{"id":16534,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16534"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"o-que-o-poder-democratico-tem-a-aprender-com-a-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-que-o-poder-democratico-tem-a-aprender-com-a-cruz\/","title":{"rendered":"O que o poder democr\u00e1tico tem a aprender com a Cruz"},"content":{"rendered":"<p>Livro &#8220;A Crucifica\u00e7\u00e3o e a Democracia&#8221; <!--more--> De vez em quando h\u00e1 livros que surpreendem. Este \u00e9 um deles.<\/p>\n<p>\u00c9 lugar comum afirmar que as democracias modernas nasceram e se desenvolveram em pa\u00edses de matriz crist\u00e3. \u00c9 certo que depois foram exportadas para outros n\u00e3o-crist\u00e3os (Jap\u00e3o, por exemplo). Mas foi nos de tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 que o Estado e o poder foram dessacralizados \u2013 o que levou \u00e0 separa\u00e7\u00e3o religi\u00e3o\/poder e \u00e0 emerg\u00eancia da democracia, que \u00e9, afinal, o tipo de regime em que as religi\u00f5es convivem melhor, mesmo que algumas inicialmente se lhe tenham oposto.<\/p>\n<p>Mas este livro \u00e9 mais audaz. N\u00e3o trata de filiar a democracia no cristianismo, mas antes de tirar consequ\u00eancias para a democracia, a partir do epis\u00f3dio da crucifica\u00e7\u00e3o. No momento da condena\u00e7\u00e3o de Jesus, refere o autor, \u201ch\u00e1 uma conspira\u00e7\u00e3o geral contra o filho de Deus por parte dos tr\u00eas elementos do governo terreno \u2013 o autocr\u00e1tico, o aristocr\u00e1tico e o democr\u00e1tico, representados por Pilatos, o Sin\u00e9drio e a multid\u00e3o aglomerada em frente ao Pret\u00f3rio: uma representa\u00e7\u00e3o que \u00e9 paralela \u00e0 inscri\u00e7\u00e3o que cont\u00e9m a condena\u00e7\u00e3o de Jesus nas tr\u00eas l\u00ednguas do mundo antigo, para nos dar a entender que a rejei\u00e7\u00e3o de Jesus foi universal\u201d. Ora, quando o povo \u00e9 levado a escolher entre Jesus e Barrab\u00e1s, escolhe Barrab\u00e1s, aca-bando por condenar o Filho de Deus. Esta decis\u00e3o \u00e9 vista por muitos como a prova da fal\u00e1cia da democracia. E fez escola: v\u00e1rios livros foram escritos, nos anos 20 do s\u00e9culo passado, dando um apoio pelo menos indirecto \u00e0s ditaduras que governaram a Europa.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, para Gustavo Zagrebelsky, o que se passou no julgamento de Jesus foi um confronto entre poder dogm\u00e1tico (o do Sin\u00e9drio), que \u201caceita a democracia s\u00f3, se e enquanto ela servir como for\u00e7a, uma for\u00e7a dirigida para impor a verdade\u201d, e poder c\u00e9ptico (o de Pilatos), que, \u201ccomo n\u00e3o acredita em nada, tanto pode aceit\u00e1-la como repudi\u00e1-la\u201d. Nesta caso \u2013 como sempre \u2013 aceitam a decis\u00e3o do povo, porque lhes d\u00e1 jeito.<\/p>\n<p>Mas ter\u00e1 sido a decis\u00e3o do povo verdadeiramente democr\u00e1tica? Esta cita\u00e7\u00e3o \u00e9 esclarecedora (e podia ser perfeitamente aplicada aos julgamentos que todos os dias a comunica\u00e7\u00e3o social pede ao povo): \u201cO povo de Jerusal\u00e9m n\u00e3o pediu para ser investido no papel de \u00e1rbitro entre o Sin\u00e9drio e Pilatos. Foi colocado diante de uma pergunta que nunca se tinha colocado a si mesmo. Sabemos quantas d\u00favidas tinham circulado sobre Jesus e a sua identidade, sabemos que em ocasi\u00f5es se tinham atirado pedras contra ele, mas isso nunca tinha ocorrido em Jerusal\u00e9m e o dilema que agora o povo tinha que enfrentar era de todo in\u00e9dito. A turba n\u00e3o agiu. Apenas reagiu. N\u00e3o se tratou de uma reuni\u00e3o de homens senhores de si pr\u00f3prios, mas de uma massa manipulada por outros. Essa multid\u00e3o n\u00e3o era um sujeito. Era um objecto. (\u2026) Agir depressa! N\u00e3o havia tempo. A rapidez era a tend\u00eancia natural daquela multid\u00e3o emocional e n\u00e3o racional\u201d.<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o: longe de sair enfraquecida a democracia, sai refor\u00e7ada a necessidade daquilo a que o autor chama \u201cdemocracia cr\u00edtica\u201d, isto \u00e9, a que n\u00e3o dogmatiza nenhuma decis\u00e3o (nem a dos referendos, muito menos a dos \u201cprivil\u00e9gios adquiridos\u201d), porque limitada e fal\u00edvel (o \u201cpovo det\u00e9m um poder supremo, mas n\u00e3o ilimitado\u201d). A demo-cracia dogm\u00e1tica (a dos absolutismos) e a democracia c\u00e9ptica (a dos relativismos), ambas sem convic\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e levadas a acreditar na democracia por h\u00e1bito, \u00e9 que s\u00e3o postas em causa.<\/p>\n<p>Todos estes tipos de democracia est\u00e3o entre n\u00f3s (como na It\u00e1lia do autor), o que confere a este livro uma pertin\u00eancia not\u00e1vel.            <\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro &#8220;A Crucifica\u00e7\u00e3o e a Democracia&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[66],"tags":[],"class_list":["post-16534","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16534","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16534"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16534\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16534"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16534"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16534"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}