{"id":16737,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16737"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"preconceito-positivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/preconceito-positivo\/","title":{"rendered":"Preconceito positivo"},"content":{"rendered":"<p>Quando a lucidez n\u00e3o me estranha, as leituras sucedem-se no deserto do trabalho pelas noites de lua cheia, e ent\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel entranhar-se na vida mission\u00e1ria, que n\u00e3o \u00e9 ap\u00eandice da vida crist\u00e3. E porque a vida tamb\u00e9m se l\u00ea, hoje, preciso navegar sem rede, dentro das minhas cidades invis\u00edveis, meus pr\u00f3prios mundos desiguais, por entre as gra\u00e7as e os pecados da vida tamb\u00e9m dita pastoral porque social. Estou vivendo a vida abundante, e tudo o mais n\u00e3o importa muito.<\/p>\n<p>\u00c0 pergunta que santo Agostinho se fazia em nosso nome, e dava uma resposta que arrepia a todos, menos aos agn\u00f3sticos, porque nunca se assumem, sucedia pergunta refor-mulada que era: de que se \u201cocupava\u201d Deus antes de criar (antes de haver Tempo propriamente dito, especula\u00e7\u00e3o que nos deixa no m\u00ednimo perplexos) ? Resposta pessoal de insol\u00eancia adolescente: lia um bom livro, de prefer\u00eancia com ilustra\u00e7\u00f5es. Deus criou lendo um manual de instru\u00e7\u00f5es, que se fazia simultaneamente. Por essa raz\u00e3o simb\u00f3lica, n\u00f3s somos um preconceito ordin\u00e1rio com sucesso na extraordin\u00e1ria obra da Cria\u00e7\u00e3o Cosmol\u00f3gica. Somos todos um pouco uma biografia bem administrada colectivamente, em curr\u00edculo altamente personalizado.<\/p>\n<p>Vai da\u00ed continuei a pensar: estima as pessoas que l\u00eaem, elas s\u00e3o o teu c\u00edrculo de rela\u00e7\u00f5es mais \u00edntimo. A pergunta dupla&#8230; qual foi a sua \u00faltima leitura e o que mais o\/a impressionou? At\u00e9 que ponto essa leitura se inscreveu na pessoa e na vida particular? A\u00ed pronto, a divis\u00e3o de \u00e1guas est\u00e1 feita. Claro que s\u00f3 entendemos este crit\u00e9rio, quando h\u00e1 pessoas, ou se h\u00e1 pessoas \u2013 que n\u00e3o t\u00eam a gravidade moral de sofrer de iliteracia (\u201cA iliteracia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um mal caracter\u00edstico dos pa\u00edses subdesenvolvidos, mas um verdadeiro mal dos tempos\u201d, in Grande Reportagem, Lisboa, Novembro, 1997, n\u00ba80 \u2013 2\u00aaS\u00e9rie ) &#8211; e devem exercer essa capacidade de se tor-narem leitores(as). Analfabetismo funcional, ou outra especifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 problem\u00e1tica a interrogar como-saber-fazer.<\/p>\n<p>O drama come\u00e7ou, quando fiz an\u00e1lise introspectiva de mim mesmo. Tipo elitista intelectual extremoso: \u201cVoc\u00ea \u00e9 voyeur de si mesmo\u201d. Drama que teve v\u00e1rios actos e sub-trag\u00e9dias. Um agulh\u00e3o mordaz e omnipresente: tens de oferecer o teu melhor livro! Ler \u00e9 tua idolatria. Livros s\u00e3o os teus \u00eddolos. Essa hist\u00f3ria de leitura \u00e9 quase doen\u00e7a. Recordo com nostalgia a minha filia\u00e7\u00e3o na Biblioteca Calouste Gulbenkian. <\/p>\n<p>Ap\u00f3s a tua 5\u00aa e \u00faltima viagem de avi\u00e3o, conscientemente a primeira de trabalho, tomas a percep\u00e7\u00e3o que a tua bagagem \u00e9 59% feita de livros. Eles grudam em ti; trata-os como verdadeiras \u201ctop-model\u201d. O del\u00edrio parecia sem fim \u00e0 vista. Dos 5 \u00faltimos livros lidos e eleitos como os \u201cmelhores\u201d, para oferecer&#8230;teria de escolher: um que n\u00e3o estivesse riscado; um n\u00e3o dobrado; um n\u00e3o amarrotado; numa palavra, que n\u00e3o estivesse maltratado, isto \u00e9, limpo e em certo sentido virgem. Tarefa dolorosa porque, em 5, 4 est\u00e3o afetados pelos sintomas atr\u00e1s descritos, que os transformavam na condi\u00e7\u00e3o de \u201cn\u00e3o-present\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>Quem l\u00ea, l\u00ea de tudo. N\u00e3o quem simplesmente junta fonemas. L\u00ea de tudo o que tem \u00e0 m\u00e3o por entre os olhos. Ironicamente, para meu sublime contentamento, fui diagnosticado com uma \u201cinsufici\u00eancia de converg\u00eancia\u201d pelo meu oftalmologista. As inclina\u00e7\u00f5es subversivas d\u00e3o nisso, ri na minha pr\u00f3pria cara, o que \u00e9 terap\u00eautico. Haver\u00e1 porventura leituras incorrectas, privadas em intimidade (!?), impr\u00f3prias para algumas idades ou estados psicol\u00f3gicos? Bem, obviamente n\u00e3o se pode ser amoral por um m\u00ednimo de honestidade intelectual. N\u00e3o somos neutros, mas somos amb\u00edguos, especialmente, autoformados pelas nossas situa\u00e7\u00f5es. A verdade existencial, a \u00fanica que interessa, \u00e9 nua e crua. N\u00e3o h\u00e1 lugar a paliativos. <\/p>\n<p>Oferece um livro da \u201ctua biblioteca\u201d, daquela mala bem pesada que levarias para uma ilha deserta. Era a exig\u00eancia de dar-me a mim mesmo, tipo dar sangue para que outro sobreviva \u00e0 morte ou \u00e0 vida. Pensei e racionalizei, chegando a ponto de comprar um presente alternativo. A conclus\u00e3o irrompeu com serenidade: d\u00e1 o que te custa mais; e de repente foi um parto sem dor, experi\u00eancia paradoxal.<\/p>\n<p>Dei a \u201cporra\u201d do livro&#8230; e mais nada de possessivo me habitou. Fui libertado, na certeza de tantos livros desejados que literalmente me encontraram e salvaram. Tal e qual como os amigos e as amizades. E novamente outras leituras \u00e0 margem me completam, porque abrem ao essencial: \u201cOs bons s\u00e3o salvos, e com muito maior raz\u00e3o os maus ser\u00e3o salvos\u201d (A obra Tannish\u00f4 &#8211; O Tratado de Lamenta\u00e7\u00f5es das Heresias). <\/p>\n<p>Para terminar, preconceito positivo \u00e9 oferecer livros, selecionados em obras e autores (sobretudo, cl\u00e1ssicos, p\u00f3s-modernos, ou marginalizados&#8230; os que est\u00e3o fora da cultura de massas, que n\u00e3o tenho nada contra, porque simplesmente n\u00e3o alimentam a espiritualidade do leitor, s\u00f3 servem de distra\u00e7\u00e3o&#8230;), e n\u00e3o perder nenhuma oportunidade para o fazer. D\u00ea sem mais leituras. \u00c9 um investimento incalcul\u00e1vel, apesar de caro. D\u00ea o que o fez crescer em humanidade. D\u00ea o que o fez mais rico ou pobre, mas nunca d\u00ea as sobras da sua riqueza ou pobreza. D\u00ea tudo por inteiro. Porque \u00e9 assim que um livro se d\u00e1 \u00e0 sua leitura prazerosa. Leia livros e d\u00ea livros aos seus amigos e, sem insultos, aos seus inimigos tamb\u00e9m. Ler \u00e9 um acto de lentid\u00e3o e pregui\u00e7a do Ser. Um livro \u00e9 um mundo que se abre sem limites. Um livro \u00e9 um col\u00edrio para a alma. <\/p>\n<p>Fim do sequestro liter\u00e1rio&#8230; algumas sugest\u00f5es impr\u00f3prias para leituras apressadas. Para me queimar, definitivamente, eis uma proposta para concretizar leituras em poss\u00edveis ofertas que fiz, no mundo virtual que nos gera todos os dias: a) oferta politicamente \u201ccorrecta\u201d &#8211; \u201cUma vida de Jesus\u201d \u2013 Shusaku Endo; b) oferta politicamente \u201cincorrecta\u201d &#8211; \u201cO Engenhoso Fidalgo \u2013 Dom Quixote de la Mancha\u201d Miguel de Cervantes Saavedra, Ed. Lello &#038; Irm\u00e3o (3 volumes), 1969; c) oferta politicamente \u201csaud\u00e1vel\u201d &#8211; \u201cO Pr\u00edncipe e a Lavadeira\u201d &#8211; Nuno Tovar Lemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a lucidez n\u00e3o me estranha, as leituras sucedem-se no deserto do trabalho pelas noites de lua cheia, e ent\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel entranhar-se na vida mission\u00e1ria, que n\u00e3o \u00e9 ap\u00eandice da vida crist\u00e3. 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