{"id":16806,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16806"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"para-nao-nos-esquecermos-de-existir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/para-nao-nos-esquecermos-de-existir\/","title":{"rendered":"Para n\u00e3o nos esquecermos de existir"},"content":{"rendered":"<p>Cuidado de si <!--more--> Um t\u00edtulo para n\u00e3o deixarmos morrer a convic\u00e7\u00e3o \u2013 ou, at\u00e9, para a criarmos \u2013 de que tamb\u00e9m somos destinat\u00e1rios do nosso desvelo e amor. N\u00e3o por enclausuramento narc\u00edsico ou viragem umbilical. Mas porque somos, isso sim, o primeiro dom\/presente que a Vida &#8211; Deus \u2013 oferece a n\u00f3s pr\u00f3prios. Somos o dom que Deus nos d\u00e1, dando-nos a n\u00f3s mesmos. Qualquer gesto altru\u00edsta, a generosidade, nascer\u00e1 daqui: da convic\u00e7\u00e3o \u00edntima de sermos doados a n\u00f3s mesmos. E \u00e9 por isso que nos podemos oferecer aos outros. Por darmos o que temos. Se n\u00e3o nos possu\u00edmos, como poderemos doar-nos? Se n\u00e3o nos apropria-mos do que somos, como poderemos desapropriar-nos para os outros?<\/p>\n<p>O cuidado de si, antes de mais, declina-se como cuidar do corpo. N\u00e3o por um crit\u00e9rio est\u00e9tico que obedece aos padr\u00f5es da moda, mas como imperativo \u00e9tico: o corpo \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o do dom que se recebe, \u00e9 o que configura o estarmos \u00aba\u00ed no mundo\u00bb. \u00c9 bom n\u00e3o esquecer o maltrato a que, ami\u00fade, o sujeita-mos: no \u00e2mbito das depend\u00eancias, do escasso repouso, dos apetites vorazes e, at\u00e9, das v\u00e1rias gin\u00e1sticas e muscula\u00e7\u00f5es a que nos submetemos. Um crit\u00e9rio a ter em mente pode ser o de uma via interm\u00e9dia: nem alim\u00e1ria, nem est\u00e1tua br\u00f4nzea. <\/p>\n<p>Outra vertente implica cuidar da psique: do modo, saud\u00e1vel ou n\u00e3o, como gerimos as nossas emo\u00e7\u00f5es, os pensamentos, os di\u00e1logos interiores, o agir. Tamb\u00e9m aqui n\u00e3o apenas por um crit\u00e9rio de higiene mental \u2013 importante, mas redutor -, mas porque \u00e9 a psique que nos coloca em rela\u00e7\u00e3o com o mundo, com os outros, connosco pr\u00f3prios, com Deus. Sendo o sistema com que processamos as nossas viv\u00eancias \u2013 das mais superficiais \u00e0s mais profundas &#8211; conv\u00e9m-nos mant\u00ea-lo flex\u00edvel, aberto, l\u00facido e, na medida do poss\u00edvel, aderente \u00e0 realidade que nos circunda.<\/p>\n<p>Declina-se tamb\u00e9m como cuidar das rela\u00e7\u00f5es interpessoais: participar na vida c\u00edvica ou comunit\u00e1ria, nutrir a amizade, arriscar o amor. N\u00e3o por um ref\u00fagio no comunitarismo &#8211; que aliena, transformando-nos em n\u00fameros -, ou, apenas, por imperativo moral \u2013 derivado do facto de sermos sociais -, mas, sobretudo, porque o amor \u00e9 o verdadeiro rosto dos humanos.<\/p>\n<p>Por fim, mas n\u00e3o menos importante, o cuidado de si declina-se como cuidar do esp\u00edrito, termo abrangente que engloba a rela\u00e7\u00e3o com o Absoluto &#8211; que n\u00f3s crist\u00e3os tratamos por Deus de Jesus Cristo -, a assun\u00e7\u00e3o de um universo de valores e a busca de sentido\/significado para a exist\u00eancia. N\u00e3o porque descobri-mos a moda das \u00abespiritualidades\u00bb &#8211; o que nem \u00e9 mau de todo! \u2013 ou porque temos pavor do desconhecido tr\u00e1gico que nos espera em cada incerteza, em cada doen\u00e7a, em cada morte. Mas para darmos voz ao desejo &#8211; aninhado no fundo do nosso eu profundo &#8211; que clama pelo infinito, pela plenitude, pela eternidade.<\/p>\n<p>Um autor que muito prezo, talvez noutro texto revele o nome, costuma dizer que o cuidado de si tem uma \u00fanica finalidade: a de n\u00e3o nos esquecermos de existir. Assim sendo, o cuidado de si torna-se tarefa primordial, desafio \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia, apelo que a vida nos faz. Ouso dizer, \u00e9 chamamento divino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cuidado de si<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-16806","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16806","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16806"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16806\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16806"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16806"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}