{"id":16307,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16307"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"a-eucaristia-e-grito-no-deserto-do-egoismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-eucaristia-e-grito-no-deserto-do-egoismo\/","title":{"rendered":"&#8220;A Eucaristia \u00e9 grito no deserto do ego\u00edsmo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>No Congresso Eucar\u00edstico do M\u00e9xico (Guadalajara, 10 a 17 de Outubro) esteve presente uma delega\u00e7\u00e3o de meia centena de portugueses. Um dos participantes foi o padre Jos\u00e9 Sardo Fidalgo, p\u00e1roco da Gafanha da Nazar\u00e9.<\/p>\n<p>Correio do Vouga &#8211; Algumas pessoas afirmam que as conclus\u00f5es do Congresso Eucar\u00edstico Internacional (CEI) s\u00e3o muito simples. Concorda?<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Sardo Fidalgo &#8211; Sim, mas foram ditas coisas fundamentais. A primeira: S\u00f3 se atinge a Eucaristia, que \u00e9 transcend\u00eancia, atrav\u00e9s da f\u00e9. Querer enquadrar a Eucaristia em aspectos sociol\u00f3gicos tem tamb\u00e9m o seu interesse, mas s\u00f3 a atinge quem tem f\u00e9, e a f\u00e9 \u00e9 um dom de Deus e uma resposta do homem. Esse dom \u00e9 Jesus Cristo. Quem descobre Jesus Cristo pela f\u00e9 \u00e9 que depois pode compreender a Eucaristia em todas as vertentes. Muitas vezes, n\u00f3s reduzimo-la a ritos, c\u00e2nticos, manifesta\u00e7\u00f5es; mas a ess\u00eancia \u00e9 a contempla\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio. \u00c9 dif\u00edcil, mas \u00e9 fundamental. Outro aspecto importante: a Eucaristia \u00e9 fonte de paz e de compromisso na comunidade. Celebrar eucaristias como quem vai a este ou \u00e0quele caf\u00e9, \u201cporque me agrada\u201d, n\u00e3o \u00e9 Eucaristia. A Eucaristia \u00e9 celebra\u00e7\u00e3o na comunidade onde vivo, na comunidade onde trabalho, na comunidade onde estou comprometido. De resto, s\u00e3o fogos-f\u00e1tuos: \u201cO senhor padre celebrou muito lindo\u201d \u2013 mas a vida n\u00e3o fica cheia. <\/p>\n<p>Na celebra\u00e7\u00e3o que encerrou o CEI notou-se a diversidade cultural das 87 na\u00e7\u00f5es participantes?<\/p>\n<p>N\u00e3o. A Eucaristia de encerramento foi \u201cformal\u201d na sua estrutura, j\u00e1 que era para quinze mil congressistas. E notou-se muito a presen\u00e7a do Vaticano. Ali\u00e1s, se tenho que dizer algo de n\u00e3o t\u00e3o agrad\u00e1vel, foi ver muita gente como cardeais e arcebispos a falar e pouca gente como presb\u00edteros e leigos a dar o seu testemunho. Quanto a isso, o congresso foi uma pobreza. Mas \u00e9 pr\u00f3prio \u2013 penso eu \u2013 do Vaticano. Sempre que o Vaticano entra, mostra a estrutura humana pesada.<\/p>\n<p>Viu-se multiculturalidade nas leituras, nos testemunhos, nas manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, como na prociss\u00e3o do Sant\u00edssimo, que demorou quatro horas, ou na de Nossa Senhora Zapopan [cidade do M\u00e9xico], que levou quatro milh\u00f5es de pessoas. A de Nossa Senhora foi mais participada.<\/p>\n<p>Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Talvez porque \u00e9 mais f\u00e1cil mobilizar as pessoas por algo que se v\u00ea, que \u00e9 uma imagem vener\u00e1vel, veneranda, do que pelo mist\u00e9rio que n\u00e3o se v\u00ea. Por outro lado, no M\u00e9xico, a Igreja cat\u00f3lica foi at\u00e9 h\u00e1 pouco uma confiss\u00e3o perseguida. Ainda em 1993, um cardeal foi morto a tiro. A persegui\u00e7\u00e3o criou uma \u00e2nsia de afirma\u00e7\u00e3o pela religiosidade popular. Isso \u00e9 um valor, mas n\u00e3o se pode ficar por a\u00ed. Olhando para o nosso Portugal, cada vez vai menos gente \u00e0 Eucaristia da comunidade. E cada vez vai mais gente aos santu\u00e1rios, sejam quais forem. Este congresso veio p\u00f4r o centro em Jesus Cristo. E Nossa Senhora s\u00f3 se entende porque \u00e9 a M\u00e3e de Jesus.<\/p>\n<p>O CEI n\u00e3o teve s\u00f3 comunica\u00e7\u00f5es e celebra\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>Teve muitos momentos culturais, concertos de coros, exposi\u00e7\u00f5es de arte sacra\u2026 Coisas maravilhosas! A arte sacra desenvolveu-se muito bem, quando o povo era explorado. O povo vivia miser\u00e1vel, mas fazia coisas bonitas para a transcend\u00eancia. N\u00e3o percebia, mas fazia. E era isso que depois lhe dava o sentido da unidade.<\/p>\n<p>O congresso teve tamb\u00e9m momentos de consciencializa\u00e7\u00e3o social com os pobres, visita \u00e0s favelas e a doentes incur\u00e1veis. E terminou com um sinal que acho que dev\u00edamos copiar na diocese: uma grande funda\u00e7\u00e3o, em favor dos mais pobres. Ali\u00e1s, \u00e9 o pr\u00f3prio Papa que quer que os congressos terminem com um sinal para o mundo.<\/p>\n<p>Como foi a participa\u00e7\u00e3o da comitiva portuguesa?<\/p>\n<p>A comitiva foi presidida pelo arcebispo de Braga. Mas Portugal n\u00e3o se preparou como pa\u00eds para ir ao congresso. Para um acontecimento internacional como este, devia ter havido mais prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Houve algum momento no congresso que impressionasse mais?<\/p>\n<p>No sentido da emo\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e da viv\u00eancia de f\u00e9, foi a prociss\u00e3o eucar\u00edstica. Vi gente pela rua, compenetrada, gente muito nova, multid\u00f5es ajoelhadas\u2026 Alguma coisa marcava as pessoas, e isso era a Eucaristia.<\/p>\n<p>Para a Igreja em geral, foi apontada alguma direc\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A direc\u00e7\u00e3o est\u00e1 apontada na linha do lema do congresso: \u201cA Eucaristia \u00e9 luz e vida do novo mil\u00e9nio\u201d. Foi dito a certa altura que \u201ca Eucaristia, quando vivida, \u00e9 grito no deserto do ego\u00edsmo humano\u201d. Parece uma frase muito burilada, mas n\u00e3o \u00e9. Hoje temos o sentido do individual e n\u00e3o da pessoa. O individual \u00e9 n\u00famero e fecha-se em si mesmo. A pessoa s\u00f3 o \u00e9 pela rela\u00e7\u00e3o. A Eucaristia \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o. Temos muitas comunh\u00f5es. Na Gafanha da Nazar\u00e9 comungam por semana cerca de dez mil pessoas. Mas por vezes falta o sentido da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quer dizer que h\u00e1 muita gente que comunga mas n\u00e3o \u00e9 consequente com esse acto?<\/p>\n<p>N\u00e3o quero fazer esse ju\u00edzo. Mas uma pessoa que comunga e depois destr\u00f3i a fama de outra, ou que n\u00e3o \u00e9 comprometida no seu trabalho de oper\u00e1rio, ou n\u00e3o paga o sal\u00e1rio que deve\u2026 O bapti-zado que n\u00e3o se compromete na sua comunidade, mesmo que comungue e participe na Eucaristia, n\u00e3o entendeu o mist\u00e9rio eucar\u00edstico.<\/p>\n<p>Na sua comunidade paroquial vai ter alguma iniciativa?<\/p>\n<p>V\u00e3o surgir tr\u00eas fundamentais: primeiro, sob a protec\u00e7\u00e3o dos Pastorinhos, vamos instituir as crian\u00e7as adoradoras do Sant\u00edssimo Sacramento; segundo, faremos adora\u00e7\u00e3o do Sant\u00edssimo nos dias 31, dos meses que o t\u00eam, data da funda\u00e7\u00e3o da comunidade \u2013 numa Eucaristia; terceiro, faremos um congresso paroquial. Ainda n\u00e3o est\u00e1 muito definido, mas vamos dinamizar a comunidade nesse sentido e ser\u00e1 antes do congresso diocesano. <\/p>\n<p>E para a diocese tem alguma sugest\u00e3o?<\/p>\n<p>Que o congresso diocesano n\u00e3o seja apenas um momento, mas o ep\u00edlogo de uma caminhada que se inicia nas comunidades de base &#8211; as par\u00f3quias ou outras comunidades de refer\u00eancia. Caso contr\u00e1rio, ser\u00e1 mais um acontecimento pontual; ficar\u00e1 na hist\u00f3ria da diocese, mas sem impacto ou transforma\u00e7\u00e3o nas pessoas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Congresso Eucar\u00edstico do M\u00e9xico (Guadalajara, 10 a 17 de Outubro) esteve presente uma delega\u00e7\u00e3o de meia centena de portugueses. Um dos participantes foi o padre Jos\u00e9 Sardo Fidalgo, p\u00e1roco da Gafanha da Nazar\u00e9. Correio do Vouga &#8211; Algumas pessoas afirmam que as conclus\u00f5es do Congresso Eucar\u00edstico Internacional (CEI) s\u00e3o muito simples. 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