{"id":16539,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16539"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"rigor-cientifico-e-crendices-obtusas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/rigor-cientifico-e-crendices-obtusas\/","title":{"rendered":"Rigor cient\u00edfico e crendices obtusas"},"content":{"rendered":"<p>Dias Positivos <!--more--> 1. Um dos grandes enigmas da nosso tempo \u00e9 este: porque \u00e9 que, numa \u00e9poca supostamente dominada pela ci\u00eancia, aumenta a crendice, a teoria sem fundamento, a falsidade a torto e a direito?<\/p>\n<p>O nome da ci\u00eancia est\u00e1 sempre a ser invocado. Para vender um iogurte que protege mais, um detergente que lava melhor, uma pasta que branqueia, l\u00e1 aparece o \u201ccientificamente provado\u201d, o \u201ctestado em laborat\u00f3rio\u201d ou um cientista de gr\u00e1fico na m\u00e3o. Mas, ao mesmo tempo, ouvem-se as teorias mais obtusas. Que as pir\u00e2mides foram constru\u00ed-das por extraterrestres. Que os astros comandam a nossa vida. Que as doutrinas que a Igreja sempre ensinou s\u00e3o resultado de manipula\u00e7\u00e3o. Que h\u00e1 maus olhados. Que \u00e9 preciso ir \u00e0 bruxa ou ao mestre africano que cura os males de uma lista t\u00e3o extensa e criativa que daria para rir se n\u00e3o soub\u00e9ssemos que h\u00e1 pessoas que embarcam nessas patra-nhas (penso naqueles pap\u00e9is que de vez em quando s\u00e3o postos no limpa-vidros do autom\u00f3vel). Que s\u00f3 se entrarmos naquelas cadeias de e-mails ou sms (as cartas ca\u00edram em desuso) \u00e9 que evitamos um problema terr\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>Mas o que mais espanta \u00e9 que por vezes o rigor cient\u00edfico exigido, por exemplo, pela profiss\u00e3o, ocupa a mesma mente que a crendice mais grosseira.<\/p>\n<p>2. Agora parece que surgiu a moda de vender rel\u00edquias pela internet. N\u00e3o me refiro \u00e0s rel\u00edquias de santos. Trata-se de rel\u00edquias profanas. Por exemplo: Uma chiclete (mastigada) da cantora Britney Spears, ou os goles de \u00e1gua que Elvis deixou num copo. S\u00e3o casos reais. Foram transaccionados na internet e renderam muitos d\u00f3lares aos propriet\u00e1rios. \u00c9 de esperar que comecem a ser comprados\/vendidos, sei l\u00e1, os charutos de Che Guevara, as cordas do violino de Einstein, os chap\u00e9us de Diana ou os palitos de Napole\u00e3o. Como acreditar nas celebridades faz parte dos credos modernos, esses produtos ter\u00e3o com certeza muita procura.<\/p>\n<p>Estamos novamente na Idade M\u00e9dia, altura em que chegaram a existir 700 \u201cverdadeiros pregos\u201d da Cruz de Cristo, se vendiam saquinhos com o p\u00f3 de que Ad\u00e3o tinha sido criado, e um rei dizia ter um cr\u00e2nio de S. Jo\u00e3o Baptista com doze anos (outro dizia possuir a pedra que Jesus n\u00e3o teve para reclinar a cabe\u00e7a). A febre das rel\u00edquias era tanta (quando a f\u00e9 fica tresloucada degenera em febre), e gerou tantas falsifica\u00e7\u00f5es, que o cat\u00f3lico Erasmo de Roterd\u00e3o afirmou: \u201cOs verdadeiros bocados da cruz chegavam para construir um navio\u201d. E Jo\u00e3o Calvino, o reformador protestante, disse: \u201cSeria f\u00e1cil verificar que cada ap\u00f3stolo teria mais de quatro corpos e cada santo pelo menos dois ou tr\u00eas&#8230;\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o nego que os sinais podem ser necess\u00e1rios para a f\u00e9 (quase como as fotografias de quem se gosta). Mas o excesso de sinais \u00e9 um mau sinal. Eles s\u00e3o meios e n\u00e3o fins.<\/p>\n<p>3. Num jornal do fim-de-semana passado, dizia-se que h\u00e1 hoje muito espiritualismo, mas pouca espiritualidade. Na verdade, entre uma coisa e outra as diferen\u00e7as s\u00e3o abissais. A f\u00e9 crist\u00e3 tem uma espiritualidade, como, ali\u00e1s, as grandes religi\u00f5es. J\u00e1 os espiritualismos s\u00e3o deturpa\u00e7\u00f5es. S\u00e3o doen\u00e7as do esp\u00edrito. S\u00e3o de rejeitar.<\/p>\n<p>Tudo isto me faz pensar naquelas \u00faltimas palavras do Ressuscitado a Tom\u00e9: \u201cN\u00e3o sejas incr\u00e9dulo, mas crente\u201d. Jesus podia ter dito, como a frase quase pedia, \u201cn\u00e3o sejas incr\u00e9dulo, mas cr\u00e9dulo\u201d. Por\u00e9m, disse \u201ccrente \u201c \u2013 o que \u00e9 muito diferente de \u201ccr\u00e9dulo\u201d. Infelizmente o nosso tempo parece mais prop\u00edcio \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dulos do que de crentes. Ser crente d\u00e1 mais trabalho. \u00c9 mais exigente. Mas \u00e9 isso que faz a diferen\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dias Positivos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-16539","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16539","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16539"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16539\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16539"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16539"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16539"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}