{"id":16466,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16466"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"nao-te-deixes-vencer-pelo-mal-vence-antes-o-mal-com-o-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/nao-te-deixes-vencer-pelo-mal-vence-antes-o-mal-com-o-bem\/","title":{"rendered":"N\u00e3o te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem"},"content":{"rendered":"<p>Mensagem do Papa Jo\u00e3o Paulo II para o Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2005 <!--more--> 1. No in\u00edcio do ano novo, volto a dirigir a minha palavra aos respons\u00e1veis das na\u00e7\u00f5es e a todos os homens e mulheres de boa vontade, que sentem como \u00e9 necess\u00e1rio construir a paz no mundo. Escolhi como tema para o Dia Mundial da Paz de 2005 a exorta\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo na Carta aos Romanos: \u00abN\u00e3o te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem\u00bb (12,21). O mal n\u00e3o se derrota com o mal: de facto, por a\u00ed, em vez de vencermos o mal, somos por ele derrotados.<\/p>\n<p>A perspectiva delineada pelo grande Ap\u00f3stolo p\u00f5e em evid\u00eancia uma verdade fundamental: a paz \u00e9 o resultado de uma longa e \u00e1rdua batalha, vencida quando o mal \u00e9 derrotado com o bem. \u00c0 vista dos dram\u00e1ticos cen\u00e1rios de violentos combates fratricidas que t\u00eam lugar em v\u00e1rias partes do mundo, diante dos indescrit\u00edveis sofrimentos e injusti\u00e7as que deles derivam, a \u00fanica op\u00e7\u00e3o realmente construtiva \u00e9 \u2014 como sugere ainda S\u00e3o Paulo \u2014 aborrecer o mal e aderir ao bem (cf. Rm 12,9).<\/p>\n<p>A paz \u00e9 um bem a ser promovido com o bem: \u00e9 um bem para as pessoas, as fam\u00edlias, as na\u00e7\u00f5es da terra e toda a humanidade; mas um bem que deve ser conservado e cultivado mediante op\u00e7\u00f5es e obras de bem. Compreende-se assim a verdade profunda de outra asser\u00e7\u00e3o de Paulo: \u00abN\u00e3o torneis a ningu\u00e9m mal por mal\u00bb (Rm 12,17). O \u00fanico modo de sair do c\u00edrculo vicioso do mal pelo mal \u00e9 acolher a palavra do Ap\u00f3stolo: \u00abN\u00e3o te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem\u00bb (Rm 12,21).<\/p>\n<p>O mal, o bem e o amor<\/p>\n<p>2. Desde as origens, a humanidade conheceu a tr\u00e1gica experi\u00eancia do mal e procurou encontrar as suas ra\u00edzes e explicar-lhe as causas. O mal n\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a an\u00f3nima que age no mundo devido a mecanismos deterministas e impessoais. O mal passa atrav\u00e9s da liberdade humana. No centro do drama do mal e constantemente relacionado com ele est\u00e1 precisamente esta faculdade que distingue o homem dos demais seres vivos sobre a terra. O mal tem sempre um rosto e um nome: o rosto e o nome de homens e mulheres que o escolhem livremente. A Sagrada Escritura ensina que, nos in\u00edcios da hist\u00f3ria, Ad\u00e3o e Eva se revoltaram contra Deus e que Abel foi morto pelo irm\u00e3o Caim (cf. Gn 3-4). Foram as primeiras escolhas erradas, \u00e0s quais se seguiram tantas outras ao longo dos s\u00e9culos. Cada uma delas traz em si uma essencial conota\u00e7\u00e3o moral, que implica concretas responsabilidades por parte do sujeito e p\u00f5e em quest\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es fundamentais da pessoa com Deus, com as outras pessoas e com a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Visto nas suas componentes mais profundas, o mal \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, um tr\u00e1gico esquivar-se \u00e0s exig\u00eancias do amor. O bem moral, pelo contr\u00e1rio, nasce do amor, manifesta-se como amor e \u00e9 orientado para amor. Este argumento \u00e9 particularmente evidente para o crist\u00e3o, pois sabe que a participa\u00e7\u00e3o no \u00fanico Corpo m\u00edstico de Cristo coloca-o em particular rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente com o Senhor, mas tamb\u00e9m com os irm\u00e3os. A l\u00f3gica do amor crist\u00e3o, que no Evangelho constitui o cora\u00e7\u00e3o palpitante do bem moral, conduz, se levada \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, at\u00e9 ao amor pelos inimigos: \u00abSe o teu inimigo tem fome, d\u00e1-lhe de comer; se tem sede, d\u00e1-lhe de beber\u00bb (Rm 12,20).<\/p>\n<p>A \u00abgram\u00e1tica\u00bb da lei moral universal<\/p>\n<p>3. Contemplando a situa\u00e7\u00e3o actual do mundo, n\u00e3o pode deixar de constatar-se uma impressionante difus\u00e3o de numerosas manifesta\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas do mal: desde a desordem social \u00e0 anarquia e \u00e0 guerra, da injusti\u00e7a \u00e0 viol\u00eancia contra o outro e \u00e0 sua supress\u00e3o. Para orientar o seu pr\u00f3prio caminho entre as solicita\u00e7\u00f5es opostas do bem e do mal, a fam\u00edlia humana tem urgente necessidade de se valer do patrim\u00f3nio comum de valores morais que o mesmo Deus lhe deu. Por isso, a quantos est\u00e3o decididos a vencer o mal com o bem, S\u00e3o Paulo convida a cultivar atitudes nobres e desinteressadas de generosidade e de paz (cf. Rm 12,17-21).<\/p>\n<p>H\u00e1 dez anos, falando \u00e0 Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas a prop\u00f3sito do empenho comum ao servi\u00e7o da paz, insisti na refer\u00eancia \u00e0 \u00ab gram\u00e1tica \u00bb da lei moral universal, evocada pela Igreja em muitos dos seus pronunciamentos sobre esta mat\u00e9ria. Inspirando valores e princ\u00edpios comuns, essa lei une os homens entre si, apesar da diversidade das suas culturas, e \u00e9 imut\u00e1vel: \u00abSubsiste sob o fluxo das ideias e dos costumes e est\u00e1 na base do respectivo progresso. [&#8230;] Mesmo que se lhe neguem at\u00e9 os princ\u00edpios, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel destru\u00ed-la nem tir\u00e1-la do cora\u00e7\u00e3o do homem; ela ressurge sempre na vida dos indiv\u00edduos e das sociedades\u00bb.<\/p>\n<p>4. Comum a todos, esta gram\u00e1tica da lei moral exige comprometer-se sempre e com responsabilidade para que a vida das pessoas e dos povos seja respeitada e promovida. \u00c0 sua luz n\u00e3o podem deixar de ser estigmatizados vigorosamente os males de car\u00e1cter social e pol\u00edtico que afligem o mundo, sobretudo provocados pela eclos\u00e3o da viol\u00eancia. Neste contexto, como n\u00e3o pensar no amado Continente Africano, onde perduram conflitos que ceifaram e continuam a ceifar milh\u00f5es de v\u00edtimas? Como n\u00e3o evocar a perigosa situa\u00e7\u00e3o da Palestina, a Terra de Jesus, onde n\u00e3o se conseguem enla\u00e7ar, na verdade e na justi\u00e7a, os fios da m\u00fatua compreens\u00e3o rompidos por um conflito que, de dia para dia, atentados e vingan\u00e7as alimentam de maneira preocupante? E que dizer do tr\u00e1gico fen\u00f3meno da viol\u00eancia terrorista, que parece impelir o mundo inteiro para um futuro de medo e de ang\u00fastia? Enfim, como n\u00e3o constatar com amargura que o drama iraquiano se prolonga, infelizmente, em situa\u00e7\u00f5es de incerteza e de inseguran\u00e7a para todos?<\/p>\n<p>Para conseguir o bem da paz \u00e9 necess\u00e1rio afirmar, com consciente lucidez, que a viol\u00eancia \u00e9 um mal inaceit\u00e1vel e que nunca resolve os problemas. \u00abA viol\u00eancia \u00e9 uma mentira, porque se op\u00f5e \u00e0 verdade da nossa f\u00e9, \u00e0 verdade da nossa humanidade. A viol\u00eancia destr\u00f3i o que ambiciona defender: a dignidade, a vida e a liberdade dos seres humanos\u00bb. Por isso torna-se indispens\u00e1vel promover uma grande obra educadora das consci\u00eancias que forme a todos, sobretudo \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, para o bem, abrindo-lhes o horizonte do humanismo integral e solid\u00e1rio que a Igreja indica e deseja. Sobre estas bases, \u00e9 poss\u00edvel criar uma ordem social, econ\u00f3mica e pol\u00edtica que tenha em conta a dignidade, a liberdade e os direitos fundamentais de cada pessoa.<\/p>\n<p>O bem da paz e o bem comum<\/p>\n<p>5. Para promover a paz, vencendo o mal com o bem, ocorre dedicar particular aten\u00e7\u00e3o ao bem comum e suas vertentes sociais e pol\u00edticas. Com efeito, quando em todos os n\u00edveis se cultiva o bem comum, cultiva-se a paz. Poder\u00e1, por acaso, a pessoa realizar-se plenamente a si pr\u00f3pria prescindindo da sua natureza social, ou seja, do seu ser \u00ab com \u00bb e \u00ab para \u00bb os outros? O bem comum diz-lhe directamente respeito; tem a ver intimamente com todas as formas expressivas da sociabilidade humana: a fam\u00edlia, os grupos, as associa\u00e7\u00f5es, as cidades, as regi\u00f5es, os Estados, a comunidade dos povos e das na\u00e7\u00f5es. Todos, de alguma forma, est\u00e3o implicados no compromisso pelo bem comum, na busca constante do bem dos outros como se fosse o pr\u00f3prio. Uma tal responsabilidade compete de modo particular \u00e0 autoridade pol\u00edtica, em qualquer n\u00edvel da sua actua\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 chamada a criar aquele conjunto de condi\u00e7\u00f5es sociais que consentem e favorecem, nos seres humanos, o desenvolvimento integral da sua personalidade.<\/p>\n<p>O bem comum exige, pois, o respeito e a promo\u00e7\u00e3o da pessoa e dos seus direitos fundamentais, e bem assim o respeito e a promo\u00e7\u00e3o dos direitos das na\u00e7\u00f5es numa perspectiva universal. A tal prop\u00f3sito, diz o Conc\u00edlio Vaticano II: \u00ab A interdepend\u00eancia, cada vez mais estreita e progressivamente estendida a todo o mundo, faz com que o bem comum [&#8230;] se torne hoje cada vez mais universal e que, por esse motivo, implique direitos e deveres que dizem respeito a todo o g\u00e9nero humano. Cada grupo deve ter em conta as necessidades e leg\u00edtimas aspira\u00e7\u00f5es dos outros grupos e mesmo o bem comum de toda a fam\u00edlia humana\u00bb. O bem da humanidade inteira, inclusive para as futuras gera\u00e7\u00f5es, requer uma verdadeira coopera\u00e7\u00e3o internacional, para a qual cada na\u00e7\u00e3o deve oferecer a pr\u00f3pria colabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, vis\u00f5es decididamente redutoras da realidade humana transformam o bem comum em simples bem-estar s\u00f3cio-econ\u00f3mico, privado de qualquer finaliza\u00e7\u00e3o transcendente, e esvaziam-no da sua mais profunda raz\u00e3o de ser. Mas o bem comum possui tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o transcendente, porque Deus \u00e9 o fim \u00faltimo das suas criaturas. Al\u00e9m disso, os crist\u00e3os sabem que Jesus esclareceu plenamente a realiza\u00e7\u00e3o do verdadeiro bem comum da humanidade. A hist\u00f3ria avan\u00e7a para Cristo e n\u2019Ele culmina: gra\u00e7as a Ele, por meio d\u2019Ele e em vista d\u2019Ele, toda a realidade humana pode ser levada ao seu pleno acabamento em Deus.<\/p>\n<p>O bem da paz e o uso dos bens da terra<\/p>\n<p>6. Estando o bem da paz estreitamente ligado ao desenvolvimento de todos os povos, \u00e9 indispens\u00e1vel ter em conta as implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas do uso dos bens da terra. O Conc\u00edlio Vaticano II recordou oportunamente que \u00ab Deus destinou a terra e tudo o que nela existe ao uso de todos os homens e de todos os povos, de modo que os bens da cria\u00e7\u00e3o afluam com equidade \u00e0s m\u00e3os de todos segundo a regra da justi\u00e7a, insepar\u00e1vel da caridade\u00bb.<\/p>\n<p>O facto de pertencer \u00e0 fam\u00edlia humana confere a cada pessoa uma esp\u00e9cie de cidadania mundial, tornando-a titular de direitos e de deveres, visto que os homens est\u00e3o unidos por uma comunh\u00e3o de origem e de supremo destino. Basta que uma crian\u00e7a seja concebida para que se torne titular de direitos, mere\u00e7a aten\u00e7\u00e3o e cuidados e algu\u00e9m tenha o dever de lhos providenciar. A condena\u00e7\u00e3o do racismo, a tutela das minorias, a assist\u00eancia aos pr\u00f3fugos e refugiados, a mobiliza\u00e7\u00e3o da solidariedade internacional em favor de todos os necessitados n\u00e3o passam de aplica\u00e7\u00f5es coerentes do princ\u00edpio da cidadania mundial.<\/p>\n<p>7. O bem da paz deve ser visto hoje em estreita rela\u00e7\u00e3o com os novos bens que prov\u00eam do conhecimento cient\u00edfico e do progresso tecnol\u00f3gico. Tamb\u00e9m eles, por aplica\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio do destino universal dos bens da terra, devem colocar-se ao servi\u00e7o das necessidades prim\u00e1rias do homem. Oportunas iniciativas a n\u00edvel internacional podem dar plena actua\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio do destino universal dos bens, garantindo a todos \u2014 indiv\u00edduos e na\u00e7\u00f5es \u2014 as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para participar no desenvolvimento. Isto tornar-se-\u00e1 poss\u00edvel se se abaterem as barreiras e os monop\u00f3lios que marginalizam tantos povos.<\/p>\n<p>Mais ainda, o bem da paz ser\u00e1 melhor garantido se a comunidade internacional assumir, com maior sentido de responsabilidade, aquilo que normalmente \u00e9 designado por bens p\u00fablicos, ou seja, aqueles bens de que gozam automaticamente todos os cidad\u00e3os, mesmo sem terem feito uma concreta op\u00e7\u00e3o pelos mesmos. \u00c9 o caso, a n\u00edvel nacional, de bens como, por exemplo, o sistema judicial, o sistema de defesa, a rede vi\u00e1ria por estrada ou caminho-de-ferro. No mundo actual, plenamente atingido pelo fen\u00f3meno da globaliza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o cada vez mais numerosos os bens p\u00fablicos que assumem car\u00e1cter global e, consequentemente, aumentam tamb\u00e9m, de dia para dia, os interesses comuns. Basta pensar na luta contra a pobreza, na busca da paz e da seguran\u00e7a, na preocupa\u00e7\u00e3o pelas altera\u00e7\u00f5es climat\u00e9ricas, no controlo do cont\u00e1gio das doen\u00e7as. A tais interesses, a comunidade internacional deve responder com uma rede sempre mais ampla de acordos jur\u00eddicos, capaz de regulamentar o bom emprego dos bens p\u00fablicos, inspirando-se nos princ\u00edpios universais da equidade e da solidariedade.<\/p>\n<p>8. Al\u00e9m disso, o princ\u00edpio do destino universal dos bens permite enfrentar adequadamente o desafio da pobreza, tendo em conta sobretudo as condi\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria em que vivem ainda um mil milh\u00f5es de seres humanos. A comunidade internacional prop\u00f4s-se como objectivo priorit\u00e1rio, no in\u00edcio do novo mil\u00e9nio, reduzir para metade o n\u00famero destas pessoas at\u00e9 ao ano 2015. A Igreja apoia e estimula este empenho e convida os fi\u00e9is crentes em Cristo a manifestar, de maneira concreta e em todos os \u00e2mbitos, um amor preferencial pelos pobres.<\/p>\n<p>O drama da pobreza est\u00e1 estreitamente ligado tamb\u00e9m com a quest\u00e3o da d\u00edvida externa dos pa\u00edses pobres. N\u00e3o obstante os significativos progressos alcan\u00e7ados at\u00e9 agora, a quest\u00e3o ainda n\u00e3o encontrou uma solu\u00e7\u00e3o adequada. Transcorreram quinze anos desde quando chamei a aten\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica para o facto de que a d\u00edvida externa dos pa\u00edses pobres \u00abest\u00e1 ligada de maneira estreita com um grande n\u00famero de outros problemas, tais como o do investimento estrangeiro, do justo funcionamento das maiores organiza\u00e7\u00f5es internacionais, do pre\u00e7o das mat\u00e9rias primas, e assim por diante\u00bb. Os recentes mecanismos para a redu\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas, mais preocupados com as exig\u00eancias dos pobres, melhoraram sem d\u00favida a qualidade do crescimento econ\u00f3mico. Mas este, por uma s\u00e9rie de factores, \u00e9 ainda quantitativamente insuficiente para se alcan\u00e7arem os objectivos estabelecidos ao in\u00edcio do mil\u00e9nio. Os pa\u00edses pobres permanecem prisioneiros de um c\u00edrculo vicioso: as baixas rendas e o lento crescimento limitam a poupan\u00e7a e, por sua vez, os fracos investimentos e o uso ineficaz da poupan\u00e7a n\u00e3o favorecem o crescimento.<\/p>\n<p>9. Como afirmou o Papa Paulo VI e eu mesmo reiterei, o \u00fanico rem\u00e9dio realmente eficaz que permite aos Estados enfrentarem a dram\u00e1tica quest\u00e3o da pobreza \u00e9 fornecer-lhes os recursos necess\u00e1rios mediante financiamentos externos \u2014 p\u00fablicos e privados \u2014 concedidos em condi\u00e7\u00f5es acess\u00edveis, no quadro de rela\u00e7\u00f5es comerciais internacionais equitativamente reguladas. Torna-se imperiosamente necess\u00e1ria uma mobiliza\u00e7\u00e3o moral e econ\u00f3mica que seja, por um lado, respeitadora dos acordos assumidos em prol dos pa\u00edses pobres, mas, por outro, disposta a rever os acordos que a experi\u00eancia tenha demonstrado excessivamente onerosos para certos pa\u00edses. Nesta perspectiva, \u00e9 recomend\u00e1vel e necess\u00e1rio imprimir um novo impulso \u00e0 ajuda p\u00fablica para o desenvolvimento e explorar, apesar das dificuldades que este percurso possa apresentar, as propostas de novas formas de financiamento ao desenvolvimento. Alguns governos j\u00e1 est\u00e3o estudando atentamente mecanismos promissores que apontam nesta direc\u00e7\u00e3o, iniciativas significativas que devem ser levadas por diante de forma autenticamente consertada e no respeito do princ\u00edpio de subsidiariedade. Conv\u00e9m tamb\u00e9m controlar que a gest\u00e3o dos recursos econ\u00f3micos destinados ao desenvolvimento dos pa\u00edses pobres siga escrupulosamente crit\u00e9rios de boa administra\u00e7\u00e3o, tanto por parte dos doadores como dos destinat\u00e1rios. A Igreja anima e oferece a estes esfor\u00e7os a sua colabora\u00e7\u00e3o; basta citar, por exemplo, a preciosa contribui\u00e7\u00e3o dada atrav\u00e9s de numerosas entidades cat\u00f3licas de ajuda e de desenvolvimento.<\/p>\n<p>10. Na Carta apost\u00f3lica Novo millennio ineunte publicada ao concluir o grande Jubileu do ano 2000, mencionei a urg\u00eancia de uma nova fantasia da caridade para difundir no mundo o Evangelho da esperan\u00e7a. Isto torna-se evidente particularmente quando nos abeiramos dos numerosos e delicados problemas que obstaculizam o desenvolvimento do Continente Africano: vejam-se os numerosos conflitos armados, as pandemias agravadas ainda pelas condi\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria, a instabilidade pol\u00edtica acompanhada por uma generalizada inseguran\u00e7a social. S\u00e3o realidades dram\u00e1ticas, que requerem um caminho radicalmente novo para a \u00c1frica: \u00e9 necess\u00e1rio dar vida a novas formas de solidariedade, a n\u00edvel bilateral e multilateral, com um empenho mais decidido de todos, plenamente cientes de que o bem dos povos africanos representa uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para alcan\u00e7ar o bem comum universal.<\/p>\n<p>Possam os povos africanos encarregar-se, como protagonistas, do seu pr\u00f3prio destino e desenvolvimento cultural, civil, social e econ\u00f3mico! Cesse a \u00c1frica de ser apenas objecto de assist\u00eancia, para se tornar sujeito respons\u00e1vel de decididos e produtivos interc\u00e2mbios! Para se alcan\u00e7arem tais objectivos, \u00e9 necess\u00e1ria uma nova cultura pol\u00edtica, especialmente no \u00e2mbito da coopera\u00e7\u00e3o internacional. Desejo afirmar uma vez mais que a falta de cumprimento das reiteradas promessas relativas \u00e0 ajuda p\u00fablica para o desenvolvimento, a quest\u00e3o ainda aberta da pesada d\u00edvida internacional dos pa\u00edses africanos e a aus\u00eancia de uma especial considera\u00e7\u00e3o para com eles nas rela\u00e7\u00f5es comerciais internacionais, constituem graves obst\u00e1culos para a paz e, portanto, devem ser enfrentados e superados com urg\u00eancia. Nunca apareceu t\u00e3o determinante e decisiva como agora, para a realiza\u00e7\u00e3o da paz no mundo, a consci\u00eancia da depend\u00eancia entre pa\u00edses ricos e pobres, j\u00e1 que \u00abo desenvolvimento ou se torna comum a todas as partes do mundo, ou ent\u00e3o sofre um processo de regress\u00e3o mesmo nas zonas caracterizadas por um constante progresso\u00bb.<\/p>\n<p>Universalidade do mal e esperan\u00e7a crist\u00e3<\/p>\n<p>11. Diante de tantos dramas que afligem o mundo, os crist\u00e3os confessam com humilde confian\u00e7a que s\u00f3 Deus torna poss\u00edvel ao homem e aos povos a supera\u00e7\u00e3o do mal para alcan\u00e7ar o bem. Com a sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, Cristo nos redimiu e resgatou \u00abpor um grande pre\u00e7o\u00bb (1 Cor 6,20; 7,23), alcan\u00e7ando a salva\u00e7\u00e3o para todos. Com a sua ajuda, a todos \u00e9 poss\u00edvel vencer o mal com o bem.<\/p>\n<p>Apoiado na certeza de que o mal n\u00e3o prevalecer\u00e1, o crist\u00e3o cultiva uma ind\u00f3mita esperan\u00e7a, que o sustenta na promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e da paz. Apesar dos pecados pessoais e sociais que se verificam no agir humano, a esperan\u00e7a d\u00e1 um impulso sempre renovado ao compromisso pela justi\u00e7a e pela paz, juntamente com uma firme confian\u00e7a na possibilidade de construir um mundo melhor.<\/p>\n<p>Se no mundo est\u00e1 presente e actua o \u00abmist\u00e9rio da iniquidade\u00bb (2 Ts 2,7), n\u00e3o se deve esquecer que o homem redimido tem em si energias suficientes para contrast\u00e1-lo. Criado \u00e0 imagem de Deus e redimido por Cristo, que \u00abSe uniu de certo modo a cada homem\u00bb, este pode cooperar activamente para o triunfo do bem. A ac\u00e7\u00e3o do \u00ab Esp\u00edrito do Senhor enche o universo\u00bb (Sab 1,7). Os crist\u00e3os, especialmente os fi\u00e9is leigos, \u00abn\u00e3o devem esconder esta esperan\u00e7a no seu \u00edntimo; antes, pela cont\u00ednua convers\u00e3o e pela luta \u201ccontra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os esp\u00edritos do mal\u201d (Ef 6,12), manifestam-na tamb\u00e9m nas estruturas da vida secular\u00bb.<\/p>\n<p>12. Nenhum homem, nenhuma mulher de boa vontade pode esquivar-se ao compromisso de lutar para vencer o mal com o bem. \u00c9 uma batalha que se combate validamente somente com as armas do amor. Quando o bem vence o mal reina o amor, e onde reina o amor reina a paz. Tal \u00e9 o ensinamento do Evangelho reproposto pelo Conc\u00edlio Vaticano II: \u00abA lei fundamental da perfei\u00e7\u00e3o humana e, portanto, da transforma\u00e7\u00e3o do mundo, \u00e9 o novo mandamento do amor\u00bb.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 certo tamb\u00e9m no \u00e2mbito social e pol\u00edtico. A este respeito, o Papa Le\u00e3o XIII escrevia que quantos t\u00eam o dever de prover ao bem da paz nas rela\u00e7\u00f5es entre os povos devem alimentar em si e acender nos outros \u00ab a caridade, senhora e rainha de todas as virtudes\u00bb. Os crist\u00e3os sejam testemunhas convictas desta verdade; saibam mostrar com a sua vida que o amor \u00e9 a \u00fanica for\u00e7a capaz de levar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o pessoal e social, o \u00fanico dinamismo que pode fazer evoluir a hist\u00f3ria para o bem e a paz.<\/p>\n<p>Neste ano dedicado \u00e0 Eucaristia, os filhos da Igreja encontrem no supremo Sacramento do amor a fonte de toda a comunh\u00e3o: comunh\u00e3o com Jesus Redentor e, n\u2019Ele, com todo o ser humano. \u00c9 gra\u00e7as \u00e0 morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, tornadas sacramentalmente presentes em cada Celebra\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica, que somos salvos do mal e capazes de fazer o bem. Gra\u00e7as \u00e0 vida nova que Ele nos deu, podemos reconhecer-nos irm\u00e3os, para al\u00e9m de toda a diferen\u00e7a de l\u00edngua, nacionalidade, cultura. Numa palavra, \u00e9 gra\u00e7as \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do mesmo P\u00e3o e do mesmo C\u00e1lice que podemos sentir-nos \u00abfam\u00edlia de Deus\u00bb e, juntos, contribuir espec\u00edfica e eficazmente para a edifica\u00e7\u00e3o de um mundo baseado nos valores da justi\u00e7a, da liberdade e da paz.<\/p>\n<p>Vaticano, 8 de Dezembro de 2004.<\/p>\n<p>JO\u00c3O PAULO II<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem do Papa Jo\u00e3o Paulo II para o Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2005<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[61],"tags":[],"class_list":["post-16466","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-actualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16466","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16466"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16466\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16466"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16466"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16466"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}