{"id":16641,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16641"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"o-papa-deu-como-modelo-de-renovacao-o-sinodo-de-aveiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-papa-deu-como-modelo-de-renovacao-o-sinodo-de-aveiro\/","title":{"rendered":"&#8220;O Papa deu como modelo de renova\u00e7\u00e3o o S\u00ednodo de Aveiro&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>D. Ant\u00f3nio Marcelino, Bispo de Aveiro <!--more--> Que impress\u00f5es tinha sobre Aveiro e o seu povo quando soube que vinha para c\u00e1?<\/p>\n<p>Cheguei a Aveiro no dia 1 de Fevereiro de 1981. \u00c9 engra\u00e7ado que, das vezes que por c\u00e1 passei, quando era padre, ou antes, pensava: \u201cUma terra onde gostava de viver\u201d. Sempre gostei de mar, vindo eu l\u00e1 do interior. Tinha vindo a Aveiro v\u00e1rias vezes. Vim \u00e0s semanas de estudo na Curia, a uma semana de estudos de pastoral vocacional no semin\u00e1rio \u2013 era o Pe Jo\u00e3o Paulo Ramos o respons\u00e1vel \u2013 fazer um retiro ao clero, j\u00e1 nomeado bispo, mas n\u00e3o consagrado\u2026 Fazia cursos pelo pa\u00eds inteiro, e a certa altura, solicitei ao Pe Georgino que andasse comigo. <\/p>\n<p>Diz-se que \u201ca diocese faz o bispo e o bispo faz a diocese\u201d. Ficou mudado por estar nesta terra?<\/p>\n<p>Penso que enriqueci. Se n\u00e3o tivesse tanto espa\u00e7o como a minha capacidade de alguma maneira pedia, ficava um pouco mutilado. Teria sido de outra maneira, se tivesse ido para a diocese para a qual estive indicado\u2026<\/p>\n<p>Qual era?<\/p>\n<p>Era a Guarda. Isso foi tornado p\u00fablico. Nunca recebi qualquer nomea\u00e7\u00e3o, mas houve quem desse isso como garantido. Em qualquer s\u00edtio me desenrascava \u2013 passe l\u00e1 o termo. Por\u00e9m, aqui encontrei de facto um campo de grandes possibilidades de investimento.<\/p>\n<p>Que desafios encontrou?<\/p>\n<p>Na minha sauda\u00e7\u00e3o inicial j\u00e1 vinha um pouco alus\u00e3o a isto tudo. Aveiro era, j\u00e1 na d\u00e9cada 1980, uma zona do Pa\u00eds que emergia, de actualidade pol\u00edtica, de gente que passava, de esp\u00edrito inovador \u2013 tinham sido aqui os congressos da liberdade [Congressos da Oposi\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica]. Isso tinha a ver com o meu feito. Fui at\u00e9 considerado muito esquerdista por algumas pessoas.<\/p>\n<p>Eu lia muito o Correio do Vouga, j\u00e1 em Portalegre. O D. Agostinho dizia: \u201cL\u00ea este jornal. Isto \u00e9 que \u00e9 um jornal\u201d. Lia o de Coimbra [Correio de Coimbra], pelos \u201cSintomas\u201d de Urbano Duarte e o jornal daqui, que o meu bispo me dava.<\/p>\n<p>Sentia claramente que esta zona n\u00e3o era uma zona parada. Em Portalegre, era totalmente diferente. Dei uma reviravolta com os Cursos de Cristandade, mas a gente tinha de estar sempre a animar-se. Castelo Branco estava um pouco no marasmo. De Lisboa, tinha a experi\u00eancia do Oeste: causas com esp\u00edrito de iniciativa.<\/p>\n<p>Sentia que Aveiro era um bocadinho essa terra onde sentiria desafios e capacidade de inova\u00e7\u00e3o. Tinha uma certa inquieta\u00e7\u00e3o. Eu dizia ao Senhor D. Manuel: \u201cTemos de mexer nisto\u201d. E ele dizia: \u201c\u00d3 D. Ant\u00f3nio olhe que o tempo amadurece\u201d. \u201cE apodrece, D. Manuel!\u201d \u2013 era a minha reac\u00e7\u00e3o. E ele ria-se.<\/p>\n<p>A Universidade estava a come\u00e7ar e percebia-se perfeitamente que ia longe. J\u00e1 era inovadora. Havia cr\u00edticas \u00e0 Universidade por causa das inova\u00e7\u00f5es. Por exemplo, o est\u00e1gio integrado na forma\u00e7\u00e3o de professores. Coimbra, Lisboa e Porto atacavam, mas depois chegaram l\u00e1, passados esses anos todos.<\/p>\n<p>Beneficiei da continuidade de D. Manuel e o trabalho de p\u00f3s-conc\u00edlio que se foi fazendo longamente. O facto de eu estar sete anos como bispo coadjutor deu perfeitamente para entrar no ambiente. Em Aveiro, se a gente chega de rompante e come\u00e7a a que-rer fazer coisas, espeta-se imediatamente. <\/p>\n<p>O D. Ant\u00f3nio foi o primeiro a receber a Medalha de Ouro da Universidade de Aveiro. Na altura pareceu que n\u00e3o houve uma justifica\u00e7\u00e3o cabal da atribui\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Foi uma surpresa total. Quando a Reitora me telefonou a dizer que queria pedir um favor, eu disse: \u201cPe\u00e7a \u00e0 vontade\u201d. \u201c\u00c9 para que aceite a medalha da Universidade\u201d, disse ela. \u201cEst\u00e1 a brin-car comigo!\u201d Quiseram sublinhar a import\u00e2ncia de uma pessoa fora do contexto universit\u00e1rio que luta por valores e ajuda a sua pr\u00f3pria regi\u00e3o. E por n\u00e3o estar enfeudado a ningu\u00e9m, mas com uma realidade interior para estar com todos na medida em que tem de estar.<\/p>\n<p>Sempre teve uma grande aten\u00e7\u00e3o para com a Universidade.<\/p>\n<p>Desde a primeira hora. A Reitora frisou o aspecto do Centro Universit\u00e1rio, mas \u00e9 um processo que se vem desencadeando. Se dessem a medalha a outra pessoa, n\u00e3o me sentia nada ofendido. Fiquei mais admirado por ma terem atribu\u00eddo do que se a tivessem dado a outra pessoa qualquer. At\u00e9 correram o risco, num contexto, como \u00e9 o actual, de distinguir uma pessoa da Igreja. Penso que n\u00e3o \u00e9 alheio o facto de ter pedido, h\u00e1 anos, que n\u00e3o me pusessem em lugar de destaque, mas como os outros convidados de honra. Isso caiu muito bem na Universidade.<\/p>\n<p>Fez esse pedido?<\/p>\n<p>Sim, n\u00e3o porem l\u00e1 a cadeira ao lado; que me dessem um lugar como o dos outros convidados. Soube atrav\u00e9s do Reitor de ent\u00e3o que o pedido tinha ca\u00eddo muito bem no Conselho Cient\u00edfico. \u00c9 todo um contexto de boas rela\u00e7\u00f5es, sem que eu ande l\u00e1 metido. Trato-os bem, acolho-os bem.<\/p>\n<p>Como pastor, em que \u00e1reas gostava que a diocese avan\u00e7asse mais?<\/p>\n<p>N\u00e3o escondo que gostava que se tivesse avan\u00e7ado mais na sensibilidade \u00e0s realidades humanas e sociais da zona diocesana. A\u00ed n\u00e3o avan\u00e7\u00e1mos muito.<\/p>\n<p>Gostaria que avan\u00e7\u00e1ssemos mais no laicado organizado, que \u00e9 fundamental numa diocese como esta. Encontrei uma certa alergia aos movimentos apost\u00f3licos, \u00e0 Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica anterior. Por outro lado, gostava de ver os padres mais sens\u00edveis \u00e0 dimens\u00e3o Igreja-Mundo. S\u00e3o generosos e sens\u00edveis \u00e0 pastoral, \u00e0 catequese, mas a dimens\u00e3o Igreja-Mundo ficou um bocadinho descurada. Gostaria que tiv\u00e9ssemos maior consci\u00eancia comunit\u00e1ria. Por vezes os padres, em vez de vencerem as tend\u00eancias dos leigos, quase se deixaram apanhar. Do ponto de vista civil, a diocese de Aveiro \u00e9 muito de bairrismos. Sempre sonhei que a Igreja podia dar uma reviravolta a isto. Mais se pegou a mentalidade \u00e0 Igreja do que propriamente a Igreja conseguiu ser fermento a\u00ed.<\/p>\n<p>O primeiro S\u00ednodo foi de harmoniza\u00e7\u00e3o. O segundo de renova\u00e7\u00e3o, mas\u2026<\/p>\n<p>Foi e continua a ser. Pena \u00e9 que s\u00f3 se tenha agarrado no S\u00ednodo passados uns anos. Tenho sido coerente com o s\u00ednodo. N\u00e3o friso o s\u00ednodo permanentemente, sen\u00e3o criava alergias maiores. A meu ver, o clero, na sua globalidade, apanhou o s\u00ednodo. Mas se houvesse uma pastoral e realidade de comunh\u00e3o, entrava melhor. Como cada um trata de si, \u00e9 mais dif\u00edcil permeabilizar a vida com as grandes intui\u00e7\u00f5es do s\u00ednodo. Quem fizer um estudo dos documentos e da caminhada que se fez fica admirado com as conclus\u00f5es. Ali\u00e1s, esse estudo foi feito em Roma\u2026<\/p>\n<p>Sobre o S\u00ednodo de Aveiro?<\/p>\n<p>Sim, mas n\u00e3o se tratou de um estudo cient\u00edfico. As conclus\u00f5es foram apreciadas em congrega\u00e7\u00f5es diversas; e o Papa, quando falou aos bispos, no final da Ad Sacra Limina [visita que os bispos de um pa\u00eds periodicamente fazem ao Papa], deu como modelo de esfor\u00e7o de renova\u00e7\u00e3o o S\u00ednodo de Aveiro. Fiquei um pouco atrapalhado. N\u00e3o sabia que ia falar disso, mas isso s\u00f3 nos responsabilizou. Perceberam que o S\u00ednodo foi a maneira de levar o Conc\u00edlio ao povo. \u00c9 evidente que o Papa n\u00e3o apreciou individualmente as con-clus\u00f5es sinodais, mas deu-me pessoalmente os parab\u00e9ns pelo S\u00ednodo. Talvez indo o bispo embora, com outro bispo que venha a seguir, seja mais f\u00e1cil de agarrar\u2026 \u00c9 curioso que vou aos nossos documentos sinodais e verifico uma actualidade extraordin\u00e1ria, uma vis\u00e3o alargad\u00edssima. Claro que tiveram import\u00e2ncia os te\u00f3logos que estiverem nisto, o Pe Querubim e outros. Era importante para os nossos padres novos terem aulas de s\u00ednodo diocesano. Se n\u00f3s tiv\u00e9ssemos c\u00e1 o 6\u00ba ano de Teologia, isso entrava mesmo. Pode ser que, quando eu ficar em\u00e9rito, fa\u00e7a uma coisa deste g\u00e9nero.<\/p>\n<p>Quanto ao Congresso Eucar\u00edstico. O que se pode esperar?<\/p>\n<p>\u00c9 um acontecimento que ajuda a perceber que o Ano da Eucaristia n\u00e3o \u00e9 um ano sem mais nem menos. H\u00e1 problem\u00e1ticas a reflectir e \u00e9 o que vamos fazer, com um naipe de quatro pessoas diversificadas: um bispo, um presb\u00edtero, um leigo e uma senhora, os quatro grandes oradores do congresso, todos confirmados. N\u00e3o vai ser uma coisa s\u00f3 de padres.<\/p>\n<p>Quem s\u00e3o essas pessoas?<\/p>\n<p>\u00c9 o D. Marto [bispo de Viseu], o Dr Couto [padre, te\u00f3logo de Porto], o Dr. Jos\u00e9 Dias [leigo de Coimbra] e a Dra Isabel Varanda [leiga da UCP de Braga]. Depois, h\u00e1 as interven\u00e7\u00f5es parciais com outras pessoas. A Eucaristia n\u00e3o \u00e9 transit\u00f3ria; \u00e9 essencial \u00e0 vida da Igreja. A meu ver, \u00e9 mais importante o esquema como tal do que os assuntos que se v\u00e3o tratar.<\/p>\n<p>Mas a prepara\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m conta&#8230;<\/p>\n<p>Sim, nas comunidades paroquiais. Temos de levar isso a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Sempre teve uma paix\u00e3o pelos jovens e os jovens gostam de si. N\u00e3o o espanta que n\u00e3o haja mais voca\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>N\u00e3o espanta, porque as voca\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o simpatia pelo bispo ou pelo padre. Em qualquer dos casos, pode ser convidativo a criar um ambiente de poss\u00edvel chamamento. O problema dos jovens \u00e9 a continuidade. Tem que nos empenhar a todos.<\/p>\n<p>Sempre houve empenhamento da diocese, com o Pe Jos\u00e9 Fidalgo, que esteve 14 anos, a transi\u00e7\u00e3o com o Pe Martins e Pe Rog\u00e9rio, e o Sousa, outros tantos anos. Parece \u00e9 que estamos um pouco na mesma. Onde \u00e9 que se p\u00f5e o problema dos jovens: \u00e9 ao n\u00edvel de iniciativas diocesanas ou em acontecimentos diocesanos, nacionais ou internacionais? N\u00e3o. O problema est\u00e1 no dia-a-dia, na continuidade dos grupos nas pr\u00f3prias par\u00f3quias. \u00c9 uma quest\u00e3o de persist\u00eancia, de renova\u00e7\u00e3o dos animadores, de est\u00f4mago para aguentar os cansa\u00e7os. \u00c9 uma luta permanente. O que resistir at\u00e9 ao fim \u00e9 que ganha. A nossa caminhada sinodal tinha uma intui\u00e7\u00e3o forte: conhec\u00ea-los bem, para com eles ir mais longe. Este slogan tem um programa pastoral impl\u00edcito: o conhecimento e a comunh\u00e3o. \u00c9 uma das \u00e1reas essenciais do minist\u00e9rio sacerdotal.<\/p>\n<p>Se hoje estivesse no in\u00edcio do sacerd\u00f3cio, que tr\u00eas \u00e1reas escolhia para se empenhar mais?<\/p>\n<p>Se estivesse no in\u00edcio, teria todas as ilus\u00f5es dos jovens e n\u00e3o teria objectividade\u2026 Mas penso que h\u00e1 aspectos fundamentais. O primeiro \u00e9 tomar a s\u00e9rio o projecto evangelizador da Igreja. Estamos numa igreja a paganizar-se. Est\u00e3o morrendo valores e energias fort\u00edssimas. Daria uma import\u00e2ncia muito grande ao laicado e privilegiava a fam\u00edlia. E daria import\u00e2ncia \u00e0quilo que \u00e9 fundamental: a dimens\u00e3o da Igreja serva do mundo em nome de Deus; e n\u00e3o uma Igreja Senhora \u2013 conhecer os dinamismos da pr\u00f3pria sociedade, entrar neles. Estamos numa diocese cheia de gente generosa, mas pouco coordenada nos aspectos comuns essenciais.<\/p>\n<p>\u201cP\u00f4r-me-ei ao lado do meu sucessor, se ficar em Aveiro\u201d<\/p>\n<p>Ao fazer 75 anos, vai pedir a resigna\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o pe\u00e7o a resigna\u00e7\u00e3o. Apresento \u00e9 ao Papa a minha disponibilidade para aquilo que quiser.<\/p>\n<p>De qualquer forma \u00e9 inevit\u00e1vel falar de sucess\u00e3o. J\u00e1 falou nisso em alguns c\u00edrculos. Tem alguma coisa a dizer aos leitores?<\/p>\n<p>Em 21 de Setembro [75\u00ba anivers\u00e1rio], se tiver vida e sa\u00fade, escreverei essa carta ao Papa, como \u00e9 meu dever. E fico dispon\u00edvel para o que o Papa quiser. Quero continuar a ser \u00fatil \u00e0 Igreja diocesana.<\/p>\n<p>N\u00e3o vai parar quando for bispo em\u00e9rito de Aveiro\u2026<\/p>\n<p>Certamente que n\u00e3o, com este mundo a desbravar [D. Ant\u00f3nio aponta para as estantes repletas de livros]. H\u00e1 muita coisa que gostaria de estudar e aprofundar. Mas n\u00e3o ficar parado, isso n\u00e3o! P\u00f4r-me-ei ao lado do meu sucessor, se ficar em Aveiro \u2013 como estou a pensar. <\/p>\n<p>Vai escrever?<\/p>\n<p>O qu\u00ea, as mem\u00f3rias?<\/p>\n<p>N\u00e3o propriamente, porque ainda deve ter muito para viver, mas sobre alguns problemas de que fal\u00e1mos na entrevista, por exemplo\u2026<\/p>\n<p>Gostaria, sim. H\u00e1 coisas onde o nosso saber, a nossa experi\u00eancia faz parte dum patrim\u00f3nio eclesial e diocesano que n\u00e3o se devia perder.<\/p>\n<p>Continua a colaborar com o Correio do Vouga?<\/p>\n<p>Acho que sim, desde que a direc\u00e7\u00e3o queira (risos).<\/p>\n<p>Que quest\u00f5es gostaria de aprofundar?<\/p>\n<p>H\u00e1 uma quest\u00e3o que \u00e9 pr\u00e9via a todas. As mudan\u00e7as s\u00e3o hoje mais culturais do que nunca. Como se est\u00e1 na cultura com os valores perenes do Evangelho, como podem ser fermento da cultura? Sinto que est\u00e1 aqui uma exig\u00eancia para a nossa ac\u00e7\u00e3o pastoral. O nosso pensamento, a nossa interven\u00e7\u00e3o tem de ser totalmente diferente. H\u00e1 uma nova cultura. N\u00e3o \u00e9 uma moda. Est\u00e1 a acontecer uma muta\u00e7\u00e3o cultural impressionante. \u00c9 preciso aprofundar as ra\u00edzes, de onde isso vem, aonde \u00e9 que vai parar\u2026 Valores, crit\u00e9rios, estilos de vida que entram na vida dos mais novos com a maior das normalidades, sem qualquer esp\u00edrito cr\u00edtico. Esse \u00e9 um ponto que gostava de aprofundar. O bispo n\u00e3o \u00e9 um investigador intelectual de gabinete, mas h\u00e1 sempre uma perspectiva pastoral que est\u00e1 na nossa mente. Estou a ler um livro e imediatamente traduzo para a minha responsabilidade do dia-a-dia. \u00c9 inevit\u00e1vel. Nem sequer um romance consigo ler que n\u00e3o seja numa perspectiva de confrontos e refer\u00eancias.<\/p>\n<p>O que tem lido ultimamente?<\/p>\n<p>Ando a ler muito sobre a experi\u00eancia crist\u00e3 enquanto elemento fundamental e estruturante da nossa pr\u00f3pria vida. \u00c9 um tema novo. Comprei o livro h\u00e1 dias em F\u00e1tima: \u201cExperiencia de Dios y formaci\u00f3n vocacional\u201d, de Jos\u00e9 Maria Imizcoz Barriola. H\u00e1 um outro que estou a ler e gostava de alargar a reflex\u00e3o a outros. \u00c9 um livro de Jo\u00e3o Baptista Lib\u00e2nio. Ofereceu-mo o Pedro Jos\u00e9 [padre da diocese a missionar no Brasil], \u201cAs l\u00f3gicas da cidade\u201d. D\u00e1 uma vis\u00e3o muito diferente da evangeliza\u00e7\u00e3o em meios urbanos. O local de encontro das pessoas era o adro da igreja. Vivia-se da igreja. Hoje n\u00e3o. Passou-se do impacto da f\u00e9 ao impacto sobre a f\u00e9.<\/p>\n<p>H\u00e1 um outro que quero comprar, \u201cAbrigos: condi\u00e7\u00f5es das cidades e energia da cultura\u201d (edi\u00e7\u00f5es Cotovia), de Ant\u00f3nio Pinto Ribeiro, dentro desta problem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Est\u00e1 tudo dentro da mesma ideia, a nova cultura e a viv\u00eancia da f\u00e9. Dois pontos que mais me est\u00e3o preocupando.<\/p>\n<p>\u201cA carga das omiss\u00f5es \u00e9 terr\u00edvel, mas n\u00e3o sou de me angustiar\u201d<\/p>\n<p>Olhando de relance, como avalia os seus cinquenta anos de padre?<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o os fiz. Por isso ainda n\u00e3o fiz o balan\u00e7o. Mas logicamente \u00e9 uma vida privilegiada. Ordenei-me e fui para Roma. Ir para Roma na d\u00e9cada de 1950 foi uma gra\u00e7a muito grande. Na altura o mundo acabava na fronteira. Deu-me uma abertura enorme. Foi um tempo de paix\u00f5es. Uma delas foi Henri de Lubac e as \u201cMeditations sur l\u2019\u00c9glise\u201d. Meteu-se-me na cabe\u00e7a e numas das primeiras f\u00e9rias de padre fui \u00e0 procura de Lubac [te\u00f3logo fundamental do s\u00e9c. XX, que antes do Conc\u00edlio foi mandado silenciar; no Conc\u00edlio a sua teologia viria a ser recuperada]. E fui a caminho de Lyon. Tinha tr\u00eas objectivos: encontrar o Lubac, fazer um contacto com o catecumetado de adultos, que estava a come\u00e7ar, e conhecer o bispo oper\u00e1rio, Mons. Anselm. S\u00f3 n\u00e3o consegui falar com Lubac, estava \u201ccongelado\u201d, n\u00e3o recebia ningu\u00e9m, porque estava proibido de ensinar.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia que ele tinha sido proibido de ensinar?<\/p>\n<p>Sabia, mas estava convencido de que ele me recebia. Nos tr\u00eas anos que vivi em Roma \u2013 o meu bispo era muito aberto e dizia: \u201cTu n\u00e3o venhas logo para casa!\u201d \u2013, nas f\u00e9rias, viajei pela B\u00e9lgica, pela \u00c1ustria. Tive sempre liga\u00e7\u00f5es com pessoas de todos os lados. Vivi esses tr\u00eas anos com uma \u00e2nsia de aproveitar. Sabia o que vinha fazer. At\u00e9 gozavam comigo: quando d\u00e1vamos um passeio de autocarro [em Portugal], pass\u00e1vamos por uma vacaria e algu\u00e9m dizia: \u201cPare aqui, que o Marcelino quer fazer uma experi\u00eancia pastoral\u201d.<\/p>\n<p>Depois dos estudos em Roma, trabalhou no semin\u00e1rio\u2026<\/p>\n<p>Vim de Roma em 1958 e sentia-se que estava tudo a abanar. Pio XII morre em Setembro, \u00e9 eleito em Outubro Jo\u00e3o XXIII. Vivi esta transi\u00e7\u00e3o toda. Em Roma, t\u00ednhamos um grupo de padres que se reunia a sonhar com Portugal &#8211; o Maur\u00edcio de Lisboa, o Luciano Guerra de F\u00e1tima, o Augusto de Viseu, o Martins de Vila Real, o Matos de Viseu. Era um grupo que se reunia a sonhar com Portugal. Eu tinha lido muito sobre a miss\u00e3o de Fran\u00e7a. Sonhava com coisas deste g\u00e9nero.<\/p>\n<p>Vim para Portugal e fui para o Semin\u00e1rio com uma mentalidade aberta. Escrevi sobre preparar pessoas para o catecumenato e alguns colegas ficaram muito ofendidos, porque pensaram que eu estava a p\u00f4r problemas que ainda n\u00e3o se sentiam. O meu bispo apoiou-me sempre muito.<\/p>\n<p>Em 1961 j\u00e1 ped\u00edamos uma reforma agr\u00e1ria no Alentejo. \u00c9 claro que levei muita pancada dos mon\u00e1rquicos e dos latifundi\u00e1rios. Vivi essas lutas todas. A seguir ao Conc\u00edlio, viajei pelo pa\u00eds todo, a falar da \u201cLumen Gentium\u201d. De 70 a 73, fui regularmente a \u00c1frica. Estive para ir para Mo\u00e7ambique como bispo auxiliar de Louren\u00e7o Marques. O D. Francisco Nunes Teixeira veio c\u00e1 de prop\u00f3sito para isso. Mas o D. Agostinho disse: \u201cN\u00e3o, n\u00e3o. Est\u00e3o todos para se virem embora e agora \u00e9 que voc\u00ea vai?\u201d E trocou. N\u00e3o sei se foi bem, se foi mal\u2026 Depois tive a sorte de ir para Lisboa, com o Cardeal Ribeiro, que era pessoa muito formal, mas que me deu sempre carta branca. N\u00e3o era de muitas confid\u00eancias. Fiquei com o Oeste. Foram seis anos de um entusiasmo e abertura extraordin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Como foram os seus primeiros anos de bispo?<\/p>\n<p>No in\u00edcio do meu minist\u00e9rio como bispo, apanhei o 25 de Abril e o \u201cVer\u00e3o Quente\u201d. Nas reuni\u00f5es da confer\u00eancia expunha as minhas ideias e os bispos mais velhos diziam: \u201cN\u00e3o discorde do Patricarca\u2026\u201d \u201cEu sou um bispo da confer\u00eancia episcopal como os outros; posso dar a minha opini\u00e3o\u201d, dizia eu. E o D. Manuel Alexandre Rocha acres-centava: \u201cH\u00e1-de aprender, h\u00e1-de aprender. Nunca se discorda do Patriarca\u201d. Mas o Patriarca compreendeu que eu podia ter mais ou menos experi\u00eancia, mas tinha amor \u00e0 Igreja e queria que as coisas andassem. Mais tarde [j\u00e1 na d\u00e9cada de 1990] o Patriarca Ribeiro ficou aborrecido, quando dei uma entrevista ao Di\u00e1rio de Not\u00edcias contra a televis\u00e3o da Igreja. Discordei totalmente do canal para a Igreja. Era de opini\u00e3o que a Igreja n\u00e3o tinha potencial econ\u00f3mico. Para viver da publicidade, tinha de fazer ced\u00eancias. E isso n\u00e3o quer\u00edamos. O Patriarca n\u00e3o esperava isto. Gerou-se alguma tens\u00e3o numa reuni\u00e3o dos bispos, mas tudo se resolveu. Sempre tive essa capacidade de n\u00e3o ficar com rancores. Noutras reuni\u00f5es, quando as discuss\u00f5es come\u00e7avam a patinar, o Patriarca suplicava-me que eu tivesse interven\u00e7\u00f5es na assembleia. Fazia-me sinais.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 pergunta, como avalia os seus cinquenta anos de padre?<\/p>\n<p>Vivi um tempo privilegiado. As coisas n\u00e3o me ca\u00edram em cima. Eu lutava por elas. N\u00e3o lutava para ter poderes. Lutava no sentido em que a vida me empurrava e eu tinha sensibilidade para isso. Foi uma gra\u00e7a. Tive bispos muito amigos.<\/p>\n<p>Revendo a minha vida, sinto que Deus me foi conduzindo. At\u00e9 por algumas doen\u00e7as graves que me humanizaram muito no sentido de compreender a dor. Sinto que fui preparado espiritualmente para compreender os doentes e os idosos. Tenho muitos defeitos e omiss\u00f5es. A carga das omiss\u00f5es \u00e9 uma coisa terr\u00edvel, mas n\u00e3o sou de me angustiar.<\/p>\n<p>Jogo de palavras<\/p>\n<p>&#8220;Tenho uma paix\u00e3o especial por Paulo VI&#8221;<\/p>\n<p>O Correio do Vouga pediu ao Bispo de Aveiro que revelasse o que imediatamente pensa sobre estas pessoas, grupos ou situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o XXIII<\/p>\n<p>Um homem que deu novidade \u00e0 vida da Igreja e que eu tenho muito no meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Paulo VI<\/p>\n<p>Um grande lutador, um grande Papa, por quem tenho uma admira\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria. Tenho por ele uma paix\u00e3o especial. Foi ele que me fez bispo e teve comigo v\u00e1rios gestos, um dos quais no primeiro ano da minha ordena\u00e7\u00e3o episcopal. A bas\u00edlica de S. Pedro estava chei\u00edssima. Estava l\u00e1 eu e um bispo belga, mission\u00e1rio, velhinho. O Papa viu-nos e disse: \u201cIrm\u00e3os bispos, venham c\u00e1 para ao p\u00e9 de mim\u201d. Mandou p\u00f4r duas cadeiras ao lado dele e disse: \u201cS\u00e3o t\u00e3o bispos como eu. Vivemos em comunh\u00e3o\u201d. Fez ali uma catequese sobre o col\u00e9gio episcopal; e no fim mandou-nos dar a b\u00ean\u00e7\u00e3o com ele.<\/p>\n<p>Uma outra vez foi no fim de uma grande audi\u00eancia, onde estavam trinta e tantos bispos e padres relacionados com os neocatecumenais. Falou do baptismo, da renova\u00e7\u00e3o do baptismo mas nunca dos catecumenais. No fim disse: \u201cAgora quero ficar com os meus bispos\u201d. E depois disse-nos: \u201cCada um tem o discernimento do Esp\u00edrito tal e qual como eu. O que pensam disto?\u201d S\u00e3o dois gestos impressionantes. Marcam para a vida toda.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo II<\/p>\n<p>Escolhido por Deus para um momento pr\u00f3prio da vida do mundo. Homem de um vigor extraordin\u00e1rio. Tem uma mentalidade pr\u00f3pria, mas marca a hist\u00f3ria da Igreja como um grande papa.<\/p>\n<p>D. Manuel de Almeida Trindade<\/p>\n<p>Serenidade, paz, o n\u00e3o exagerar os problemas. Um grande bispo e amigo com quem me dei como Deus com os anjos, durante sete anos.<\/p>\n<p>D. Jos\u00e9 Policarpo<\/p>\n<p>Um velho amigo, que admiro nas suas capacidades, que marcou seis anos como presidente da CEP, que ajudou a crescer a confer\u00eancia episcopal.<\/p>\n<p>Clero de Aveiro<\/p>\n<p>Gente generosa, lutadores apost\u00f3licos, talvez, por vezes, com pouca abertura ao conjunto geral da vida da Igreja.<\/p>\n<p>Depois de Aveiro<\/p>\n<p>Quero continuar em Aveiro. E que o depois &#8211; da responsabilidade do novo bispo &#8211; me permita dar a Aveiro e \u00e0 Igreja aquilo que est\u00e1 nas minhas possibilidades.<\/p>\n<p>Universidade de Aveiro<\/p>\n<p>Uma escola exemplar, que tamb\u00e9m nos tem ajudado a todos a ter qualidade no nosso pr\u00f3prio trabalho. Admiro-a e respeito-a na sua autonomia, porque tamb\u00e9m respeita a Igreja.<\/p>\n<p>Semin\u00e1rio de Aveiro<\/p>\n<p>Uma esperan\u00e7a permanente e uma vis\u00e3o nova na vida da Igreja, porque n\u00e3o serve s\u00f3 para forma\u00e7\u00e3o de padres, mas tamb\u00e9m de agentes pastorais em todas as dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>Jovens<\/p>\n<p>Mais do que uma esperan\u00e7a, uma certeza que temos de saber aproveitar.<\/p>\n<p>Leigos<\/p>\n<p>Imprescind\u00edveis na vida da Igreja, porque s\u00e3o a maioria e porque t\u00eam experi\u00eancia e capacidade que os padres n\u00e3o t\u00eam. Sem aten\u00e7\u00e3o a eles n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma renova\u00e7\u00e3o pastoral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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