{"id":16139,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16139"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"o-homem-das-dores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-homem-das-dores\/","title":{"rendered":"O Homem das dores"},"content":{"rendered":"<p>Sempre que aparece um filme ou um romance sobre Jesus Cristo, h\u00e1 uma quest\u00e3o que de imediato \u00e9 posta: \u201cComo \u00e9 o Cristo desse autor?\u201d O mesmo \u00e9 perguntar: \u201cQual a cristologia subjacente?\u201d<\/p>\n<p>No filme \u201cA Paix\u00e3o de Cristo\u201d, de Mel Gibson, como sempre, a quest\u00e3o faz todo o sentido. \u00c9 que cada \u00e9poca, comunidade, gera\u00e7\u00e3o ou mesmo pessoa tende a ver Jesus Cristo de uma forma particular. Por isso j\u00e1 tivemos o Cristo judeu, romano, bizantino, nos primeiros s\u00e9culos, e o Cristo hippie, superstar, guerrilheiro, comunista, nos tempos mais pr\u00f3ximos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 tarefa mais pessoal do que escrever uma vida de Cristo \u2013 dizia Albert Schweitzer, te\u00f3logo e mission\u00e1rio protestante franc\u00eas (e pr\u00e9mio Nobel da Paz em 1952). Isso \u00e9 assim desde o in\u00edcio. Por isso temos quatro Evangelhos e n\u00e3o um. E o Cristo de cada evangelho, sendo sempre o mesmo, tem rostos diferentes, atitudes diferentes, objectivos diferentes, nem sempre concili\u00e1veis. Cristo \u00e9 plural desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p>Neste sentido, Mel Gibson, um cat\u00f3lico convertido h\u00e1 uma dezena de anos e que gosta de \u201couvir\u201d a missa em latim, tem toda a legitimidade em filmar o Cristo da sua f\u00e9 pessoal. Mas o resultado final n\u00e3o \u00e9 muito proveitoso. Quanto a mim, separa o que n\u00e3o \u00e9 separ\u00e1vel. A vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus n\u00e3o s\u00e3o separ\u00e1veis da sua mensagem, milagres, palavras e gestos. Ora o que Mel Gibson faz \u00e9 apresentar apenas as doze horas finais de Jesus, esquecendo a mensagem. O objectivo \u00e9 deliberado, quer dar-nos uma imagem hiper-realista da morte do Redentor, mas o excesso de sofrimento tem resultados contr\u00e1rios. Chega a ser obsceno (palavra de origem grega que significa \u201cfora de cena\u201d, pois referia-se \u00e0s coisas que n\u00e3o podiam ser representadas no palco) ver tanto sangue e chicoteadas, quando os Evangelhos s\u00e3o muito discretos nos relatos da Paix\u00e3o. Mais: nos Evangelhos o sofrimento n\u00e3o \u00e9 gratuito \u2013 impress\u00e3o com que se fica ao ver o filme, j\u00e1 que a mensagem est\u00e1 omissa. N\u00e3o admira que surjam v\u00e1rias pessoas a dizer que as crian\u00e7as n\u00e3o devem ver o filme. Ou que haja adultos a sair a meio da sess\u00e3o do cinema. O que pretende sensibilizar acaba por atordoar. Este filme pode ter o mesmo efeito que o excesso de viol\u00eancia nos telejornais: insensibiliza.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, apesar da propagada fidelidade aos Evangelhos (o filme \u00e9 falado em aramaico e latim), esta pel\u00edcu-la inspira-se em grande parte na Via-Sacra tradicional (que inclui epis\u00f3dios que n\u00e3o v\u00eam nos evangelhos: Ver\u00f3nica, tr\u00eas quedas a caminho do Calv\u00e1rio&#8230;) e em epis\u00f3dios de origem ap\u00f3crifa ou em vis\u00f5es m\u00edsticas (os esfor\u00e7os de Cl\u00e1udia, mulher de Pilatos, para libertar Jesus; a Madalena como pecadora \u2013 n\u00e3o vem nos evangelhos \u2013, Maria a limpar o sangue da flagela\u00e7\u00e3o, os dem\u00f3nios, nomes&#8230;).<\/p>\n<p>Este Cristo sofredor mas sereno pode fazer-nos pensar que a morte foi mesmo morte e sofrimento, contra a levian-dade com que \u00e0s vezes pensa-mos que \u201cmorreu mas ressuscitou ao terceiro dia\u201d, como se tudo tivesse sido muito leve, r\u00e1pido e f\u00e1cil. No entanto, a paix\u00e3o excessiva pela viol\u00eancia e pelo sofrimento deturpa a mensagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre que aparece um filme ou um romance sobre Jesus Cristo, h\u00e1 uma quest\u00e3o que de imediato \u00e9 posta: \u201cComo \u00e9 o Cristo desse autor?\u201d O mesmo \u00e9 perguntar: \u201cQual a cristologia subjacente?\u201d No filme \u201cA Paix\u00e3o de Cristo\u201d, de Mel Gibson, como sempre, a quest\u00e3o faz todo o sentido. \u00c9 que cada \u00e9poca, comunidade, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[66],"tags":[],"class_list":["post-16139","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16139","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16139"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16139\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16139"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16139"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16139"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}