{"id":1695,"date":"2010-05-26T16:13:00","date_gmt":"2010-05-26T16:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1695"},"modified":"2010-05-26T16:13:00","modified_gmt":"2010-05-26T16:13:00","slug":"o-menino-que-vazava-o-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-menino-que-vazava-o-mar\/","title":{"rendered":"O menino que vazava o mar"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Domingo da Sant\u00edssima Trindade &#8211; Ano C<\/p>\n<p>A raz\u00e3o humana n\u00e3o se poupa, no seu esfor\u00e7o fant\u00e1stico de procurar e desbravar caminhos entre o ser humano e Deus; e de assim conseguir falar de Deus mostrando que dele n\u00e3o se pode falar e rascunhando uma imagem de Deus mostrando que dele n\u00e3o pode fazer imagem. Este cuidado em n\u00e3o lhe aplicar conceitos e representa\u00e7\u00f5es humanas continua bem patente no juda\u00edsmo e islamismo. <\/p>\n<p>Mas todas as religi\u00f5es se preocupam com a sistematiza\u00e7\u00e3o do seu \u00abdep\u00f3sito de f\u00e9\u00bb. \u00c9 o resultado das formula\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas da multimilen\u00e1ria experi\u00eancia de Deus, quer de origem multicultural quer de pequenos grupos mais ou menos fechados; quer testemunhada por \u00abgente simples\u00bb quer por c\u00e9lebres pensadores ou \u00absantos\u00bb famosos.<\/p>\n<p>Esse \u00abdep\u00f3sito\u00bb \u00e9 frequentemente guardado como um tesouro em caixas fortes \u00e0 prova de tudo, como padr\u00e3o \u00fanico e inviol\u00e1vel da nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus.<\/p>\n<p>E no entanto, todas a pessoas verdadeiramente religiosas sabem que esses tesoiros jamais poderiam ser uma esp\u00e9cie de rel\u00edquias de Deus ou f\u00f3rmulas sagradas a que basta uma pessoa agarrar-se para garantir a salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O conceito estranh\u00edssimo de uma \u00abTrindade que \u00e9 Unidade indivis\u00edvel\u00bb  simboliza afinal a nossa maneira de entender Deus como a Realidade verdadeira e como tal completamente diferente do que podemos pensar ou sentir a seu respeito (\u00abde Deus s\u00f3 sabemos o que ele n\u00e3o \u00e9\u00bb, no dizer de c\u00e9lebres te\u00f3logos ), mas que se  deixa adivinhar pela pessoa humana. Foi extraordinariamente not\u00e1vel a experi\u00eancia de Deus por um simples judeu de h\u00e1 2000 anos atr\u00e1s \u2013 um \u00abprofeta\u00bb, que revelou possuir uma autoridade especial. Viveu poucos anos, num pequeno pa\u00eds, mas com um avan\u00e7ad\u00edssimo sistema religioso, e n\u00e3o faltaram disc\u00edpulos para continuar essa nova experi\u00eancia de Deus. N\u00e3o era rico nem era pobre. Dava-se com toda a gente \u2013 e nisto \u00e9 que se mostrava a for\u00e7a do esp\u00edrito de Deus, e o sinal progressivamente descoberto de que a humanidade faz toda ela parte do mist\u00e9rio de Deus. A realidade \u00e9 que Deus est\u00e1 presente em qualquer estilo de vida, como diferentes tentativas ou diferentes sinais para a revela\u00e7\u00e3o de Deus. Pela espantosa experi\u00eancia de Jesus e do que Jesus foi para os disc\u00edpulos, sentimos que Deus n\u00e3o estava ausente antes de Jesus nem se retirou com a sua morte. Jesus crucificado e ressuscitado foi \u00abexaltado\u00bb por Deus e, no dizer de te\u00f3logos, \u00abvive agora segundo o modo de exist\u00eancia e de agir de Deus\u00bb.<\/p>\n<p>Jesus foi um rasg\u00e3o no mist\u00e9rio de Deus. De tal modo se evidenciou, de tal modo mostrou ser \u00abfilho de Deus\u00bb, que a tradi\u00e7\u00e3o viu nele e na sabedoria ou esp\u00edrito de Deus uma unidade especial (donde ter\u00e1 vindo a ideia de \u00abtrindade-unidade\u00bb). <\/p>\n<p>Uma vez que n\u00e3o aparece no Novo Testamento, o conceito de \u00abSant\u00edssima Trindade\u00bb pode ser sobretudo considerado como a express\u00e3o menos incorrecta de harmonizar a nossa experi\u00eancia dos v\u00e1rios \u201cnomes de Deus\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso dificultar o entendimento entre as principais religi\u00f5es. A nossa f\u00e9 confessa \u201csimplesmente\u201d o Deus \u00fanico, como os judeus e os mu\u00e7ulmanos. E Jesus revelou como a vida s\u00f3 revela todos os seus sabores se a vivemos com Deus. <\/p>\n<p>Por\u00e9m, de modo algum se pode julgar negativamente este desejo de saber sempre mais, e de se aproximar da realidade divina, n\u00e3o s\u00f3 pelo cora\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m pela intelig\u00eancia. Todo este esfor\u00e7o enriquece a nossa experi\u00eancia religiosa. <\/p>\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas do pensamento humano lembram a hist\u00f3ria tradicional daquele menino na praia, procurando, com a sua conchinha, passar as \u00e1guas do mar para a cova que escavara na areia. Enquanto a humanidade for como este menino, jamais deixar\u00e1 de sonhar com alcan\u00e7ar o imposs\u00edvel \u2013 mas por isso descobre as mais criativas e originais maneiras de viver de rosto virado para esse imposs\u00edvel, captando assim a mais \u00abecol\u00f3gica\u00bb energia para os projectos mais grandiosos. <\/p>\n<p>E enquanto uns brincam com as conchinhas, outros preferem fazer-se ao mar (mesmo se com o cuidado de n\u00e3o perder p\u00e9). Se o mar n\u00e3o fosse imenso, n\u00e3o se sentiriam her\u00f3is. E na praia, j\u00e1 todos juntos, vivem do sorriso dos seus sonhos, que pela vida fora os levar\u00e3o mar adentro. Mas sempre como crian\u00e7as abra\u00e7adas pela imensid\u00e3o. <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-1695","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1695","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1695"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1695\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}