{"id":16485,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16485"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"elevar-se-da-asia-aos-ceus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/elevar-se-da-asia-aos-ceus\/","title":{"rendered":"Elevar-se da \u00c1sia aos c\u00e9us"},"content":{"rendered":"<p>Reflex\u00e3o teol\u00f3gica sobre o mal <!--more--> Diante do mal, e, principalmente, do mal do inocente, as palavras s\u00e3o sempre em excesso. A hist\u00f3ria da humanidade fez-se e continua a construir-se diante do desafio misterioso do mal. E muitas t\u00eam sido as tentativas de lhe conferir sentido. Mas, muitas delas pecam por pretenderem reduzi-lo a esquemas mentais que acrescentam, \u00e0 dureza do mal, a crueldade da indiferen\u00e7a e do silenciamento da consci\u00eancia. A terr\u00edvel pergunta da m\u00e3e que, com a crian\u00e7a nos bra\u00e7os, eleva a sua voz aos c\u00e9us em busca de uma resposta, n\u00e3o pode sen\u00e3o inquietar, em vez de aquietar. E muitas t\u00eam sido as palavras que procuram aquietar, branqueando a for\u00e7a desafiadora do mal na hist\u00f3ria. <\/p>\n<p>Neste conjunto de respostas e palavras aquietadoras integro aquelas que, diante do mal, afirmam, definitivamente, que o mal \u00e9 a prova da n\u00e3o exist\u00eancia de um Deus bom. Tal conclus\u00e3o \u00e9 a ren\u00fancia a deixar-se desafiar constantemente pela interpela\u00e7\u00e3o do limite e da imperfei\u00e7\u00e3o, como se a leitura religiosa da vida fosse um amontoado de respostas pr\u00e9vias a todas as perguntas que o percurso di\u00e1rio do homem na hist\u00f3ria vai lan\u00e7ando. E este \u00e9 um erro fatal. <\/p>\n<p>Diante do mal, n\u00e3o h\u00e1 resposta alguma explicativa, mas antes, um profundo mist\u00e9rio que nos situa em atitude de vigil\u00e2ncia e aten\u00e7\u00e3o, em postura de permanente inquieta\u00e7\u00e3o, de permanente busca. A atitude religiosa n\u00e3o \u00e9, em meu entender, uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via a tudo. \u00c9, antes, a condi\u00e7\u00e3o que, emergente do mal, procura voar \u00e0s alturas, em busca de um sentido definitivo que n\u00e3o se afunda na hist\u00f3ria, mas que para al\u00e9m da hist\u00f3ria, conduz \u00e0 confian\u00e7a de que a \u00faltima palavra n\u00e3o ser\u00e1 a do mal. <\/p>\n<p>O bin\u00f3mio que emerge, diante do mal, \u00e9 o que separa o desespero da esperan\u00e7a, a satisfa\u00e7\u00e3o da inquieta\u00e7\u00e3o, a acomoda\u00e7\u00e3o da busca permanente. O homem religioso nasce, a\u00ed, onde o mal \u00e9 mais emergente. Porque a\u00ed se manifesta, de forma quase definitiva, o limite da criatura que, interpelada a realizar-se totalmente, se fica aqu\u00e9m da sua realiza\u00e7\u00e3o, na imperfei\u00e7\u00e3o da sua condi\u00e7\u00e3o criatural.<\/p>\n<p>Desafio interpelador<\/p>\n<p>Recordo, neste contexto, o pensamento penetrante de Andr\u00e9s Torres Queiruga que captou esta densidade desafiadora do mal e percebeu que, sendo ela aparentemente inconcili\u00e1vel com a afirma\u00e7\u00e3o de um Deus bondoso, havia que encontrar os pontos de encontro entre a milenar f\u00e9 crist\u00e3 na bondade divina e na sua provid\u00eancia permanente, e a sua quase inconciliabilidade com a exist\u00eancia do mal no mundo. Para Queiruga, o mundo, a criatura n\u00e3o podia sen\u00e3o ser imperfeita. Pelo que a pergunta n\u00e3o poder\u00e1 ser nunca \u00abporque criou Deus um mundo imperfeito?\u00bb, mas sim \u00abPorque aceita Deus criar um mundo sabendo que ele ser\u00e1 necessariamente imperfeito?\u00bb. A resposta, agora formulada a partir de uma pergunta ajustada, n\u00e3o poder\u00e1 ser sen\u00e3o que, pior que o mal, aqui entendido como a condi\u00e7\u00e3o de limite, \u00e9 o nada. E, entre criar, mesmo que com limite, ou deixar permanecer em nada, a op\u00e7\u00e3o melhor \u00e9, certamente, o bem com limite. Mas, religiosamente entendendo, o mal continua a\u00ed, a inquietar, a desafiar cada um que lhe sobrevive, a contribuir para a sua diminui\u00e7\u00e3o. E, na linha de Queiruga, esse contributo passa por aumentar a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o, pois o mal \u00e9 a n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o do bem. \u00c9, ali\u00e1s, de forma mais teol\u00f3gica, a recusa de responder positivamente \u00e0 provid\u00eancia que chama constantemente. (\u00c9 curioso ver que toda a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o \u00e9 feita na din\u00e2mica da voca\u00e7\u00e3o, do chamamento. O chamamento que apela \u00e0 plena perfei\u00e7\u00e3o, \u00e0 plena realiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas os humanos, mas toda a criatura.). Essa permanente Provid\u00eancia que apela, que chama, ora encontra resposta (no homem e nas demais criaturas emerge o bem, o milagre, a realiza\u00e7\u00e3o total do homem), ora \u00e9 recusada (e o bem fica por realizar, redunda em mal, em limite). E aqui nasce a pergunta: por que prevaleceu a recusa de resposta sobre plena realiza\u00e7\u00e3o? <\/p>\n<p>A resposta de Deus foi a morte do Inocente, o Eterno Inocente que recusa, na sua morte, a resposta dos que j\u00e1 no tempo de Job pretendiam imputar a Deus a responsabilidade do mal, ou ao pecado de alguns. O mal n\u00e3o \u00e9 pena ou cumprimento de puni\u00e7\u00f5es&#8230; \u00c9 desafio interpelador&#8230; \u00c9 o princ\u00edpio da condi\u00e7\u00e3o inquieta&#8230; <\/p>\n<p>Lu\u00eds Manuel Silva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00e3o teol\u00f3gica sobre o mal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[61],"tags":[],"class_list":["post-16485","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-actualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16485","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16485"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16485\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16485"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16485"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16485"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}