{"id":16507,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16507"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"uma-etica-rendida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-etica-rendida\/","title":{"rendered":"Uma \u00e9tica rendida"},"content":{"rendered":"<p>Livro &#8220;Os dez mandamentos no s\u00e9culo XXI&#8221; <!--more--> O \u00faltimo livro do espanhol Savater apresenta uma \u00e9tica que perde a for\u00e7a da utopia e se rende \u00e0 realidade \u2013 o contr\u00e1rio dos mandamentos de Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>As cartas, em forma de livro, com que Fernando Savater vem brindando o seu jovem interlocutor com reflex\u00f5es epistolares sobre a \u00e9tica e pol\u00edtica abriram-lhe um caminho que j\u00e1 lhe consagrou um lugar entre os leitores portugueses que confirmam que, afinal, \u00abde Espanha sempre podem vir ventos e casamentos\u00bb que n\u00e3o sejam necessariamente rejeitados por se pressuporem maus.<\/p>\n<p>Mas, se os ventos t\u00eam sido de fei\u00e7\u00e3o para este professor catedr\u00e1tico de \u00c9tica, vislumbramos que, com este livro, a mar\u00e9 poder\u00e1 vir a mudar. Aguardamos, com curiosidade, mas de esp\u00edrito cr\u00edtico agu\u00e7ado.<\/p>\n<p>Na verdade, esperando n\u00f3s encontrar reflex\u00f5es que, necessariamente, cr\u00edticas e aut\u00eanticas, resultantes da conflu\u00eancia entre a f\u00e9 milenar de Mois\u00e9s e o agnosticismo p\u00f3s-moderno de Savater, seriam provavelmente marcadas pela coer\u00eancia e oportunidade, sofremos algum defraudamento. Com efeito, a nossa progressiva leitura conduziu-nos \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que a proposta de Savater n\u00e3o vai al\u00e9m de uma panflet\u00e1ria proposta de uma \u00e9tica que, perdendo a sua for\u00e7a de utopia, se rende \u00e0 realidade. Mais ainda, n\u00e3o deixa de ser surpreendente alguma confus\u00e3o de conceitos, em concreto, no momento de reflectir sobre a eutan\u00e1sia, onde n\u00e3o fica clara a distin\u00e7\u00e3o entre terminar com um processo que visa prolongar, sem qualidade, uma vida meramente vegetativa (isto nada tem de eutan\u00e1sico), e o fim deliberado, contando com a ac\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, de uma vida que, dolorosa na sua condi\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 ser atenuada na sua dor, por meio de cuidados paliativos.<\/p>\n<p>Retomando a quest\u00e3o da sua vis\u00e3o \u00e9tica, confirmamos, com este t\u00edtulo, uma impress\u00e3o que j\u00e1 nos ficara da leitura de \u00c9tica para um jovem: a \u00e9tica, proposta por Savater, rende-se ao real e perdeu de todo do horizonte, a for\u00e7a ut\u00f3pica que define a natureza da \u00e9tica: ser um desafio \u00e0 realidade, aos comportamentos e \u00e0s atitudes. O prisma de Savater n\u00e3o \u00e9 o valor do agir, mas o valor da consequ\u00eancia do agir no sujeito que age. \u201cSe, para mim que ajo, os efeitos s\u00e3o positivos, prazenteiros, me conv\u00eam, ent\u00e3o, o meu agir ser\u00e1 bom\u201d. A \u00e9tica, assim formulada, perdeu a sua energia, pois reduziu-se ao t\u00f3pico, ao local, perdendo for\u00e7a e capacidade de se universalizar. <\/p>\n<p>Uma \u00e9tica p\u00f3s-moderna, mas n\u00e3o para a p\u00f3s-modernidade, necessitada de novos rumos. Esta \u00e9, paradoxalmente, uma \u00e9tica da legitima\u00e7\u00e3o, uma \u00e9tica que legitima o real, afundando-se com ele.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Silva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro &#8220;Os dez mandamentos no s\u00e9culo XXI&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[66],"tags":[],"class_list":["post-16507","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16507","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16507"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16507\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16507"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16507"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16507"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}