{"id":16610,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16610"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"a-minha-preocupacao-e-que-a-igreja-seja-um-servico-para-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-minha-preocupacao-e-que-a-igreja-seja-um-servico-para-o-mundo\/","title":{"rendered":"&#8220;A minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a Igreja seja um servi\u00e7o para o mundo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Escreveu, h\u00e1 tr\u00eas semanas, a prop\u00f3sito do actual momento pol\u00edtico \u201cTamb\u00e9m eu n\u00e3o vejo claro, mas irei votar\u201d. J\u00e1 sabe em quem vai votar?<\/p>\n<p>Claro que sei em quem vou votar! Mas n\u00e3o tenho que dizer\u2026<\/p>\n<p>Mas, quando escreveu no Correio do Vouga, parecia estar muito indeciso.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que h\u00e1 que fazer uma op\u00e7\u00e3o, como eu digo no pr\u00f3prio jornal. Vivemos numa perplexidade, escolhe-se um mal menor, dentro de um conjunto de crit\u00e9rios. E esses crit\u00e9rios tenho-os organizados para me permitir uma op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Qual deve ser o primeiro crit\u00e9rio?<\/p>\n<p>O primeiro crit\u00e9rio, para mim, \u00e9 indiscutivelmente ver o que \u00e9 melhor para servir o Pa\u00eds e o bem comum, neste momento, com os pol\u00edticos que temos.<\/p>\n<p>O respeito pela dignidade da pessoa humana \u00e9 um dos vectores que definem o bem comum\u2026<\/p>\n<p>Certamente. Para mim, o problema n\u00e3o \u00e9 de simpatia ou antipatia em rela\u00e7\u00e3o a qualquer partido. Os partidos pol\u00edticos n\u00e3o s\u00e3o nunca for\u00e7as definitivas, s\u00e3o for\u00e7as interm\u00e9dias, ocasionais. H\u00e1 aqueles que j\u00e1 sabemos o que pensam sempre; h\u00e1 outros que d\u00e1 a impress\u00e3o que s\u00f3 pensam perante circunst\u00e2ncias e est\u00edmulos como uma campanha eleitoral. \u00c9 necess\u00e1rio ir muito mais atr\u00e1s e ver a hist\u00f3ria dos pr\u00f3prios partidos, o que est\u00e1 no seu conte\u00fado ideol\u00f3gico, de modo a ver que esperan\u00e7a d\u00e3o. Alguns d\u00e3o pouca esperan\u00e7a no contexto em que vivemos no mundo actual \u2013 n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o respondam pontualmente a determinado tipo de situa\u00e7\u00f5es. Sinto que ver apenas os problemas do ponto de vista econ\u00f3mico \u00e9 um reducionismo em que andamos h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 dificuldades econ\u00f3micas e financeiras\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental considerar os aspectos econ\u00f3micos, mas ver tudo a\u00ed parece-me que n\u00e3o. Nas conversas dos partidos, h\u00e1 uma recusa dos problemas antropol\u00f3gicos. Para eles \u201c\u00e9 outro assunto\u201d. Mas n\u00e3o pode ser \u201coutro assunto\u201d. Como \u00e9 que se pode defender os mais pobres, os mais velhos, etc., e, por outro lado, se minimiza o sentido da sua pr\u00f3pria vida? Vemos por essa Europa que h\u00e1 partidos que defendem fortemente os idosos, mas n\u00e3o se importam depois de chegar a uma eutan\u00e1sia. Lutam pelas pens\u00f5es e por condi\u00e7\u00f5es de vida melhores, mas depois descartam os idosos. O que est\u00e1 em causa \u00e9 uma vis\u00e3o da pessoa. Quando s\u00f3 j\u00e1 d\u00e3o preju\u00edzo, ent\u00e3o arranjam-se formas de uma \u201cmorte com qualidade\u201d, e segundo a \u201cvontade da pessoa\u201d \u2013 o que me parece uma fal\u00e1cia do ponto de vista de concep\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da eutan\u00e1sia est\u00e1 a chegar a Portugal?<\/p>\n<p>Acho que sim. \u00c9 inevit\u00e1vel. Talvez agora, a mem\u00f3ria dos problemas do nazismo fa\u00e7a travar algumas pessoas. Mas quando come\u00e7a a apreciar-se toda uma situa\u00e7\u00e3o dos idosos, o encargo social cada vez maior, encontra-se facilmente uma justifica\u00e7\u00e3o com base no sofrimento, ou diz-se \u201cn\u00e3o t\u00eam ningu\u00e9m\u201d\u2026 N\u00e3o t\u00eam \u00e9 coragem de dizer: \u201cS\u00e3o uma sobrecarga para o pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Tem de haver uma forte oposi\u00e7\u00e3o e uma defesa dos valores fundamentais. A vida \u00e9 um valor ou n\u00e3o? A vida de quem quer que seja!<\/p>\n<p>A sua mensagem quaresmal tem em vista estas preocupa\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>Eu decalco-me um pouco no Papa, mas \u00e9 para chamar a aten\u00e7\u00e3o das nossas comunidades. Prestemos aten\u00e7\u00e3o aos idosos! Eles merecem tudo, e merecem tudo at\u00e9 ao fim\u2026<\/p>\n<p>A nossa sociedade civil est\u00e1 a reagir suficientemente a estes problemas latentes? H\u00e1 grupos ou pessoas que se movimentam\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 movimentos na linha da defesa da vida. Vamo-los encontrando. S\u00e3o poucos, e o conjunto global reage muito mais por emo\u00e7\u00f5es do que propriamente por convic\u00e7\u00f5es ou por racioc\u00ednios. H\u00e1 uma responsabilidade para quem tem peso no encaminhamento das op\u00e7\u00f5es das pessoas: dar consist\u00eancia e motiva\u00e7\u00f5es para que isto n\u00e3o seja desvirtuado e saibam concretamente o que querem e movimentem a opini\u00e3o p\u00fablica. Os problemas da vida s\u00e3o altamente preocupantes e os partidos pol\u00edticos n\u00e3o est\u00e3o a ter coragem para os enfrentar. Calam-nos.<\/p>\n<p>Tem empenhado muitas energias na quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o. Ainda recentemente falou em \u201ccrise da educa\u00e7\u00e3o\u201d e em \u201cconcerta\u00e7\u00e3o para impor valores descart\u00e1veis\u201d. Que crise \u00e9 esta? Crise de valores? De resultados?<\/p>\n<p>H\u00e1 muita gente que n\u00e3o est\u00e1 em sintonia com o discurso dos valores. Mas os valores s\u00e3o aquilo que estrutura a vida das pessoas e da sociedade. H\u00e1 valores que s\u00e3o intoc\u00e1veis, independentemente da sua interpreta\u00e7\u00e3o. Se s\u00e3o culturais ou n\u00e3o, se v\u00eam da lei natural, isso \u00e9 secund\u00e1rio. Muitos s\u00e3o intr\u00ednsecos \u00e0 nossa pr\u00f3pria natureza. Temos de saber o que ajuda a nossa cultura e sociedade a viver, comunicar, ser feliz.<\/p>\n<p>Muitos dos opinadores e dos considerados pensadores n\u00e3o t\u00eam qualquer esp\u00e9cie de compromisso na sociedade sobre a qual est\u00e3o a discutir. S\u00e3o diletantes de escrit\u00f3rio ou de gabinete. E isso \u00e9 preciso diz\u00ea-lo. N\u00f3s estamos fartos de diletantes neste pa\u00eds.<\/p>\n<p>Outros dizem que n\u00e3o h\u00e1 valores; mas depois na sua pr\u00f3pria vida at\u00e9 os t\u00eam. \u00c9 chique hoje dizer-se que n\u00e3o h\u00e1 valores.<\/p>\n<p>Isto passa pela educa\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o campo prop\u00edcio para a comunica\u00e7\u00e3o, desenvolvimento e proposta de novos valores. Se os educadores n\u00e3o t\u00eam essa preocupa\u00e7\u00e3o e essa limpidez interior, o que \u00e9 que acaba por ser a educa\u00e7\u00e3o? Mais uma transmiss\u00e3o de no\u00e7\u00f5es disto e daquilo. Mas s\u00f3 com no\u00e7\u00f5es n\u00e3o se renova a sociedade.<\/p>\n<p>Mais do que crise de valores, estamos perante uma crise de transmiss\u00e3o de valores, na medida em que h\u00e1 uma rejei\u00e7\u00e3o habitual ao que \u00e9 institucional? As institui\u00e7\u00f5es Igreja, Escola, Fam\u00edlia s\u00e3o transmissoras de valores.<\/p>\n<p>As duas coisas. H\u00e1 mesmo uma rejei\u00e7\u00e3o de valores. Apercebi-me disso h\u00e1 uma s\u00e9rie de anos, num debate p\u00fablico aqui em Aveiro. Fiquei sobressaltado, quando verifiquei que havia gente com altas responsabilidades que negava mesmo que houvesse valores objectivos. Como \u00e9 poss\u00edvel isto? E vamos verificando que h\u00e1 um combate organizado para a destrui\u00e7\u00e3o de determinados valores ou para criar uma mentalidade em que os valores n\u00e3o se considerem consistentes. Isso \u00e9 clar\u00edssimo.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 que faz parte desse grupo?<\/p>\n<p>Isso faz parte de um contexto social de modernidade desvirtuada. Sempre que se afirma um subjec-tivismo at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias \u2013 uma pessoa faz o que quer, como bem quiser, sem respeitar os outros \u2013, os valores perdem consist\u00eancia. Ou s\u00e3o interesses ou s\u00e3o inc\u00f3modos.<\/p>\n<p>Trata-se de uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja?<\/p>\n<p>Entra depois uma segunda parte nesta quest\u00e3o. Quem \u00e9 que teima em dizer que h\u00e1 valores consistentes, valores da pessoa humana? \u00c9 a Igreja, a Fam\u00edlia, a Escola. H\u00e1 institui\u00e7\u00f5es que ningu\u00e9m as cala. A Igreja como tal n\u00e3o se cala, por mais que se lhe diga. Os pais continuam a educar os seus filhos e preocupados quando a Escola n\u00e3o funciona. Mas a fam\u00edlia tem concorrentes. E ou arranja parcerias ou n\u00e3o vai longe. Em qualquer caso, sempre que n\u00e3o interfiram nela, ela vai transmitindo. E na Escola h\u00e1 sempre educadores preocupados, porque v\u00eaem os resultados negativos.<\/p>\n<p>Que resultados?<\/p>\n<p>\u00c9 a desorienta\u00e7\u00e3o na vida das pessoas, o aumento da criminalidade juvenil, as vidas cada vez mais vazias e sem sentido, a perda de consist\u00eancia das fam\u00edlias, jovens que entram em situa\u00e7\u00f5es de compromis-so sem qualquer esp\u00e9cie de compromisso\u2026 H\u00e1 aqui qualquer coisa\u2026<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio insucesso escolar\u2026<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m tem que ver. O trabalho \u00e9 um valor. O sentir que vou conquistar um lugar pelos meus pr\u00f3prios m\u00e9ritos, ou por uma cunha\u2026 est\u00e3o em quest\u00e3o valores. Quem est\u00e1 atento e faz um diagn\u00f3stico verifica que n\u00e3o se trata de efeito sem causa. Destruiu-se tanta coisa. \u201cE agora?\u201d E aqui h\u00e1 um certo farisa\u00edsmo dos poderes p\u00fablicos. Defende-se a fam\u00edlia, mas destr\u00f3i-se a fam\u00edlia, porque n\u00e3o se apoia. Ainda h\u00e1 dias a Ministra [da Educa\u00e7\u00e3o] disse que o pr\u00f3prio Estado n\u00e3o acredita na fam\u00edlia. Os requerimentos dos pais s\u00e3o arquivados sem resposta. O Estado e os servi\u00e7os p\u00fablicos n\u00e3o acreditam na fam\u00edlia. N\u00e3o d\u00e3o import\u00e2ncia \u00e0 fam\u00edlia. N\u00e3o d\u00e3o provimento \u00e0s suas observa\u00e7\u00f5es e gritos.<\/p>\n<p>\u00c9 tido como um dos bispos mais inovadores dentro do episcopado. Concorda com esse t\u00edtulo?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma bitola para dizer que se \u00e9 mais inovador ou menos. Temos que nos p\u00f4r sempre ao n\u00edvel das dioceses, das capacidades e servi\u00e7os. Posso dar mais nas vistas em rela\u00e7\u00e3o a algum tipo de coisas e a alguns riscos que sempre corri. Porque \u00e9 que fui o primeiro bispo a fazer um s\u00ednodo diocesano? Andava tudo com muito medo. Eu falava da ideia e diziam-me: \u201cFaz tu primeiro\u201d.<\/p>\n<p>Vivi sempre esta preocupa\u00e7\u00e3o: que a Igreja fosse um servi\u00e7o para o mundo e que aprendesse de facto a dialogar com o mundo. N\u00e3o consegui muito, nestes anos todos.<\/p>\n<p>Em Portugal h\u00e1 \u00e1reas em que a Igreja podia ser mais actuante?<\/p>\n<p>A Igreja em Portugal ainda \u00e9 uma soma de dioceses (e n\u00e3o pode deixar de ser por autonomia pr\u00f3pria das dioceses). N\u00e3o tem um plano em grandes linhas para poder enfrentar os problemas. E n\u00e3o tem porqu\u00ea? N\u00e3o v\u00ea os problemas? Claro que os v\u00ea. Simplesmente, a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 totalmente diferente numa diocese do norte ou no sul, no interior ou litoral. Com percep\u00e7\u00f5es t\u00e3o diversas, \u00e9 muito complicado ter planos que enfrentem as situa\u00e7\u00f5es. Por exemplo, h\u00e1 um d\u00e9fice de forma\u00e7\u00e3o c\u00edvica dos cidad\u00e3os. Acho que j\u00e1 tivemos tempo de mais para isso. O Conc\u00edlio j\u00e1 tem 40 anos, a Revolu\u00e7\u00e3o tem 30, temos muitas prioridades nesse campo, mas ainda n\u00e3o se conseguiu. Esse \u00e9 um aspecto muito concreto. Outros pa\u00edses foram inovadores nesse sentido. A It\u00e1lia, por exemplo, formou uma grande escola de pol\u00edticos: Fanfani, Colombo, Andreotti. Faziam parte de uma escola, onde o ser pol\u00edtico at\u00e9 com pensamento crist\u00e3o correspondia a um empenhamento total. S\u00f3 tivemos isso na Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, que depois, pela pouca compreens\u00e3o da pr\u00f3pria Igreja, passou tempos dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Quem levantou problemas a n\u00edvel da coloniza\u00e7\u00e3o? Foram cat\u00f3licos, que depois levaram nas m\u00e3os. Eu pr\u00f3prio tive essa experi\u00eancia. Levantei esse problema numa sess\u00e3o p\u00fablica de Portalegre, por duas vezes.<\/p>\n<p>Contra a coloniza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Sim, claramente, a dizer que \u201cisto n\u00e3o tem futuro nenhum, isto tem que ser revisto\u201d, e o Secret\u00e1rio de Estado que estava a presidir \u00e0 sess\u00e3o mandou-se calar, dizendo que eu era contra o Ultramar.<\/p>\n<p>Sempre tivemos gente interventiva. Quem aparece na ribalta \u00e9 o D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, que tinha um bom p\u00falpito que era a diocese do Porto. J\u00e1 vinha de Portalegre nessa mesma linha, mas foi no Porto que ganhou a fama toda. Temos o Abel Varzim, que era da antiga C\u00e2mara Cooperativa, o Pe. Alves Correia, o D. Sebasti\u00e3o Tavares de Resende\u2026<\/p>\n<p>Mas houve um certo eclipse no apoio a estas pessoas.<\/p>\n<p>Surgiram outros movimentos, com outros ideiais, e uma parte de gente perdeu-se. \u00c9 interessante ler o escrito de Jo\u00e3o B\u00e9nard da Costa sobre a gera\u00e7\u00e3o que o Reis Rodrigues formou. Foi uma gera\u00e7\u00e3o \u00edmpar. A SEDES nasceu dentro desta gente. Mas depois as pessoas foram-se tresmalhando. Alguns ficaram. Ficou Sousa Franco, Sid\u00f3nio Pais, presidente da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica nacional&#8230; \u00c0 parte da grande escola que foi a Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, nunca houve forma\u00e7\u00e3o de l\u00edderes. <\/p>\n<p>A invers\u00e3o que Salazar faz no seu pr\u00f3prio pensamento \u2013 defendia uma Igreja interventiva quando ele estava no CADC, o centro cat\u00f3lico em Coimbra, mas depois muda e diz \u00e0 Igreja para se meter no seu lugar, porque n\u00e3o tem nada que falar \u2013 \u00e9 muito significativa.<\/p>\n<p>E os bispos acomodam-se\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ver que os bispos vinham da persegui\u00e7\u00e3o, da mis\u00e9ria, da perda de semin\u00e1rios. Aparece algu\u00e9m com condi\u00e7\u00f5es de paz e, por conseguinte, compreende-se um pouco este tipo de acomoda\u00e7\u00e3o. Mas depois n\u00f3s entr\u00e1mos em caminhos novos. Havia uma corrente forte que devia ser apoiada, sobretudo depois do Conc\u00edlio e depois da Revolu\u00e7\u00e3o. Penso que a Igreja tem a\u00ed uma omiss\u00e3o. N\u00e3o se empenhou fortemente. A Universidade Cat\u00f3lica, uma escola que forma gente, n\u00e3o sei se consegue dar esta dimens\u00e3o humanizadora em todos os aspectos. E dentro dos bispos n\u00e3o temos todos a mesma sensibilidade.<\/p>\n<p>Mas a confer\u00eancia episcopal tem uma s\u00e9rie de cartas de grande valor numa perspectiva de igreja para servir este Pa\u00eds concreto que somos. N\u00e3o poderia project\u00e1-los de outra forma?<\/p>\n<p>Esse problema representa mais uma omiss\u00e3o. A partir do 25 de Abril, n\u00f3s temos documentos de muit\u00edssimo valor. Est\u00e3o compilados. N\u00e3o \u00e9 nenhuma inven\u00e7\u00e3o. Simplesmente, nunca chegam \u00e0 base. Ou s\u00f3 uma coisa ou outra. Mas criar uma mentalidade nova, que era aquilo que se pretendia, isso continua por fazer. Os documentos actuais, bel\u00edssimos, por vezes s\u00f3 s\u00e3o lidos na Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. A maior parte dos documentos n\u00e3o chega \u00e0 maioria das pessoas. Isso angustiou gente da Confer\u00eancia Episcopal desde sempre. Os documentos da Igreja s\u00e3o mais lidos fora da Igreja do que na Igreja. Tenho disto muitas vezes que a primeira pessoa que vi fazer um coment\u00e1rio sobre a \u201cLaborem Exercens\u201d (enc\u00edclica de Jo\u00e3o Paulo II sobre o trabalho) foi \u00c1lvaro Cunhal, passados poucos dias dela ser publicada.<\/p>\n<p>Que coment\u00e1rio \u00e9 que fez?<\/p>\n<p>\u00d3ptimo. Ficou admirad\u00edssimo com o pensamento e a abertura. E continuamos a ver isso. A primeira vez que eu ouvi falar de Teilhard de Chardin (padre jesu\u00edta, te\u00f3logo e cientista) foi um comunista, m\u00e9dico em Portalegre. Perguntou-me: \u201cO que \u00e9 que voc\u00ea pensa de Teilhard de Chardin?\u201d E eu fiquei um pouco atrapalhado. Nessa altura ainda n\u00e3o tinha lido nada. Claro que tive de estudar o Teilhard de Chardin.<\/p>\n<p>Vemos isto com frequ\u00eancia: h\u00e1 gente de fora mais sens\u00edvel aos grandes problemas do que \u00e0s vezes os de dentro. Muitos padres podiam agarrar esses problemas, mas est\u00e3o t\u00e3o envolvidos naquilo que \u00e9 o seu dia-a-dia que promovem pouco o laicado. T\u00eam sobrecarga de trabalhos de que podiam perfeitamente dispensar-se. Hoje l\u00ea-se pouqu\u00edssimo, estuda-se pouqu\u00edssimo, reflecte-se pouqu\u00edssimo, participa-se pouco em ac\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o. Qual o pensamento novo sem estudo, sem reflex\u00e3o, sem confronto? N\u00e3o h\u00e1. H\u00e1 aqui uma falha. Continuamos com elites de clero. E h\u00e1 homens e mulheres mais actualizados do que muitos dos nossos padres.<\/p>\n<p>\u201cMuitos problemas na Igreja morrem onde se discutem\u201d<\/p>\n<p>No \u00faltimo S\u00ednodo dos Bispos o D. Ant\u00f3nio apareceu ao lado do Cardeal Martini (ent\u00e3o, Cardeal de Mil\u00e3o) que pedia mudan\u00e7as profundas para a Igreja. A comunica\u00e7\u00e3o social assim interpretou. Falou-se mesmo num novo conc\u00edlio.<\/p>\n<p>Eu tenho muita admira\u00e7\u00e3o pelo Cardeal Martini. Participei em muitas reuni\u00f5es com ele, mas sou um pigmeu ao p\u00e9 dele. Mas qualquer dia somos iguais, somos dois em\u00e9ritos (risos). Caminhamos para a igualdade. De facto, essa interven\u00e7\u00e3o do Cardeal Martini \u00e9 muito mais profun-da do que se pode imaginar. Ele n\u00e3o falou de um novo conc\u00edlio. Ele \u00e9 uma pessoa altamente cuidadosa. Ele disse que \u00e9 preciso encontrar uma nova forma de resolver problemas universais, com capacidade de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Que problemas s\u00e3o esses e que forma?<\/p>\n<p>Um deles era o da mulher. A minha interven\u00e7\u00e3o foi nesse sentido. Eu dizia que era preciso encar\u00e1-lo, mas sem estar a discutir o problema do sacerd\u00f3cio. O mal disto tudo \u00e9 sempre querer-se come\u00e7ar pelo topo. Esquece-se que isto \u00e9 uma caminhada de progressividade. Eu falei no dia a seguir ao Cardeal Martini, mas ningu\u00e9m teve influ\u00eancia sobre o outro porque entreg\u00e1mos as nossas interven\u00e7\u00f5es uns dias antes. O jornal \u201cRepublica\u201d (di\u00e1rio italiano) p\u00f4s-nos ao lado um do outro e apareceram v\u00e1rios jornalistas a pedir declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Discutem-se muitos problemas na Igreja, mas depois morrem onde se discutem. A n\u00edvel das grandes quest\u00f5es eclesiais \u2013 e que \u00e9 preciso tratar com cuidado por se verificar que a Igreja tem realidades muito diferentes em qualquer parte do mundo; n\u00e3o \u00e9 assim de um momento para o outro que se pode entrar em aventuras \u2013 verificamos sempre essa hist\u00f3ria. N\u00e3o havendo capacidade de decis\u00e3o, porque os s\u00ednodos n\u00e3o s\u00e3o conc\u00edlios, temos pensamento maravilhoso que p\u00e1ra ali. <\/p>\n<p>N\u00e3o seria prefer\u00edvel o inverso? Voltar a uma tradi\u00e7\u00e3o de Conc\u00edlios nacionais ou provinciais que fizessem a recep\u00e7\u00e3o ao Conc\u00edlio Vaticano II e equacionassem estes problemas de forma muito mais local, mais realista?<\/p>\n<p>\u00c9 verdade, mas o que sai de qualquer s\u00ednodo regional ou conc\u00edlio tem de ter autoriza\u00e7\u00e3o da Santa S\u00e9.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 ainda as Confer\u00eancias Episcopais, tudo inst\u00e2ncias interm\u00e9dias.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o. A\u00ed \u00e9 que est\u00e1 o problema. E a mo\u00e7\u00e3o do Cardeal Martini toca precisamente a\u00ed: a necessidade de uma estrutura \u2013 e subentende-se de tipo conciliar, que \u00e9 onde os bispos est\u00e3o por direito pr\u00f3prio. O que sai n\u00e3o \u00e9 o que o Papa diz, mas o que o conc\u00edlio determinou. Se n\u00e3o houver isto, \u00e9 muito dif\u00edcil que em quest\u00f5es fundamentais da vida da Igreja se possa avan\u00e7ar. S\u00e3o torpedeados. Ficam calados. T\u00eam muitos medos. Acham que ainda n\u00e3o \u00e9 altura. Isso foi inovador. J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o seis anos.<\/p>\n<p>Tem acompanhado a sa\u00fade do Papa?<\/p>\n<p>J\u00e1 hoje [2 de Fevereiro] disse a um jornalista, creio que do Correio da Manh\u00e3, que ouvi \u00e0s sete da manh\u00e3 que o Papa tinha sido internado por insufici\u00eancias respirat\u00f3rias, mas logo a seguir do Vaticano se diz que \u201cnada de anormal, tudo normal\u201d. Se fosse normal, estava em casa. Francamente. Isto \u00e9 a tal linguagem\u2026 Se \u00e9 tudo normal, porque \u00e9 que levam para uma cl\u00ednica uma pessoa daquela idade? \u00c9 sinal de que o estado dele \u00e9. Pode ser uma coisa passageira. Mas age-se como se os papas n\u00e3o morressem ou n\u00e3o tivessem coisas graves. Compreendo que \u00e9 para n\u00e3o alarmar a humanidade, mas \u00e9 poss\u00edvel que Papa esteja a entrar numa fase final. Ele sempre nos surpreendeu. De repente, est\u00e1 outra vez com for\u00e7a. Tem uma resist\u00eancia verdadeiramente impressionante, mas vai-se fragilizando progressivamente. \u201cMas vai alertar a diocese toda?\u201d \u2013 perguntou-me o jornalista. N\u00e3o, a ora\u00e7\u00e3o pelo Papa \u00e9 habitual.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as necess\u00e1rias de que falou s\u00e3o uma tarefa para o pr\u00f3ximo Papa.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre complicado dizer o que vai fazer o pr\u00f3ximo Papa. N\u00e3o sabemos nem quando nem quem ele \u00e9. E depende certamente da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, da pr\u00f3pria pessoa, da sua experi\u00eancia. Reflicto sem grandes pretens\u00f5es: se for um Papa da Am\u00e9rica Latina, \u00e9 capaz de avan\u00e7ar; se for um Papa da C\u00faria Romana, naturalmente n\u00e3o. S\u00e3o papas estupendos e com capacidade, mas no sentido de esperar coisas novas\u2026 \u00c9 muito poss\u00edvel que escolham um desses. A mentalidade geral da Igreja \u00e9 que n\u00e3o haja sobressaltos. E para n\u00e3o haver sobressaltos \u00e9 necess\u00e1rio escolher algu\u00e9m de l\u00e1.<\/p>\n<p>O Papa Paulo VI teve a coragem de provocar sobressaltos, de fazer coisas que eram impens\u00e1veis. Come\u00e7ou logo por ele, ao escolher um secret\u00e1rio de estado franc\u00eas. Eram sempre italianos. E a C\u00faria veio a ter gente de todas as qualidades e feitios. E houve grandes cardeais no tempo de Paulo VI.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo II, com toda a sua generosidade e autoridade, privilegiou as viagens. Foi impressionante. Um dia a hist\u00f3ria o dir\u00e1. Este sentido mission\u00e1rio do ir \u00e9 p\u00e1gina muito importante na vida da Igreja. Simplesmente, o dia-a-dia ficou muito nas m\u00e3os de quem l\u00e1 estava. A\u00ed \u00e9 que as coisas param ou avan\u00e7am.<\/p>\n<p>Conhecendo os bispos de todo o mundo, v\u00ea algu\u00e9m com especial qualidade para conduzia a Igreja como Papa?<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos gra\u00e7as a Deus. Mas n\u00e3o vou dizer nomes de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Tem ideias claras sobre isso?<\/p>\n<p>Tenho algumas ideias, enfim. Eu n\u00e3o vou votar, sequer. Nem fazer propaganda. H\u00e1 mais gente com esta intui\u00e7\u00e3o de que, nesta caminhada normal da vida da Igreja, agora era importante um papa n\u00e3o de \u00c1frica, mas da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escreveu, h\u00e1 tr\u00eas semanas, a prop\u00f3sito do actual momento pol\u00edtico \u201cTamb\u00e9m eu n\u00e3o vejo claro, mas irei votar\u201d. J\u00e1 sabe em quem vai votar? 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