{"id":16148,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16148"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"vou-amanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/vou-amanha\/","title":{"rendered":"&#8220;Vou amanh\u00e3&#8230;&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Estava eu parado ao vermelho, ali na avenida da cidade. O mi\u00fado, oito, nove anos, olhos vivos, apareceu de repente e lan\u00e7ou, para dentro do carro, a m\u00e3o aberta, sem nada dizer. O gesto bastava. Eram dez horas. \u201cMas tu devias estar na escola a esta hora\u2026\u201d \u2014 disse-lhe eu. \u201c Vou amanh\u00e3\u2026\u201d E logo voltou costas, dirigindo-se ao carro que estava atr\u00e1s. Uma senhora, ao mesmo gesto do mi\u00fado, l\u00e1 lhe deu umas moedas. O padre foi o antip\u00e1tico.<\/p>\n<p>Vinha de viagem. A meio da manh\u00e3, o rep\u00f3rter da r\u00e1dio entrevistava, junto \u00e0 bilheteira do est\u00e1dio, gente que ali tinha passado a noite para comprar bilhete. \u201cMas voc\u00ea estuda?\u2026\u201d \u2014 perguntou a um jovem, embrulhado num cobertor, que estava desde as quatro da tarde do dia anterior. Foi ele pr\u00f3prio que o disse. \u201cEstudo \u2014 respondeu ele \u2014 mas, para o Porto\u2026falta-se \u00e0s aulas.\u201d Eu vivi o primeiro caso e ouvi o segundo. Ningu\u00e9m me contou.<\/p>\n<p>Dois casos da semana passada. Tanto se pode passar adiante, como tentar reflectir um pouco e pesar o que, nisto tudo, tamb\u00e9m pode depender de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Aquele mi\u00fado tem pais. Onde estavam? Talvez a pouca dist\u00e2ncia para ver o \u201cneg\u00f3cio\u201d e viver dele. O mi\u00fado j\u00e1 sabe de cor o recado. E tem de agir assim, porque, ou apresenta resultados, ou recebe tabefes. Escola, para qu\u00ea? <\/p>\n<p>Andam a\u00ed os notici\u00e1rios ainda cheios de Casa Pia. Mostram sempre os advogados. Que propaganda gratuita! De vez em quando, tamb\u00e9m ainda os suspeitos. As crian\u00e7as j\u00e1 s\u00e3o apenas impl\u00edcitos de um romance sujo. Ningu\u00e9m fala delas. Disto tudo, parece que os objectivos dizem mais a outros do que a elas? Sempre a mesma coisa.<\/p>\n<p>As autoridades n\u00e3o poder\u00e3o identificar as crian\u00e7as da rua e, atrav\u00e9s delas, quem as explora? O crime \u00e9 grave. O gesto de passar ao lado vem de longe e tem muitos adeptos. O Mestre falou deles na par\u00e1bola do samaritano. E n\u00e3o se saem bem da narra\u00e7\u00e3o. A marca do seu gesto ficou para a vida.<\/p>\n<p>Claro que se pode faltar, impunemente, \u00e0s aulas. Se for preciso at\u00e9 se apresenta prova que justifique a falta. H\u00e1 pais que n\u00e3o se importam de a ir mendigar a m\u00e9dico amigo. \u201cPelos filhos faz-se tudo.\u201d Tudo? A escola regista. Que mais poder\u00e1 ela fazer?<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o dia-a-dia e n\u00e3o me d\u00e1 nenhum consolo. A outros, de igual modo. <\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo endireitar o mundo. Apenas sentir e dizer que se pode fazer alguma coisa para que ele n\u00e3o se entorte mais. H\u00e1 sempre quem precise de um suplemento de vontade. De ouvir o que n\u00e3o agrada, mas pode cair certo, como rem\u00e9dio que d\u00f3i e cura. Desde que sejam mais a faz\u00ea-lo, com amor.<\/p>\n<p>H\u00e1 que sentir, por dentro, o grito de crian\u00e7as presas no arame farpado do desamor. Elas t\u00eam direitos como as outras crian\u00e7as. H\u00e1 que sentir ao vivo a pobreza de jovens que deixam os deveres para se agarrarem ao que lhes d\u00e1 gosto. H\u00e1 que sentir que mudar para melhor, pessoas e ambientes, est\u00e1 ao nosso alcance. \u201cVou amanh\u00e3\u201d! Para o mi\u00fado, amanh\u00e3, igual a hoje. A rua rende mais que a escola. Quem explora, bem o sabe. E a gente passa ao lado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava eu parado ao vermelho, ali na avenida da cidade. O mi\u00fado, oito, nove anos, olhos vivos, apareceu de repente e lan\u00e7ou, para dentro do carro, a m\u00e3o aberta, sem nada dizer. O gesto bastava. 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