{"id":16981,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=16981"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"elogio-da-leitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/elogio-da-leitura\/","title":{"rendered":"Elogio da Leitura"},"content":{"rendered":"<p>23 de Abril, Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor <!--more--> Parece ser a sina do povo portugu\u00eas, sempre na cauda dos relat\u00f3rios que retratam a condi\u00e7\u00e3o de literacia dos povos. Tal n\u00e3o seria grave se n\u00e3o estivesse em causa algo t\u00e3o importante como o nosso acesso ao mundo.<\/p>\n<p>Acedemos ao mundo pela l\u00edngua, pela leitura que dos factos, dos acontecimentos, fazemos. Alguns dizem, mesmo, que \u00e9 a capacidade de ler, de interpretar o mundo, que nos diferencia dos demais animais. \u00c9 uma quest\u00e3o de vermos que, quando estamos no \u00edntimo do nosso pensamento, tudo se movimenta nesse interior com recurso a palavras, mais do que por imagens. Mas, ao que parece, insistimos em dar o privil\u00e9gio \u00e0 imagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra.<\/p>\n<p>Muito curioso \u00e9 comparar isso com a experi\u00eancia mais profunda da vida que o homem, desde tempos antigos, vem fazendo e que contraria esta nossa insist\u00eancia em n\u00e3o ler, em n\u00e3o ler o mundo. O mundo b\u00edblico, por exemplo, \u00e9 todo ele feito em torno do valor da palavra que, nesse contexto, se identificava com a pr\u00f3pria ac\u00e7\u00e3o. Para um Judeu, dar a palavra \u00e9 realizar. Por isso \u00e9 que Deus actua no mundo, para o homem b\u00edblico, por meio da Sua Palavra, do Verbo.<\/p>\n<p>Mas n\u00f3s, homens do tempo da imagem, que nos escudamos no lugar comum de que a imagem vale por mil palavras, esquecemos que, com isto, o que queremos dizer \u00e9 que s\u00f3 com a palavra \u00e9 que nos entendemos sobre o que a imagem quer dizer, pois ela \u00e9 t\u00e3o amb\u00edgua que s\u00f3 com a ajuda de muitas (mil) palavras \u00e9 que a entendemos.<\/p>\n<p>Dizem, ainda, alguns s\u00e1bios penetrantes do nosso tempo que, se o homem insistir em bastar-se com ver o mundo e n\u00e3o o ler, n\u00e3o se deleitar a interpret\u00e1-lo, ele, homem, estar\u00e1 em perigo. Tornar-se-\u00e1 v\u00edtima da pior das ditaduras: a ditadura das opini\u00f5es que tudo t\u00eam a dizer sobre tudo sem nada saberem do que falam. E reparemos que sempre foi essa a estrat\u00e9gia de todas as dita-duras: impedir a leitura. O homem ignorante \u00e9 mais f\u00e1cil de manipular.<\/p>\n<p>O homem que l\u00ea, esse prolonga, em si, a densidade da vida. Inebria-se com o que de melhor a vida lhe reserva. No grande livro da vida, o homem descortina as letras, as palavras de uma narrativa a que s\u00f3 a morte p\u00f5e retic\u00eancias. Como dizia Daniel Pennac, a cujo interior me foi facultado acesso pelo seu livro \u00abcomo um romance\u00bb, e cuja descoberta devo a um amigo a quem presto a homenagem pelo trabalho \u00edmpar pela leitura e pelo livro (Manuel Aquino), \u00abo tempo de ler \u00e9 como o tempo de amar: prolonga o tempo de ser.\u00bb \u00c9 hora de ler a vida: combater o tempo de ter com o tempo de ser.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>23 de Abril, Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-16981","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16981","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16981"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16981\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16981"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16981"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16981"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}