{"id":16839,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16839"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"testamento-nao-tenho-essa-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/testamento-nao-tenho-essa-liberdade\/","title":{"rendered":"Testamento: N\u00e3o tenho essa liberdade"},"content":{"rendered":"<p>Consigo, apenas, respirar no meio de muitas confiss\u00f5es. Rezo na mem\u00f3ria o verso do hino de v\u00e9speras: \u201cpara gozar os dons pascais\u201d. Amada P\u00e1scoa, passagem, sobre o abismo da injusti\u00e7a dos homens. Acredito cada vez mais na confiss\u00e3o sacramental, n\u00e3o na can\u00f3nica, mas na existencial. Olho as crian\u00e7as a jogar bola, na chuva torrencial e h\u00famida, sempre o ar abafado. Chega-se uma adolescente, corpo precoce todo de mulher feita, e junta-se ao grupo, n\u00e3o para jogar a bola, mas para, no recinto da escola, no sentido oposto ao da capela, permanecer na beirada do telhado; colocar-se bem debaixo, recebendo a \u00e1gua do c\u00e9u, como b\u00ean\u00e7\u00e3o. V\u00e1rios minutos assim e segue caminho. Eu mesmo dou penit\u00eancias, que s\u00e3o minhas e tamb\u00e9m as fa\u00e7o pela Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo dos \u00faltimos tempos. Penit\u00eancias ou liberdades. Liberdades penitenciais ou penit\u00eancias libertadoras, numa vida que j\u00e1 \u00e9 sempre penit\u00eancia. Reclamo se alguns n\u00e3o precisavam mais dessa Liberdade; de se colocarem sem falsas met\u00e1foras debaixo dessa chuva nas beiradas dos telhados, re-cebendo a b\u00ean\u00e7\u00e3o da \u00e1gua. \u00c1gua da chuva, \u00e1gua baptismal, que purifica o pecado original, resgatando-nos numa Segunda Inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>Outras liberdades me perseguem. O cristianismo \u00e9 um jogo de liberdades. Essa \u00e9 a experi\u00eancia origin\u00e1ria da Ora\u00e7\u00e3o. Presentemente, com a interioridade de publicano, saboreio o esp\u00edrito da ora\u00e7\u00e3o de Thomas Merton. \u201cSenhor, meu Deus, n\u00e3o sei, para onde vou. N\u00e3o vejo o caminho diante de mim. N\u00e3o posso saber com certeza onde terminar\u00e1. Nem sequer, em realidade, me conhe\u00e7o, e o facto de pensar que estou seguindo a tua vontade n\u00e3o significa que, em verdade, o esteja fazendo. Mas creio que o desejo de te agradar te agrada realmente. E espero ter esse desejo em tudo o que fa\u00e7o. Espero que jamais farei algo de contr\u00e1rio a esse desejo. E sei que, se assim fizer, tu me h\u00e1s de conduzir pelo caminho certo, embora eu nada saiba a esse respeito. Portanto, sempre hei-de confiar em ti, ainda que me pare\u00e7a estar perdido e nas sombras da morte. N\u00e3o hei-de temer, pois est\u00e1s sempre comigo e nunca me abandonar\u00e1s, para que eu enfrente sozinho os perigos que me cercam\u201d (\u201cNa liberdade da solid\u00e3o\u201d). <\/p>\n<p>&#8211; Quem faz a festa padre? Os que promovem a festa, ou os que v\u00e3o \u00e0 festa? Penso: que raio, a Vida Eterna \u00e9 um Eterno Banquete, uma Eterna Festa! Pergunta-me \u00e0 queima roupa, a mulher com rugas eternas, tamb\u00e9m ela uma verdadeira Maria li-bertadora&#8230; Engasguei-me e teoricamente respondi o \u201cnormal\u201d, isto \u00e9, uma fuga em frente no meu refinado cepticismo. Mas agora, noite dentro, j\u00e1 sei qual \u00e9 a verdadeira resposta. Sinto e sei-o, n\u00e3o tenho essa Liberdade. A Liberdade come\u00e7a quando termina o Medo. S\u00f3 a Verdade nos libertar\u00e1. Sei e acredito: hoje, ainda n\u00e3o tenho essa Liberdade. Mas estou uns mil\u00edmetros mais perto, sou mais feliz por que n\u00e3o me afasto. H\u00e1 uma pequena multid\u00e3o, entre os mais pobres, mais humildes e perdidos, como eu e tu, que tamb\u00e9m sabe e acredita.<\/p>\n<p>Chapadinha (Brasil), 07-03-2005<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Consigo, apenas, respirar no meio de muitas confiss\u00f5es. Rezo na mem\u00f3ria o verso do hino de v\u00e9speras: \u201cpara gozar os dons pascais\u201d. Amada P\u00e1scoa, passagem, sobre o abismo da injusti\u00e7a dos homens. Acredito cada vez mais na confiss\u00e3o sacramental, n\u00e3o na can\u00f3nica, mas na existencial. Olho as crian\u00e7as a jogar bola, na chuva torrencial e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-16839","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16839","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16839"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16839\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16839"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16839"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16839"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}