{"id":16396,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16396"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"as-linhas-gerais-propostas-sao-inteligentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/as-linhas-gerais-propostas-sao-inteligentes\/","title":{"rendered":"&#8220;As linhas gerais propostas s\u00e3o inteligentes&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista a Henrique Queiroga sobre a estrat\u00e9gia para os oceanos <!--more--> Henrique Queiroga \u00e9 professor de Oceanografia Biol\u00f3gica e Ecologia Marina Universidade de Aveiro. O Correio do Vouga falou com este especialista em assuntos dos oceanos sobre a estrat\u00e9gia e suas implica\u00e7\u00f5es para a regi\u00e3o de Aveiro.<\/p>\n<p>Correio do Vouga \u2014 Como comenta o relat\u00f3rio? A estrat\u00e9gia dos oceanos pode empolgar o pa\u00eds?<\/p>\n<p>Henrique Queiroga \u2014 \u00c9 imposs\u00edvel comentar do relat\u00f3rio sobre a Estrat\u00e9gia Nacional para o Oceano, pois este n\u00e3o foi, at\u00e9 ao momento, tornado p\u00fablico! A maior parte da informa\u00e7\u00e3o que me chegou \u00e9 aquela que tem sido veiculada pela comunica\u00e7\u00e3o social. Para al\u00e9m disso, tive a oportunidade de trocar algumas ideias com Tiago Pitta e Cunha, presidente da Comiss\u00e3o Estrat\u00e9gica para os Oceanos, na altura em que o relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o estava a ser preparado, bem como de assistir \u00e0 confer\u00eancia que ele proferiu a semana passada na Universidade de Aveiro.<\/p>\n<p>Mas ficou com algumas impress\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>As impress\u00f5es que formei atrav\u00e9s destes contactos s\u00e3o as de que o esfor\u00e7o desenvolvido \u00e9 merit\u00f3rio. A avalia\u00e7\u00e3o do relacionamento da sociedade portuguesa com o mar \u00e9 l\u00facida, e as linhas gerais propostas \u2013 desenvolver as actividades econ\u00f3micas directa e indirectamente ligadas ao mar, como forma de promover o desenvolvimento econ\u00f3mico, social e ambiental portugu\u00eas, tornando simultaneamente Portugal um interlocutor internacional com uma imagem de marca associada ao mar \u2013 parecem-me inteligentes. Quando utilizo o termo \u201cl\u00facida\u201d quero dizer que estou de acordo com a an\u00e1lise de que, por raz\u00f5es hist\u00f3ricas, o mar tem cada vez menos um lugar no dia-a-dia da popula\u00e7\u00e3o portuguesa. Para al\u00e9m do costume nacional que \u00e9 a passagem de f\u00e9rias na praia, e ao contr\u00e1rio do mito hist\u00f3rico que pretende ser o Mar um Des\u00edgnio Portugu\u00eas, n\u00e3o me parece que haja, actualmente, muitas raz\u00f5es para crer que a nossa rela\u00e7\u00e3o com o mar seja especialmente mais intensa do que aquela evidenciada por v\u00e1rias outras na\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, a ideia geral parece-me inteligente, porque Portugal tem uma dimens\u00e3o terrestre reduzida e com poucos recursos naturais, podendo estas condicionantes ser ultrapassadas pelas oportunidades de desenvolvimento que a nossa enorme Zona Econ\u00f3mica Exclusiva apresenta.<\/p>\n<p>Como poder\u00e1, ent\u00e3o, a estrat\u00e9gia resultar?<\/p>\n<p>Seria necess\u00e1rio, nesta fase em que \u00e9 posta \u00e0 discuss\u00e3o, uma actua\u00e7\u00e3o muito mais intensa por parte da Comiss\u00e3o e do Governo, com os objectivos de incentivar a sua discuss\u00e3o p\u00fablica. Hoje mesmo [29 de Novembro] tive oportunidade de conversar com os meus alunos sobre este assunto, numa aula de Ecologia. Dos quarenta alunos presentes nenhum tinha ouvido falar da Estrat\u00e9gia Nacional para o Oceano, e s\u00f3 dois, no fim da aula, me vieram perguntar se tal estrat\u00e9gia tinha algo a ver com a extens\u00e3o do limite da nossa ZEE para as 350 milhas\u2026 \u00c9 \u00f3bvio que tem, mas \u00e9 \u00f3bvio tamb\u00e9m que o desconhecimento deste tema evidenciado por aqueles que far\u00e3o parte da futura elite cultural do pa\u00eds n\u00e3o abona em favor da forma como este assunto tem sido apresentado, nem sobre o seu sucesso futuro.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Estrat\u00e9gica dos Oceanos afirma que Portugal tem algumas bolsas de \u201cknow-how\u201d. Na \u00e1rea da investiga\u00e7\u00e3o, quais s\u00e3o? Ou antes, passam pela Universidade de Aveiro? Em que se distingue a UA na quest\u00e3o dos oceanos?<\/p>\n<p>Portugal \u00e9 um pa\u00eds pequeno que apenas nos \u00faltimos 10-15 anos come\u00e7ou a dar passos importantes no sentido de se desenvolver cient\u00edfica e tecno-logicamente. As bolsas de \u201cknow-how\u201d que existem s\u00e3o poucas e de reduzida dimens\u00e3o. Em lugar de as indicar, prefiro apontar tr\u00eas ou quatro \u00e1reas em que, na minha opini\u00e3o, Portugal deve apostar, tendo em conta n\u00e3o s\u00f3 a exist\u00eancia de grupos cient\u00edficos j\u00e1 estabelecidos, mas tamb\u00e9m o enquadramento biogeof\u00edsico do pa\u00eds. Na minha opini\u00e3o, estas \u00e1reas t\u00eam a possibilidade de constituir pontos focais da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com o potencial de dinamizarem \u00e1reas cient\u00edficas e econ\u00f3micas a montante e a jusante.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o essas \u00e1reas?<\/p>\n<p>&#8211; Recupera\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o dos recursos biol\u00f3gicos tradicionais do seu mar costeiro. Muitos desses recursos est\u00e3o actualmente desvalorizados dado que as suas popula\u00e7\u00f5es, por v\u00e1rios motivos, foram reduzidas a dimens\u00f5es irris\u00f3rias. Muitos desses recursos apresentam alt\u00edssimo valor econ\u00f3mico. Um programa sustentado que integrasse a cria\u00e7\u00e3o de \u00c1reas Marinhas Protegidas, a avalia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos recursos, a sua gest\u00e3o aproximando os agentes da pesca do processo de decis\u00e3o, bem como a valoriza\u00e7\u00e3o dos produtos da pesca, poderia fazer com que a lagosta, o lavagante, o mero ou a corvina, para al\u00e9m de outras esp\u00e9cies que sustentam uma s\u00e9rie de pescarias artesanais com alto valor social, ganhem import\u00e2ncia econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>&#8211; Investiga\u00e7\u00e3o sobre os processos biol\u00f3gicos, f\u00edsicos, qu\u00edmicos e geol\u00f3gicos do mar profundo. Mesmo que n\u00e3o se assista \u00e0 expans\u00e3o da nossa ZEE para o limite das 350 milhas, o mar sob nossa soberania cobre uma importante diversidade de ambientes profundos. Para al\u00e9m das potenciais vantagens econ\u00f3micas associadas \u00e0 extrac\u00e7\u00e3o de minerais dos fundos marinhos e da utiliza\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies das fontes hidrotermais, muito abundantes no mar dos A\u00e7ores, os ecossistemas do mar profundo podem ajudar a compreender a resposta do planeta Terra ao aquecimento global e ao excesso de carbono que \u00e9 introduzido actualmente na atmosfera pelo Homem.<\/p>\n<p>&#8211; Investiga\u00e7\u00e3o sobre os mecanismos de produ\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica na plataforma costeira de Portugal continental. A nossa costa continental est\u00e1 situada numa regi\u00e3o sujeita ao que se chama afloramento costeiro, controlado pelo regime dos ventos associados ao Anticiclone dos A\u00e7ores. Este enquadramento geof\u00edsico torna o nosso mar bastante produtivo, ao mesmo tempo que tamb\u00e9m proporciona possibilidades de investiga\u00e7\u00e3o sobre os mecanis-mos de regula\u00e7\u00e3o do carbono atmosf\u00e9rico e da sua exporta\u00e7\u00e3o para os fundos oce\u00e2nicos.<\/p>\n<p>&#8211; Investiga\u00e7\u00e3o sobre o ambiente e promo\u00e7\u00e3o da qualidade ambiental. Se excluirmos a sobrepesca, j\u00e1 referida, as principais amea\u00e7as que os ecossistemas marinhos enfrentam a curto e a m\u00e9dio prazo s\u00e3o a polui\u00e7\u00e3o do mar \u2013 pelo tr\u00e1fego mar\u00edtimo na nossa costa \u2013 e dos habitats aqu\u00e1ticos costeiros \u2013 causada pelos aglomerados urbanos, mas tamb\u00e9m pela ind\u00fastria e pela agricultura \u2013 bem como a reclama\u00e7\u00e3o de terras para v\u00e1rios fins. Estes factores, para al\u00e9m da degrada\u00e7\u00e3o da qualidade est\u00e9tica que causam nos ambientes litorais, prejudicam a sua produtividade biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>E qual ser\u00e1 o papel da Universidade?<\/p>\n<p>No que respeita \u00e0 Universidade de Aveiro, a investiga\u00e7\u00e3o sobre estas e outras mat\u00e9rias est\u00e1 a cargo do CESAM \u2013 Centro de Estudos do Ambiente e do Mar. Esta unidade de investiga\u00e7\u00e3o, que negoceia actualmente com a Funda\u00e7\u00e3o para a Ci\u00eancia e Tecnologia o estatuto de Laborat\u00f3rio Associado, tem marcado um lugar de destaque na investiga\u00e7\u00e3o sobre v\u00e1rios aspectos da qualidade ambiental dos ecossistemas marinhos. Polui\u00e7\u00e3o qu\u00edmica e org\u00e2nica, polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica nos ambientes costeiros, toxicologia, impacto e monitoriza\u00e7\u00e3o ambientais, ordenamento territorial, s\u00e3o alguns dos aspectos actualmente desenvolvidos pelo CESAM. Importantes \u00e1reas de investiga\u00e7\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m os mecanismos biof\u00edsicos que controlam a din\u00e2mica de popula\u00e7\u00f5es de invertebrados e a sua produ\u00e7\u00e3o nos estu\u00e1rios e mares costeiros, a geoqu\u00edmica e a biologia dos fundos oce\u00e2nicos, bem como os factores que controlam a estrutura das comunidades biol\u00f3gicas nos ambientes costeiros.<\/p>\n<p>Um dos objectivos estrat\u00e9gicos do relat\u00f3rio \u00e9 o \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel da economia\u201d. Na zona de Aveiro, e mais concretamente na Ria, quais as \u00e1reas mais suscept\u00edveis de crescimento econ\u00f3mico?<\/p>\n<p>\u00c9 para mim dif\u00edcil responder a esta quest\u00e3o, a qual ultrapassa o campo da Biologia e das Ci\u00eancias do Mar. Julgo que haver\u00e1 v\u00e1rias \u00e1reas com oportunidades para se desenvolverem economicamente \u2013 transportes, turismo, ind\u00fastria, pesca, agricultura, piscicultura\u2026 &#8211; e eu n\u00e3o sou provavelmente a melhor pessoa para saber quais. Quero no entanto salientar que tal desenvolvimento se deve sempre basear na preserva\u00e7\u00e3o do funcionamento equilibrado do ecossistema, incluindo a preserva\u00e7\u00e3o daquelas fun\u00e7\u00f5es do ecossistema que s\u00e3o \u00fateis a todos e n\u00e3o apenas a alguns.<\/p>\n<p>Dou um exemplo. Das mais de 200 salinas que estavam em actividade no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, pouco mais de uma dezena produzem actualmente sal. V\u00e1rias t\u00eam sido reconvertidas em pisciculturas extensivas e semi-intensivas. Poder\u00e3o as 200 salinas que ca\u00edram em desuso ser transformadas em aquaculturas? Provavelmente n\u00e3o, porque duvida-se que a Ria tenha suficiente capacidade de autodepura\u00e7\u00e3o para limpar os efluentes org\u00e2nicos produzidos. Deixar\u00edamos de ter solhas e am\u00eaijoas, e certamente que a Ria deixaria de ser um lugar apraz\u00edvel para visitar e para fazer vela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista a Henrique Queiroga sobre a estrat\u00e9gia para os oceanos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-16396","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16396","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16396"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16396\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16396"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16396"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16396"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}