{"id":16699,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16699"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"os-indiferentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/os-indiferentes\/","title":{"rendered":"Os indiferentes"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 luz do dia <!--more--> A linha vai paralela \u00e0 estrada, entre a cidade e o rio. As esta\u00e7\u00f5es e apeadeiros est\u00e3o protegidos por cercas de arame e \u00e9 preciso subir e descer escadas para apanhar o comboio. Cada esta\u00e7\u00e3o tem duas plataformas altas e, no meio, existe o fosso onde assentam os carris e corre o comboio.<\/p>\n<p>Numa das plataformas, um homem novo destaca-se dos outros porque avan\u00e7a extraordinariamente devagar e tem um andar periclitante. \u00c9 cego, arrasta os p\u00e9s como se esperasse a todo o momento encontrar os degraus de uma escada e faz movimentos ansiosos com o bra\u00e7o direito, explorando o espa\u00e7o \u00e0 sua volta. Agita a bengala sem parar, num movimento cadenciado ora para a esquerda, ora para a direita e \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o reparar nele.<\/p>\n<p>Estou dentro do carro, presa numa fila de tr\u00e2nsito, na estrada que corre ao longo da linha do comboio, e assisto ao descompasso que existe entre o cego e todos os outros que chegam e partem sem olhar para ele. Ou melhor, sem o ver.<\/p>\n<p>Homens e mulheres, rapazes e raparigas cruzam-se no caminho do cego e afastam-se instintivamente para que a bengala n\u00e3o lhes toque. Indiferentes \u00e0 necessidade imperiosa que o cego tem de encontrar ch\u00e3o debaixo dos p\u00e9s e \u00e0 vertigem que \u00e9, para ele, o pequeno abismo que separa as duas plataformas, passam sem se deter. N\u00e3o lhes ocorre sequer pensar que, naquele lugar, ele precisa especialmente de ajuda para se orientar e n\u00e3o cair no fosso dos carris.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o \u00e9 cego, ver o ch\u00e3o que pisa e caminhar com segu-ran\u00e7a entre buracos e obst\u00e1culos \u00e9 t\u00e3o natural como respirar, e da\u00ed, certamente, muita da distra\u00e7\u00e3o dos que passam pelo cego. Em todo o caso, aquele homem vai notoriamente aflito com a falta de refer\u00eancias, com o espa\u00e7o onde se sente inseguro e, ainda, com a amea\u00e7a dos degraus e do abismo entre plataformas. Os seus gestos s\u00e3o inquietantes e os seus passos hesitantes mas, mesmo assim, os outros n\u00e3o reparam. H\u00e1 um rapaz que vem no sentido contr\u00e1rio, de frente para ele, mas que tamb\u00e9m se afasta no preciso momento em que se cruza com o cego. Deixa-o passar, encosta-se a um poste e segue-o com um olhar abstracto. Mais um que olha sem ver, portanto.<\/p>\n<p>Vista do carro, a cena d\u00f3i, porque o cego continua penosamente a tentar encontrar caminho sem que ningu\u00e9m pare para o ajudar. Percebe-se que n\u00e3o \u00e9 maldade, mas indiferen\u00e7a pura. Ningu\u00e9m quer saber, ningu\u00e9m est\u00e1 para se ralar, ningu\u00e9m est\u00e1 ali para ajudar ningu\u00e9m e, no fundo, todos se sentem desculpados, porque afinal  o homem \u00e9 cego e n\u00e3o v\u00ea os que, podendo ajudar, n\u00e3o ajudam.<\/p>\n<p>\u00c9 muito mais f\u00e1cil n\u00e3o ajudar um cego do que um coxo, porque este olha para n\u00f3s e percebe a nossa indiferen\u00e7a, enquanto o outro n\u00e3o. Acontece que a indiferen\u00e7a mata e, de uma maneira ou de outra, todos sabemos isso. Sabemos porque sentimos, ali\u00e1s.<\/p>\n<p>E se a indiferen\u00e7a dos outros mata, porque ser\u00e1 que n\u00f3s pr\u00f3prios persistimos tantas vezes nesta atitude?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 luz do dia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-16699","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16699","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16699"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16699\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16699"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16699"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16699"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}