{"id":16009,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16009"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"santa-joana-na-recordacao-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/santa-joana-na-recordacao-da-historia\/","title":{"rendered":"Santa Joana na recorda\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Ocorreu h\u00e1 dias mais um anivers\u00e1rio natal\u00edcio de Santa Joana. A efem\u00e9ride d\u00e1-me oportunidade de a evocar, at\u00e9 porque tive conhecimento de que foi distribu\u00eddo aos alunos de uma certa Escola de Aveiro, sem qualquer interpreta\u00e7\u00e3o ou explica\u00e7\u00e3o s\u00e9ria, o texto controverso e descuidado de Rui de Pina, alusivo \u00e0 Princesa. Pessoalmente entendo que n\u00e3o \u00e9 honesto um tal procedimento.<\/p>\n<p>Em finais de Setembro de 1471, no regresso das suas vit\u00f3rias no norte de \u00c1frica, el-rei D. Afonso V viu-se confrontado com o pedido da sua filha D. Joana, solicitando-lhe licen\u00e7a de se recolher em algum mosteiro ou convento, para melhor servir a Deus. O monarca, n\u00e3o a querendo contristar, anuiu \u00e0 pretens\u00e3o da Princesa. Ali\u00e1s, o \u201cAfricano\u201d n\u00e3o tinha o direito de se lamentar do desejo da filha, pois, em 1466, de certo modo a entusiasmara para a vida claustral, ao querer faz\u00ea-la assistir a uma profiss\u00e3o de votos religiosos no Mosteiro de Jesus, em Aveiro. Ent\u00e3o, como refere um manuscrito quinhentista, \u201cprovocou sua virtuosa filha, que muito ama-va, entrar nesta casa pela devo\u00e7\u00e3o que nela tinha\u201d. Ia ela nos catorze anos de idade, pois nascera em 6 de Fevereiro de 1452.<\/p>\n<p>D. Joana n\u00e3o demorou na concretiza\u00e7\u00e3o do seu sonho; em Dezembro retirou-se para o mosteiro de Odivelas. Apesar dos s\u00e9rios protestos e reclama\u00e7\u00f5es dos procuradores do Reino, tanto junto do monarca como no mosteiro \u2014 conforme se v\u00ea pelo documento notarial arquivado na Torre do Tombo \u2014 ela continuou no seu prop\u00f3sito at\u00e9 que, em 30 de Julho de 1472, chegou a Aveiro, para aqui viver e morrer.<\/p>\n<p>Conforme referem os cronistas Rui de Pina e Dami\u00e3o de G\u00f3is, por morte da jovem rainha D. Isabel, ocorrida em Dezembro de 1455, el-rei mandou expressamente que nada se mudasse no \u201cPa\u00e7o da Rainha\u201d, a\u00ed permanecendo, nos seus postos de trabalho com D. Joana, as donas, as donzelas, os oficiais e os restantes empregados; por isso, inevitavelmente eram grandes as despesas com a administra\u00e7\u00e3o da Casa&#8230; e n\u00e3o por culpa de D. Joana \u2014 como parece transparecer da cr\u00f3nica de Rui de Pina. A raz\u00e3o seria outra: \u2014 Porque o Er\u00e1rio P\u00fablico tinha de suportar as guerras em Marrocos e a manuten\u00e7\u00e3o das respectivas Pra\u00e7as, tornaram-se urgentes alguns cortes or-\u00e7amentais. Por coincid\u00eancia, para tal iria contribuir avul-tadamente a t\u00e3o suspirada concretiza\u00e7\u00e3o do sentimento da Princesa em seguir a vida religiosa.<\/p>\n<p>Rui de Pina, cuja cr\u00f3nica \u00e9 de 1504, escreveu que fora o pr\u00f3prio pai quem tivera a iniciativa do enclausuramento da filha em Odivelas, tamb\u00e9m \u201cpor se evitarem alguns esc\u00e2ndalos e preju\u00edzos que em sua Casa, por n\u00e3o ser casada, se podiam seguir\u201d. Em face de semelhantes palavras, mesmo sendo ver\u00eddicas, ningu\u00e9m pode asseverar que elas se refiram a Santa Joana; \u00e9 que com ela viviam dezenas de pessoas de ambos os sexos. Al\u00e9m do mais, o texto, manifestando o anseio de D. Afonso V em ver a filha liberta de toda e qualquer difama\u00e7\u00e3o, apenas cont\u00e9m uma hip\u00f3tese futura e preventiva e n\u00e3o a certeza de deslizes morais, passados ou presentes.<\/p>\n<p>Contudo, recorde-se que o cronista, remunerado ao servi\u00e7o do monarca, preocu-pou-se mais em amontoar motivos para engrandecer a pessoa de el-rei, do que numa linha imparcial de fidelidade. N\u00e3o admira, por isso, que a verdade possa sair minimizada ou maltratada pela sua pena, at\u00e9 porque ele pr\u00f3prio considerava a hist\u00f3ria como \u201cmui liberal princesa\u201d, feita sobretudo como comp\u00eandio de \u00e9tica. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, Rui de Pina erra frequentemente na cronologia, no apuramento dos factos, na seria\u00e7\u00e3o dos acontecimentos, na correla\u00e7\u00e3o destes com a hist\u00f3ria geral, na documenta\u00e7\u00e3o que descura, em certas ocasi\u00f5es. Como afirmou o historiador dr. Domingos Maur\u00edcio Gomes dos Santos ao reportar-se ao cronista \u2014 \u201co velho guarda-mor da Torre do Tombo nem foi, sequer, um med\u00edocre conhecedor da hist\u00f3ria geral do seu s\u00e9culo, nem se documentou suficientemente das fontes hist\u00f3ricas nacionais, que tinha possibilidade e obriga\u00e7\u00e3o de manusear, nem, o que \u00e9 mais grave, se serviu delas com probidade cient\u00edfica, aproveitando-as, por vezes, em detrimento de figuras cujo semblante e responsabilidades propositada ou inconscientemente deforma\u201d. Ainda bem que ele, na refer\u00eancia \u00e0 Princesa, termina por dizer, embora sendo inexacto na indica\u00e7\u00e3o da idade, que, em Aveiro, \u201csem casar com nome de honesta e mui virtuosa, acabou depois sua vida em idade de trinta e seis anos\u201d. Ali\u00e1s, outrossim Garcia de Resende, escrevendo em 1545, conta que, quando ela faleceu, D. Jo\u00e3o II experimentou forte abalo, porque \u201cqueria-lhe muito grande bem, e estimava muito por ser singular Princesa, de muitas virtudes, bondades e perfei\u00e7\u00f5es, muito cat\u00f3lica, devota e amiga de Deus, e mui obediente a el-rei, seu irm\u00e3o\u201d. Algum tempo depois, em 1567, Dami\u00e3o de G\u00f3is que, tendo-a Deus chamado desta vida para a sempiterna, ela deixou \u201csingular exemplo de virtudes, com nome de verdadeira e cat\u00f3lica crist\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>Perante esta como outras afirma\u00e7\u00f5es de historiadores ou cronistas, quem pretenda ser um cr\u00edtico sensato ou um educador capaz ter\u00e1 de confrontar documentos, de examinar escritos, de interpretar manuscritos e de mesmo ajuizar sobre quem os produziu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ocorreu h\u00e1 dias mais um anivers\u00e1rio natal\u00edcio de Santa Joana. 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