\u00e7\u00e3o ajudou a construir o Semin\u00e1rio Proped\u00eautico da Beira, importante para que haja sacerdotes locais. Na nossa diocese, coisas como a fotocopiadora, a viatura para assistir a duas par\u00f3quias vizinhas, o sal\u00e3o do centro polivalente e a sua mob\u00edlia, o financiamento de equipas pastorais&#8230; t\u00eam sido alcan\u00e7adas gra\u00e7as \u00e0 FAIS. Quem fala de Chimoio, fala de outras dioceses. A FAIS responde \u00e0 ajuda requerida pelas igrejas locais. Uma m\u00e3o samaritana como a da FAIS ajuda realizar os nossos anseios.<\/p>\n<p>Qual a principal preocupa\u00e7\u00e3o pastoral da Igreja mo\u00e7ambicana?<\/p>\n<p>Estamos a tentar difundir uma Boa-Nova mais significativa. Julgamos que isso seria a implementa\u00e7\u00e3o do que o falecido Jo\u00e3o Paulo II disse na sua primeira missa em solo mo\u00e7ambicano, em 1988. A ideia era esta: que a mensagem evang\u00e9lica tenha sentido para o mo\u00e7ambicano, que seja vista como um bem, como algo que o enriquece. Da\u00ed o problema da incultura\u00e7\u00e3o. Estamos a tentar trabalhar de maneira a que o Evangelho seja inculturado. A incultura\u00e7\u00e3o \u00e9 a coluna vertebral de toda a pastoral. Acreditamos que atrav\u00e9s da incultura\u00e7\u00e3o o Evangelho pode encarnar, e o Verbo pode habitar.<\/p>\n<p>A incultura\u00e7\u00e3o leva a ter pr\u00e1ticas e modos diferentes de ser Igreja?<\/p>\n<p>Certamente. Dou um exemplo, em Portugal, quando a autoridade fala, a autoridade e os outros devem ficar de p\u00e9. Para n\u00f3s, quando uma autoridade est\u00e1 a falar, o melhor \u00e9 estar sentada. No Evangelho, Cristo \u00e9 a autoridade. Agora, como raciocinar e trabalhar teologicamente, estando em comunh\u00e3o com a Igreja universal, para que isto diga alguma coisa ao povo?<\/p>\n<p>Est\u00e1 a sugerir que o Evangelho seja proclamado com as pessoas e o sacerdote (ou di\u00e1cono) sentados&#8230; \u00c9 um aspecto da liturgia, mas a incultura\u00e7\u00e3o passa por outros campos&#8230;<\/p>\n<p>Sim, por muitos outros. Esse desafio surgiu no s\u00ednodo para \u00c1frica: que os te\u00f3logos trabalhem em v\u00e1rios campos. N\u00e3o queremos fazer queixas do passado, mas muitas coisas foram como que uma imita\u00e7\u00e3o, sem ser claro porque fazemos desse modo. J\u00e1 no S\u00ednodo de 1974, quando se falou de evangeliza\u00e7\u00e3o, os bispos disseram que o tempo da teologia da adapta\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha passado. Agora \u00e9 tempo da encarna\u00e7\u00e3o. O Evangelho tome o corpo das realidades africanas. \u00c9 um trabalho s\u00e9rio e para o longo prazo.<\/p>\n<p>Isso pode chegar aos costumes e \u00e0s concep\u00e7\u00f5es, por exemplo, de fam\u00edlia ou de matrim\u00f3nio?<\/p>\n<p>Pode ser, para ter sentido. Porque n\u00e3o? Para n\u00e3o ser s\u00f3 uma execu\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica. O campo est\u00e1 aberto. O s\u00ednodo africano pediu aos te\u00f3logos que trabalhem em v\u00e1rios campos. S\u00f3 assim a f\u00e9 crist\u00e3 pode ser assimilada, em vez de ser uma esp\u00e9cie de veste externa.<\/p>\n<p>Para terminar, conheceu D. Francisco Nunes Teixeira, natural da diocese de Aveiro (falecido em 1999), que foi bispo de Quelimane?<\/p>\n<p>Conheci-o, quando eu era seminarista. Ele foi secret\u00e1rio do Sr. D. Sebasti\u00e3o. Depois foi nomeado bispo quando se criou a diocese de Quelimane. Eu sou da diocese de Tete. Ele aparecia no semin\u00e1rio interdiocesano onde eu andava porque ia visitar os seus seminaristas.<\/p>\n<p>PERFIL DO BISPO DE CHIMOIO<\/p>\n<p>D. Francisco Jo\u00e3o Silota nasceu em 1941 em Zuoya. Passou por um semin\u00e1rio diocesano, mas entrou mais tarde para os Mission\u00e1rios de \u00c1frica, congrega\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m conhecida por \u201cPadres Brancos\u201d, o que lhe permite afirmar com bom humor: \u201cSou um Padre Branco preto\u201d. Foi ordenado presb\u00edtero em 1974 e sagrado bispo em 1988. Desde 1990, quando a diocese foi criada, \u00e9 bispo de Chimoio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Francisco Jo\u00e3o Silota \u00e9 bispo de Chimoio, diocese mo\u00e7ambicana com cerca de 61 mil km2 (\u00e1rea equivalente a dois ter\u00e7os de Portugal) e um milh\u00e3o de habitantes. 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