{"id":16418,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16418"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"o-povo-ansiava-pela-restauracao-da-diocese","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-povo-ansiava-pela-restauracao-da-diocese\/","title":{"rendered":"O povo ansiava pela restaura\u00e7\u00e3o da diocese"},"content":{"rendered":"<p>Diocese de Aveiro faz 66 anos <!--more--> A restaura\u00e7\u00e3o da Diocese de Aveiro aconteceu h\u00e1 sessenta e seis anos. Depois de um demorado processo, com avan\u00e7os e recuos, com entusiasmos e perplexidades, em 24 de Agosto de 1938, o papa Pio XI assinou finalmente a respectiva bula, cuja execu\u00e7\u00e3o se verificou em 11 de Dezembro seguinte. Mons. Jo\u00e3o Gaspar, mem\u00f3ria viva da diocese, tem-se dedicado a escrever sobre o acontecimento, que n\u00e3o pode deixar de fazer parte da hist\u00f3ria de Aveiro. Por isso, fomos ao seu encontro e convers\u00e1mos com ele; do di\u00e1logo, tom\u00e1mos alguns apontamentos.<\/p>\n<p>Correio do Vouga: &#8211; Que recorda\u00e7\u00f5es tem da restaura\u00e7\u00e3o da Diocese de Aveiro?<\/p>\n<p>Mons. Jo\u00e3o Gaspar: &#8211; A\u00ed por finais de 1936, quando iniciava os estudos na Escola Prim\u00e1ria de Eixo, comecei a ouvir o meu pai falar frequentemente sobre o assunto; tamb\u00e9m me fui apercebendo de que o prof. Jo\u00e3o de Pinho Brand\u00e3o trocava impress\u00f5es acerca do mesmo tema com as colegas, durante os nossos recreios. Fiquei a saber que um bispo, D. Jo\u00e3o Evangelista de Lima Vidal, liderava o movimento, sendo acompanhado por muitos aveirenses da cidade e da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais tarde, precisamente no dia 30 de Outubro de 1938, que era domingo, o nosso prior, padre Manuel da Cruz, anunciou as horas das Missas de Todos-os-Santos e dos Fi\u00e9is Defuntos. Depois, numa express\u00e3o de grande alegria, disse que estava restaurada a Diocese de Aveiro, \u00e0 qual Ei-xo ficava a pertencer, deixando a de Coimbra; na passada quinta-feira fora conhecida publicamente a assinatura da respectiva bula papal. Eu ainda n\u00e3o tinha nove anos e estava na igreja, junto de meu pai, participando na Eucaristia.<\/p>\n<p>Guardo dessa altura uma curiosidade muito particular. T\u00e3o intensamente vivia a causa que, na minha inoc\u00eancia \u2013 ou ingenuidade \u2013 ia solicitando, em ora\u00e7\u00e3o ao Senhor, que \u201cfosse bispo de Aveiro\u201d; umas semanas ou meses depois, haveria de corrigir o pedido: \u201cque fosse padre\u201d.<\/p>\n<p>CV: &#8211; A restaura\u00e7\u00e3o da Diocese era uma \u00e2nsia do povo? E tamb\u00e9m do clero?<\/p>\n<p>JG: &#8211; O acontecimento, que sobejamente demonstrou quanto o povo ansiava pela restaura\u00e7\u00e3o da Diocese, foi a ades\u00e3o dos crist\u00e3os \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 &#8211;  que se verificou na tarde do dia 11 de Dezembro de 1938. Desde a recep\u00e7\u00e3o ao primeiro bispo, o referido D. Jo\u00e3o Evangelista, nas fronteiras do norte, no limite da Branca, o cortejo at\u00e9 Aveiro foi uma aut\u00eantica festa oficial e popular; houve manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de rua, cerim\u00f3nias municipais em Albergaria-a-Velha e em Aveiro, entroniza\u00e7\u00e3o na s\u00e9 com ora-\u00e7\u00f5es de louvor a Deus, misturadas com palavras de gratid\u00e3o ao Santo Padre, de elogio ao principal promotor, de exalta\u00e7\u00e3o das belezas da nossa Terra.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3. Nos anos anteriores, houve abaixo-assinados dos sacerdotes e de muit\u00edssimas pessoas, atitudes de encorajamento, ofertas de im\u00f3veis e colectas monet\u00e1rias. A ideia alastrara por toda a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>CV: &#8211; Pode explicar como surgiu o movimento restauracionista da Diocese?<\/p>\n<p>JG: &#8211; A Diocese de Aveiro, criada em 1774, fora extinta em 1882. A partir desta data, o rio Vouga passou a ser a divis\u00f3ria entre as Dioceses do Porto e de Coimbra, ficando todo o concelho de Sever do Vouga na jurisdi\u00e7\u00e3o da de Viseu. Portanto, a cidade de Aveiro era de Coimbra.<\/p>\n<p>A primeira reuni\u00e3o para se tratar do poss\u00edvel ressurgimento da Diocese realizou-se em 1924, por iniciativa da conhecida e saudosa D. Concei\u00e7\u00e3o Maria dos Anjos \u2013 a Concei\u00e7\u00e3ozinha dos ovos moles da Costeira \u2013 que con-gregou diversas personalidades. Ela baseara-se num texto do c\u00e9lebre historiador local, Rangel de Quadros, que, logo ap\u00f3s a mencionada extin\u00e7\u00e3o, fora o porta-voz do descontentamento dos aveirenses. Esta senhora difundia por toda a parte o seu ideal, de tal forma que convenceu pessoas simples e homens influentes. Seguiram-se mais encontros, audi\u00eancias na Nunciatura Apost\u00f3lica e no Patriarcado de Lisboa, uma exposi\u00e7\u00e3o dirigida ao Santo Padre e pareceres dos bispos de Coimbra, do Porto e de Viseu.<\/p>\n<p>Entretanto, apanhado pela causa, D. Jo\u00e3o Evangelista de Lima Vidal, aveirense at\u00e9 ao \u00e2mago, a partir de 1932 tornou-se naturalmente o presidente e dinamizador da respectiva Comiss\u00e3o Promo-tora.<\/p>\n<p>CV: &#8211; Tratando-se de uma Diocese feita com parcelas de territ\u00f3rio de outras Dioceses, houve resist\u00eancia de alguma das partes?<\/p>\n<p>JG: &#8211; Tendo sido consultados individualmente, os bispos em refer\u00eancia ter\u00e3o pensado nos pr\u00f3s e nos contras da restaura\u00e7\u00e3o da Diocese de Aveiro, na \u00edndole do povo e no ambiente da cidade proposta para sede episcopal. Em face disto, foram moderados e circunspectos, n\u00e3o se deixando levar pelos primeiros entusiasmos, como \u00e9 pr\u00f3prio de homens respons\u00e1veis \u2013 o que tudo serviu para melhor se ponderar.<\/p>\n<p>O bispo de Coimbra, em 1932, diria ter d\u00favidas na viabilidade da restaura\u00e7\u00e3o da Diocese, por falta de recursos para ela se manter, em face das realidades concretas: rendimentos materiais, casa para o pa\u00e7o episcopal, edif\u00edcio para o semin\u00e1rio, pessoal eclesi\u00e1stico, etc.; contudo, informava que n\u00e3o se oporia. O bispo do Porto respondeu de modo semelhante, juntando apenas uma exposi\u00e7\u00e3o do clero de Cambra, que preferia n\u00e3o mudar de Diocese, por falta de comunica\u00e7\u00f5es com Aveiro. O bispo de Viseu apenas disse que se deveria atender ao bem espiritual do povo e que tal iniciativa projectava essa finalidade.<\/p>\n<p>CV: &#8211; H\u00e1 quem diga que a Diocese de Aveiro deveria estender-se a mais territ\u00f3rio. Na altura o assunto foi debatido? Foi consensual a geografia da Diocese?<\/p>\n<p>JG: &#8211; O assunto dos limites da Diocese foi a pe\u00e7a mais demorada e delicada de todo o processo, largamente debatido. A Santa S\u00e9, em certa ocasi\u00e3o, sugeriu que o seu territ\u00f3rio abarcasse toda a ria; por isso, al\u00e9m dos dez con-celhos que iriam ficar a pertencer-lhe, tamb\u00e9m se deviam inclu\u00edr os de S\u00e3o Jo\u00e3o da Madeira, Oliveira de Azem\u00e9is, Ovar, Mira e parte dos de Vale de Cambra e de Cantanhede.<\/p>\n<p>Dada a reac\u00e7\u00e3o, sobretudo surgida no norte do mapa aventado, p\u00f4s-se de parte o alvitre da Santa S\u00e9. Tamb\u00e9m n\u00e3o se caminhou para uma restaura\u00e7\u00e3o pura e simples da velha Diocese, com os limites que tinha ent\u00e3o, mas projectou-se um novo mapa que, apesar de qualquer resist\u00eancia espor\u00e1dica, foi superiormente aceite. \u00c9 este o que temos.<\/p>\n<p>CV: &#8211; Que acontecimen-tos destaca nos sessenta e seis anos de vida da Diocese de Aveiro?<\/p>\n<p>JG: &#8211; Seria um nunca-acabar de acontecimentos a destacar, ao longo da hist\u00f3ria da Diocese de Aveiro, com variados matizes. Foi em 1940 o atentado \u00e0 vida de D. Jo\u00e3o Evangelista, que o colocou \u00e0s portas da morte e que, se tivesse o efeito preten-dido pelo(s) agressor(es), dificultaria o futuro da mesma Diocese. Foi a realiza\u00e7\u00e3o do I S\u00ednodo, de 1941 a 1944, que teve o cond\u00e3o de unificar a disciplina em toda Diocese. Foi a constru\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio de Santa Joana na d\u00e9cada de 1940 e, posteriormente, a do Semin\u00e1rio de Calv\u00e3o. Foi o Curso de Apostolado Paroquial na Curia, em 1949, que abriu novas perspectivas pastorais para a actividade evang\u00e9lica e que deu brado em todo o Pa\u00eds. Foram os Cursos Sociais e Pastorais, nos anos seguintes, que constitu\u00edram uma aut\u00eantica forma\u00e7\u00e3o de agentes eclesiais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo isto, n\u00e3o posso esquecer as visitas pas-torais em novos moldes, que se tornaram em verdadeiras miss\u00f5es populares, com diversificadas actividades, como encontros, confer\u00eancias, prega\u00e7\u00f5es, catequeses, celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas, visitas \u00e0s autarquias, \u00e0s empresas, \u00e0s associa\u00e7\u00f5es, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de solidariedade e aos doentes e idosos nas suas casas. Delas falaram \u00f3rg\u00e3os da comunica\u00e7\u00e3o social, nacionais e estrangeiros.<\/p>\n<p>Nesta conversa informal, n\u00e3o posso esquecer os cinco Congressos Eucar\u00edsticos (1940-1944), o Congresso Catequ\u00edstico (1949), o Con-gresso dos Leigos (1988), o II S\u00ednodo (1990-1995). E lembro ainda a grandiosa, inolvid\u00e1vel e prof\u00e9tica \u201cManifesta\u00e7\u00e3o dos Crist\u00e3os\u201d, em 1975, para defesa dos direitos fundamentais, a que aderiram homens e mulheres de diversos credos religiosos, ideologias pol\u00edticas e categorias sociais; os aveirenses demonstraram, perante nacionais e estrangeiros, que eram pela democracia alicer\u00e7ada na justi\u00e7a, sem atropelos nem vingan\u00e7as.<\/p>\n<p>CV: &#8211; Tendo colaborado com todos os bispos da nova Diocese, com certeza que tamb\u00e9m viveu os seus dramas e tormentos. Pode partilhar com os nossos leitores?<\/p>\n<p>JG: &#8211; Efectivamente, n\u00e3o me t\u00eam sido alheios diversos momentos dif\u00edceis. Recordo a sucess\u00e3o dif\u00edcil e demorada de D. Jo\u00e3o Evangelista, venerado como figura de aveirense amigo e acolhedor, sempre atento aos problemas dos seus patr\u00edcios. Aconteceu em 1958. Dado o prec\u00e1rio estado de sa\u00fade de D. Domingos da Apresenta\u00e7\u00e3o Fernandes, que fora seu Bispo Auxiliar, esta tardou em ver o seu desfecho. Afinal, a Santa S\u00e9 tinha motivo para duvidar; passados quatro anos, o prelado acabaria por falecer inesperadamente, n\u00e3o sem ter desenvolvido uma cont\u00ednua actividade pastoral de fronteira. Foi ele que, em 1960, tendo consci\u00eancia dos inconvenientes geogr\u00e1ficos da par\u00f3quia de Requeixo, desmembrou parte do seu territ\u00f3rio, criando a par\u00f3quia de Nossa Senhora de F\u00e1tima. Houve incompreens\u00f5es e desentendimentos, que muito fizeram sofrer mas que mais tarde seriam sanados; no futuro, a institui\u00e7\u00e3o da freguesia civil veio dar raz\u00e3o ao bispo de Aveiro.<\/p>\n<p>D. Manuel de Almeida Trindade continuou, embora em moldes diferentes, a ac\u00e7\u00e3o que havia sido encetada. Sucedeu que, no seu tempo, em 25 de Abril de 1974 houve a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar, que abateu a Ditadura. Os meses seguintes foram de turbul\u00eancia social, at\u00e9 se encontrar o rumo para Portugal. Vivemos horas de desassossego, com amea\u00e7as de assalto ao Semin\u00e1rio de Santa Joana e \u00e0 Casa Episcopal; por\u00e9m, tudo passou, embora com sofrimento.<\/p>\n<p>Desde Janeiro de 1988, que temos como bispo de Aveiro D. Ant\u00f3nio Marcelino. S\u00f3 ele poderia responder a esta pergunta; todavia, n\u00e3o ser\u00e1 ousadia da minha parte dizer que aquilo que mais o faz sofrer com amargura \u2013 como a mim pr\u00f3prio \u2013 \u00e9 o facto de alguns sacerdotes terem abandonado o minist\u00e9rio, permanecendo embora como bons crist\u00e3os e colaboradores das par\u00f3quias e da Diocese. E, por tal prisma, isto \u00e9 consolador.<\/p>\n<p>Poderia continuar; todavia, a conversa vai longa. Muitos dos nossos leitores, ao olharem para estas recorda\u00e7\u00f5es, tirar\u00e3o do segredo da sua mem\u00f3ria outros epis\u00f3dios que, como comunidade diocesana, vivemos n\u00e3o s\u00f3 entre tristezas e ang\u00fastias, mas tamb\u00e9m entre alegrias e esperan\u00e7as. Resumindo, direi que valeu a pena a restaura\u00e7\u00e3o da Diocese de Aveiro; com o fogo e a energia do Pentecostes, iremos continuar\u2026 em nome do Senhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diocese de Aveiro faz 66 anos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-16418","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16418","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16418"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16418\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16418"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16418"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16418"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}