{"id":16952,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16952"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"bem-comum-e-etica-na-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/bem-comum-e-etica-na-politica\/","title":{"rendered":"Bem comum e \u00e9tica na pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p>Ouvimos h\u00e1 dias um recente candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica dizer que Portugal vive \u201cum momento de crise, de desorienta\u00e7\u00e3o e de indiferen\u00e7a.\u201d. Falou da \u201ccrescente aus\u00eancia de valores c\u00edvicos\u201d e disse que \u201co pessimismo\u201d \u00e9 o pior dos problemas que nos afectam.<\/p>\n<p>Um retrato assim sombrio, embora n\u00e3o constitua novidade, n\u00e3o d\u00e1 lugar \u00e0 tranquilidade. Embora com os exageros pr\u00f3prios, recomendados pelo acontecimento \u2014 era o an\u00fancio da candidatura a Bel\u00e9m \u2014 o estado do pa\u00eds justifica alguns coment\u00e1rios<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico, com alguns matizes, deve ser aprofundado e levar-nos \u00e0s causas da situa\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o se cair na tenta\u00e7\u00e3o de pensar que tudo se resolve  providencialmente, ou com a chegada de um qualquer cidad\u00e3o, que se julga ele ou que outros julgam, ser o salvador da p\u00e1tria. Ir por esse caminho, ser\u00e1 regressar a um sebastianismo saloio, com nevoeiro t\u00e3o denso que logo oculta a realidade e desvirtua o sucesso do her\u00f3i esperado.<\/p>\n<p>O momento, n\u00e3o sendo ainda dram\u00e1tico, \u00e9 preocupante. Como n\u00e3o h\u00e1 efeitos sem causas que os provoquem, imp\u00f5e-se um reflex\u00e3o, s\u00e9ria, objectiva e serena, para que seja honesta, sobre o que est\u00e1 acontecendo neste pa\u00eds que o levou, perigosamente, a um vazio de esperan\u00e7a e de vontade de reagir. H\u00e1 os que dizem que somos assim e n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer. Tais opini\u00f5es nem resolvem, nem confortam. Mas, tamb\u00e9m, nada h\u00e1 a esperar de festivais de elogios, sonhos esfusiantes, punhados de areia aos olhos. <\/p>\n<p>Afinal, o que se passa ? A partir de cima, parece que o bem comum deixou de ser projecto de todos e a favor de todos, dando lugar \u00e0 conquista e defesa de prest\u00edgios pessoais e partid\u00e1rios; as leis fazem-se e interpretam-se consoante interesses e  ideologias e, do mesmo s\u00edtio e do gabinete ao lado, saem orienta\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias; para cumprir promessas eleitorais que, honestamente, n\u00e3o se podiam nem deviam fazer, mudam-se leis, fazem-se acordos duvidosos, queimam-se pessoas, diz-se e logo se desdiz; h\u00e1 \u00f3rg\u00e3os da comunica\u00e7\u00e3o social control\u00e1veis a promover pessoas, calar verdades, servir interesses partid\u00e1rios e pessoais; a corrup\u00e7\u00e3o aumenta, como erva daninha; p\u00f5em-se amigos em est\u00e1tuas de p\u00e9 alto e apeiam-se cidad\u00e3os de estatura e m\u00e9rito; interrompem-se projectos v\u00e1lidos que n\u00e3o foram de sua iniciativa e geram-se divis\u00f5es que ir\u00e3o durar d\u00e9cadas e paralisar a necess\u00e1ria colabora\u00e7\u00e3o; fomenta-se o assalto das ideologias subversivas, a pretexto de liberdade e troca de favores; promulgam-se leis \u00e0 revelia da realidade do pa\u00eds, das pessoas e dos seus direitos; uns s\u00e3o ouvidos sem falar e outros esquecidos, mesmo que gritem;  o pa\u00eds p\u00f5e-se de c\u00f3coras, ante vacuidades vistosas de outras terras, quando a\u00ed os respons\u00e1veis j\u00e1 sofrem dores com o caos por elas gerado\u2026<\/p>\n<p>O que se pode esperar assim das pessoas, riqueza de um pa\u00eds, sen\u00e3o desinteresse, desorienta\u00e7\u00e3o, pessimismo, desconfian\u00e7a? Tudo terreno f\u00e1cil para o individualismo, os jogos de interesses, a cr\u00edtica destrutiva, a falta de esperan\u00e7a e de empenhamento? O povo honesto v\u00ea, a partir de cima, destru\u00eddos os seus valores, como o amor ao trabalho, a honradez nos compromissos, o respeito pelos bens alheios, a solidariedade m\u00fatua, a verdade e a fidelidade nas rela\u00e7\u00f5es pessoais; os seus esfor\u00e7os n\u00e3o reconhecidos, seus sonhos e projectos ridicularizados. O povo s\u00f3 serve para votar e pagar impostos? <\/p>\n<p>Dar coragem \u00e0s pessoas \u00e9 ir ao encontro das causas que tudo destroem; \u00e9 uni-las e n\u00e3o as dividir por crit\u00e9rios discut\u00edveis de direitas e esquerdas; \u00e9 n\u00e3o as iludir com promessas; \u00e9 mostrar-lhes que o pa\u00eds est\u00e1 acima dos compadrios pol\u00edticos; \u00e9 dizer aos jovens, com factos e testemunhos de honestidade e de verdade, que Portugal tem futuro; \u00e9 procurar pol\u00edticos que vejam o bem comum como \u00fanico projecto capaz de aglutinar vontades e esfor\u00e7os; \u00e9 promover a uni\u00e3o e a colabora\u00e7\u00e3o, respeitar e acolher as diferen\u00e7as leg\u00edtimas.; \u00e9 n\u00e3o apagar a verdade hist\u00f3rica e aprender com os erros cometidos. Afinal, \u00e9 tomar a s\u00e9rio a verdadeira democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouvimos h\u00e1 dias um recente candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica dizer que Portugal vive \u201cum momento de crise, de desorienta\u00e7\u00e3o e de indiferen\u00e7a.\u201d. Falou da \u201ccrescente aus\u00eancia de valores c\u00edvicos\u201d e disse que \u201co pessimismo\u201d \u00e9 o pior dos problemas que nos afectam. 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