{"id":16384,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16384"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"nao-fui-anunciar-deus-ja-la-estava-a-minha-espera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/nao-fui-anunciar-deus-ja-la-estava-a-minha-espera\/","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o fui anunciar Deus \u2014 j\u00e1 l\u00e1 estava \u00e0 minha espera&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Pe. Pedro Jos\u00e9, em entrevista depois de tr\u00eas anos de trabalho mission\u00e1rio no Brasil <!--more--> Pedro Jos\u00e9 Correia, 32 anos, padre da diocese de Aveiro, passou os \u00faltimos tr\u00eas anos no Brasil, em trabalho pastoral com os mission\u00e1rios das Sociedade Boa Nova.<\/p>\n<p>Chegou \u00e0 cidade de Fortaleza, no dia 10 de Setembro de 2001. Falava-se, na altura, do assassinato de um grupo de portugueses que tinha ido passar f\u00e9rias para essa cidade. No dia seguinte, momentos antes de apanhar o segundo avi\u00e3o, que o levaria para S. Lu\u00eds do Maranh\u00e3o, viu pela TV, no quarto do hotel, o embate dos avi\u00f5es nas torres de Nova Iorque. O mundo pode ter mudado nesse dia. A vida do Pe Pedro, por raz\u00f5es diferentes, de certeza. De f\u00e9rias em Portugal, mas pouco \u2013 as solicita\u00e7\u00f5es t\u00eam sido muitas \u2013, concedeu ao Correio do Vouga uma entrevista-balan\u00e7o destes tr\u00eas anos. Em Janeiro de 2005 regressar\u00e1 ao Brasil, para mais dois anos e meio de trabalho mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>Como foi o seu trabalho no Brasil?<\/p>\n<p>O acordo mission\u00e1rio era trabalhar com mais tr\u00eas padres [Neves, Casimiro e Tavares, mission\u00e1rios portugueses da Sociedade Boa-Nova] em Mata Roma e Chapadinha, duas cidades do interior, mas com muito de urbano. Estive l\u00e1 tr\u00eas meses, de Setembro a Dezembro. Em Dezembro houve uma ordena\u00e7\u00e3o e uma reuni\u00e3o regional de padres para avaliar o trabalho pastoral. Um dos pontos de debate era a vida de semin\u00e1rio. Como era necess\u00e1rio renovar a equipa, votaram em mim na segunda vota\u00e7\u00e3o&#8230; Digo a brincar que fui tra\u00eddo. Era uma coisa transit\u00f3ria. Havia problemas graves no semin\u00e1rio. Estive l\u00e1 o ano acad\u00e9mico de 2002, de Janeiro a Dezembro, em Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais. Em Janeiro de 2003 regressei ao trabalho, at\u00e9 Outubro de 2004, em Mata Roma e Chapadinha.<\/p>\n<p>Em que consistia o trabalho nessas par\u00f3quias?<\/p>\n<p>Integrei-me na equipa. Estabeleceram-se algumas prioridades. A par\u00f3quia sentia muito a necessidade de p\u00f4r de p\u00e9 uma pastoral da educa\u00e7\u00e3o. Fiquei com essa responsabilidade. J\u00e1 tinha havido um trabalho do professor Jorge Carvalhais [de Calv\u00e3o, Vagos, e colaborador do CV]. Por l\u00e1 passaram leigos mission\u00e1rios, o Pe Nestor, o Pe Martins, oito meses\u2026 O Jorge Carvalhais esteve l\u00e1 um ano e meio. Encaixei nesse projecto de pastoral educativa, sendo ao mesmo tempo uma esp\u00e9cie de assessor na pastoral da juventude.<\/p>\n<p>Como \u00e9 a pastoral educativa?<\/p>\n<p>N\u00f3s quer\u00edamos chegar ao \u00e2mbito escolar, mas era mais um trabalho com professores. Eu levava daqui a refer\u00eancia do MCE (Movimento Cat\u00f3lico de Estudantes), mas l\u00e1 era um trabalho com professores: criar uma consci\u00eancia de grupo, de professores cat\u00f3licos, mas aberto ao esp\u00edrito ecum\u00e9nico; reuni-los para reflectir e ver os problemas do meio, como poder\u00edamos ter uma interven\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m havia iniciativas com professores ao n\u00edvel da par\u00f3quia; d\u00e1vamos a cara dizendo que era pastoral da educa\u00e7\u00e3o da par\u00f3quia.<\/p>\n<p>As outras religi\u00f5es estavam presentes?<\/p>\n<p>Outras confiss\u00f5es crist\u00e3s, sim. A religi\u00e3o ind\u00edgena j\u00e1 foi muito apagada, mas outras confiss\u00f5es como a igreja metodista a presbiteriana \u2013 com estas duas o di\u00e1logo \u00e9 mais f\u00e1cil \u2013, a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), at\u00e9 \u00e0 \u00faltima moda evang\u00e9lica e protestante que tamb\u00e9m l\u00e1 entra, especialmente em Chapadinha. Curiosamente, Mata Roma teve muito a assist\u00eancia de um pastor evang\u00e9lico, enquanto o padre cat\u00f3lico s\u00f3 l\u00e1 ia uma vez por m\u00eas. Havia uma forte tradi\u00e7\u00e3o protestante. Actualmente, por exemplo, tem a igreja cat\u00f3lica, a casa das Irm\u00e3s e logo a seguir um templo da IURD, que \u00e9 t\u00e3o grande como o cat\u00f3lico.<\/p>\n<p>H\u00e1 bom relacionamento?<\/p>\n<p>Sim. Est\u00e1 um templo ao lado do outro, e h\u00e1 bom relacionamento. At\u00e9 procuramos n\u00e3o fazer barulho para n\u00e3o perturbar os outros, quando as celebra\u00e7\u00f5es coincidem, ao domingo \u00e0 noite. Como a minha presen\u00e7a l\u00e1, passou a haver missa ao domingo de manh\u00e3 por causa das catequeses, uma missa diferente, com a criatividade da catequese.<\/p>\n<p>Vivia com a comunidade?<\/p>\n<p>Sim, \u00e9ramos uma comunidade de quatro padres em Chapadinha: eu, o Pe Neves e o Casimiro, ambos h\u00e1 25 anos no Brasil, e o Padre Ant\u00f3nio Tavares. Mata Roma fica a 38 km de estrada boa.<\/p>\n<p>Como era o vosso sustento econ\u00f3mico?<\/p>\n<p>A par\u00f3quia de Mata Roma, podemos consider\u00e1-la pobre. Mas a outra at\u00e9 \u00e9 considerada na diocese a mais rica. N\u00e3o h\u00e1 ind\u00fastria em Chapadinha, mas tem muitos servi\u00e7os e acaba por ser uma par\u00f3quia importante. H\u00e1 at\u00e9 quem refira que l\u00e1 \u00e9 que devia estar a sede da diocese e n\u00e3o no Brejo, que \u00e9 mais uma refer\u00eancia hist\u00f3rica, um pouco como em Portugal com a diocese de Bragan\u00e7a-Miranda. Estamos a fazer for\u00e7a para que o bispo venha para Chapadinha. Brejo fica na conflu\u00eancia de um rio e n\u00e3o tem sa\u00edda. Chapadinha fica no tri\u00e2ngulo entre S. Lu\u00eds, Fortaleza e Teresina, tr\u00eas capitais de estado. Chapadinha \u00e9 uma par\u00f3quia rica. N\u00f3s implant\u00e1mos l\u00e1 uma coisa que se v\u00ea muitos nas igrejas evang\u00e9licas: o d\u00edzimo. \u00c9 uma realidade nova, o d\u00edzimo cat\u00f3lico, mas as pessoas n\u00e3o se escandalizam. Avan\u00e7\u00e1mos na par\u00f3quia e j\u00e1 se consolidou. O d\u00edzimo d\u00e1 3000 a 3500 reais por m\u00eas. O ordenado m\u00ednimo \u00e9 260 reais. Nenhum dos padres \u2013 a meu ver, mal \u2013 recebe ordenado. A par\u00f3quia suporta as despesas.<\/p>\n<p>Quanto d\u00e3o, ou s\u00e3o aconselhadas a dar, como d\u00edzimo?<\/p>\n<p>O que podem dar. N\u00e3o se trata dos dez por cento. O d\u00edzimo \u00e9 um extra, porque as pessoas continuam a pagar as taxas, e isso ainda \u00e9 a receita maior. N\u00e3o as anul\u00e1mos. Algumas pessoas acham que dando o d\u00edzimo n\u00e3o deviam pagar mais nada. E caminhamos para isso, mas como aquilo n\u00e3o \u00e9 um \u201ctoma l\u00e1, d\u00e1 c\u00e1\u201d&#8230;  A par\u00f3quia de Mata Roma recebe 700 a 800 reais de d\u00edzimo.<\/p>\n<p>Como avalia estes tr\u00eas anos no Brasil?<\/p>\n<p>Foram tr\u00eas anos de muito stress, de algum esgotamento f\u00edsico.<\/p>\n<p>Pesa menos?<\/p>\n<p>N\u00e3o quero dizer o meu peso, mas peso menos tr\u00eas quilos. Foram tr\u00eas anos stressantes, de certa forma inibidores. \u00c0s vezes sentia que podia dizer mais qualquer coisa. Mas procurei seguir um princ\u00edpio b\u00e1sico de quem vai para uma nova cultura: \u201cCala-te, ouve\u201d \u2013 porque tr\u00eas anos at\u00e9 pode ser pouco. \u00c0s vezes h\u00e1 a tenta\u00e7\u00e3o de dar j\u00e1 a resposta, ou \u201cn\u00f3s \u00e9 que trazemos a receita feita\u201d. \u00c9 a velha quest\u00e3o: eu n\u00e3o vou anunciar Deus. Deus j\u00e1 l\u00e1 estava \u00e0 minha espera, quando eu cheguei, fosse na express\u00e3o cat\u00f3lica ou noutra express\u00e3o religiosa qualquer. Estava na cultura do povo. Tinha que sentir isso.<\/p>\n<p>Por outro lado, l\u00e1 senti muito a necessidade de planejamento pastoral.<\/p>\n<p>Foram tamb\u00e9m tr\u00eas anos de amadurecimento pessoal. Pela experi\u00eancia humana, pelo contacto com o sofrimento das crian\u00e7as, pelas estruturas de pecado. Senti-me impotente para resolver muitas situa\u00e7\u00f5es, mas foram anos de amadurecimento. Como experi\u00eancia humana foi muito enriquecedor. Senti a passagem dos trinta anos l\u00e1 e foi muito significativo. De certa forma h\u00e1 algo de geracional, um antes e depois. Isso marcou. Uma esp\u00e9cie de revis\u00e3o de vida, dos sonhos, os projectos\u2026 <\/p>\n<p>Referiu as estruturas de pecado\u2026<\/p>\n<p>Tem a ver com a corrup\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica, o sistema econ\u00f3mico\u2026 M\u00e1 gest\u00e3o dos pol\u00edticos, na base do marketing e do populismo. Rela\u00e7\u00f5es pol\u00edtico\/eleitorais perversas, que criam subservi\u00eancia. Assisti a uma campanha eleitoral e verifiquei isso mesmo. Ando a ler uma hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o e parece que o esp\u00edrito entre o senhor dos engenhos do a\u00e7\u00facar e o escravo ainda est\u00e1 presente\u2026 \u00c9 um esp\u00edrito que demora s\u00e9culos a desaparecer.<\/p>\n<p>Uma vez fui celebrar missa ao interior e na missa um dono da terra deu-me o abra\u00e7o da paz. Passados uns dias surgiu no jornal que ele tinha sido o mandante de um assass\u00ednio de um lavrador\u2026 H\u00e1 pervers\u00f5es deste g\u00e9nero. Ou o assassinato de um chefe da pol\u00edcia que era \u00edntegro. Ou pontes que caem e que n\u00e3o s\u00e3o reparadas. Ou, se se constr\u00f3i uma ponte substituta, h\u00e1 algu\u00e9m que se indigna e deita fogo. Al\u00e9m de que, por exemplo, para arranjar um visto para uma religiosa \u00e9 necess\u00e1rio recorrer a algum pol\u00edtico conhecido.<\/p>\n<p>A vida pastoral tem diferen\u00e7as?<\/p>\n<p>Tr\u00eas coisas diferentes. Uma \u00e9 a novena: nove dias consecutivos, para preparar a festa do padroeiro. Todas as noites h\u00e1 eucaristia ou celebra\u00e7\u00e3o da palavra; h\u00e1 temas sobre cate-quese, liturgia ou os mandamentos, ou sobre S. Francisco, S.ta Teresa\u2026 Escolhe-se cada dia um aspecto biogr\u00e1fico e trabalha-se com a comunidade. Se calhar isto \u00e9 pr\u00e9-conciliar, mas a partir de uma religiosidade popular, evangeliza-se com novos m\u00e9todos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se valoriza muito a espiritualidade das primeiras sextas-feiras, do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. Os jovens, por exemplo, aderem \u00e0 proposta da primeira quinta-feira do m\u00eas, com confiss\u00f5es individuais ou celebra\u00e7\u00f5es penitenciais comunit\u00e1rias com absolvi\u00e7\u00e3o geral. L\u00e1 \u00e9 perfeitamente consensual.<\/p>\n<p>Outra coisa importante no Brasil \u00e9 a Campanha da Frater-nidade, na Quaresma. Envolve todo o Brasil e cria unidade nas dioceses. Tem sempre um cariz social, interventivo, questionador. A \u00faltima foi sobre a \u201c\u00c1gua, fonte de vida\u201d \u2013 teve a ver com ecologia, com o modo como cui-damos dos rios, aprender a n\u00e3o desperdi\u00e7ar \u00e1gua no banheiro, quando se lava os dentes, at\u00e9 \u00e0 espiritualidade da \u00e1gua, que une todas as regi\u00f5es&#8230; Todo o Brasil falou do assunto. Anteriormente tinha sido sobre os idosos e antes sobre os ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Quando eu sair do Brasil, quero comprar todos os anos esse guia. Algo muito bem estruturado. A Campanha da Fraternidade move toda a comunidade.<\/p>\n<p>Na quaresma vamos a todos os bairros. N\u00e3o h\u00e1 visita pascal. Aqui os padres stressam com as confiss\u00f5es. L\u00e1 \u00e9 por causa das visitas aos bairros. Nessa altura sentimos mais o pulsar da vida e os problemas das pessoas, uns est\u00e3o a chegar do interior, outros est\u00e3o a construir a casa. \u00c9 um trabalho muito questionador. Chamamos a isso \u201cpastoral do sentadinho\u201d, porque nos sentamos e conversamos com as pessoas, sem pressa.<\/p>\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia \u00e9 diferente?<\/p>\n<p>Geralmente t\u00eam uma tonalidade mais alegre, com palmas, com c\u00e2nticos mais animados, com coreografias e dan\u00e7as. \u00c9 um pouco diferente do que vi em \u00c1frica, em que era mais \u00e0 base do ritmo e do tambor. L\u00e1, espontaneamente, tr\u00eas ou quatro mo\u00e7as fazem um bailado, uma coreografia, enquanto aqui \u00e9 sempre mais programado, num encontro de juventude, numa missa do CUFC\u2026 Aqui \u00e9 mais extraordin\u00e1rio. L\u00e1 \u00e9 o ordin\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. Pedro Jos\u00e9, em entrevista depois de tr\u00eas anos de trabalho mission\u00e1rio no Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-16384","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16384","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16384"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16384\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}