{"id":17057,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17057"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"a-igreja-foi-a-maior-proteccao-fisica-perante-os-abusos-contra-os-direitos-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-igreja-foi-a-maior-proteccao-fisica-perante-os-abusos-contra-os-direitos-humanos\/","title":{"rendered":"\u201cA Igreja foi a maior protec\u00e7\u00e3o f\u00edsica perante os abusos contra os direitos humanos\u201d"},"content":{"rendered":"<p>\u00c2ngelo Ferreira, depois de tr\u00eas anos em Timor <!--more--> As negocia\u00e7\u00f5es entre populares liderados pela Igreja e o governo de Timor-Leste est\u00e3o num impasse. As \u00faltimas not\u00edcias davam conta de um ultimato das autoridades policiais aos manifestantes. Deviam abandonar a zona das manifesta\u00e7\u00f5es at\u00e9 ontem \u00e0s 17h (in\u00edcio da manh\u00e3 de ontem em Portugal).<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es populares come\u00e7aram no dia 19 de Abril, primeiro como reac\u00e7\u00e3o \u00e0 medida governamental que pretendia tornar facultativas as aulas de Religi\u00e3o e Moral, depois como contesta\u00e7\u00e3o alargada ao governo liderado por Mari Alkatiri. Os populares, com autoridades eclesi\u00e1sticas na linha da frente, pedem a demiss\u00e3o do governo. Jos\u00e9 Ramos-Horta, chefe da diplomacia timorense, classificou as manifesta\u00e7\u00f5es como uma \u201cgrande mistura de religi\u00e3o e pol\u00edtica, de exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de s\u00edmbolos sagrados com cartazes pol\u00edticos, de ora\u00e7\u00f5es fervorosas e insultos\u201d e aconselhou a Igreja \u201ca fazer uso da sua experi\u00eancia e sabedoria seculares e esperar por novas elei\u00e7\u00f5es\u201d, marcadas para 2007.<\/p>\n<p>O Correio do Vouga fez tr\u00eas perguntas a \u00c2ngelo Ferreira, antigo presidente da Associa\u00e7\u00e3o Acad\u00e9mica da Universidade de Aveiro e promotor da \u201ccausa timorense\u201d nos anos 90 (com Miguel Oliveira e o apoio da Universidade e do CUFC, promoveram-se campanhas de fundos para Timor e D. Ximenes Belo, ent\u00e3o bispo de Timor, veio a Aveiro falar com a comunidade acad\u00e9mica). \u00c2ngelo Ferreira esteve em Timor tr\u00eas anos como representante da Funda\u00e7\u00e3o das Universidades Portuguesas, onde coordenou um programa de apoio \u00e0 Universidade Nacional de Timor-Leste.<\/p>\n<p>Aos nossos olhos, habituados \u00e0 separa\u00e7\u00e3o Igreja\/Estado e \u00e0 liberdade religiosa, o car\u00e1cter facultativo das aulas de Religi\u00e3o e Moral parece algo de salutar. N\u00e3o pensa assim a sociedade timorense. Qual a influ\u00eancia real da Igreja Cat\u00f3lica na vida e sociedade timorense?<\/p>\n<p>A influ\u00eancia da Igreja Cat\u00f3lica na sociedade timorense \u00e9, de facto, muito grande, por diversos motivos. N\u00e3o podemos esquecer que a Igreja foi um baluarte da resist\u00eancia, com ac\u00e7\u00f5es muito concretas (que levariam muito tempo a analisar), quer ao n\u00edvel de uma resist\u00eancia cultural (promovendo uma identidade que passava, inevitavelmente, por uma liga\u00e7\u00e3o ao Ocidente atrav\u00e9s da pr\u00f3pria identifica\u00e7\u00e3o religiosa, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s de uma liga\u00e7\u00e3o sentimental com Portugal, incentivando o uso da l\u00edngua portuguesa como instrumento de resist\u00eancia, especialmente na forma\u00e7\u00e3o de algumas elites, onde se incutia uma ideia de na\u00e7\u00e3o timorense, alimentando nos jovens os ideais de 75 \u2013 as melhores escolas eram da Igreja; muitos dos elementos do Governo e do Parlamento obtiveram forma\u00e7\u00e3o em escolas da Igreja como o Externato S. Jos\u00e9, com ensino em l\u00edngua portuguesa at\u00e9 finais dos anos 80!), quer ao n\u00edvel de ac\u00e7\u00f5es concretas de apoio aos guerrilheiros e \u00e0 resist\u00eancia clandestina. Foi tamb\u00e9m a Igreja a maior protec\u00e7\u00e3o f\u00edsica perante os abusos contra os direitos humanos ali perpetrados pelo regime indon\u00e9sio. Al\u00e9m disso, parece haver nos timorenses uma religiosidade ancestral, uma espiritualidade muito pr\u00f3pria, que encontrou na Igreja Cat\u00f3lica respostas que fizeram com que ela se soubesse firmar t\u00e3o solidamente.<\/p>\n<p>A contesta\u00e7\u00e3o ao governo come\u00e7ou a pretexto da legisla\u00e7\u00e3o que pretendia tornar facultativas as aulas de Religi\u00e3o e Moral mas agora tem como motivo o descontentamento geral da popula\u00e7\u00e3o. Como vivem os timorenses?<\/p>\n<p>Em regra, vivem muito mal, com grav\u00edssimas dificuldades econ\u00f3micas (julgo que em m\u00e9dia se vive com 50 c\u00eantimos por dia, cerca de 85 escudos), com ainda muitas car\u00eancias ao n\u00edvel das necessidades mais b\u00e1sicas, apesar, estou convencido, dos maiores esfor\u00e7os de todos, do Governo e do Presidente da Rep\u00fablica. O problema \u00e9 que os recursos s\u00e3o escassos e h\u00e1 toda uma hist\u00f3ria de atraso que n\u00e3o se apaga facilmente. Por isso, Timor continua a precisar da ajuda internacional, especialmente de Portugal. Espero que aquele povo n\u00e3o seja esquecido, pois j\u00e1 sofreu o suficiente e s\u00e3o, como se diz por c\u00e1, gente muito boa e que se considera da nossa fam\u00edlia. Independentemente dos sentimentalismos, Portugal n\u00e3o pode esquecer que tem ali responsabilidades s\u00e9rias e uma oportunidade hist\u00f3rica, tamb\u00e9m, na constru\u00e7\u00e3o da sua identidade no Mundo.<\/p>\n<p>Parece-lhe que o entendimento vai ser poss\u00edvel em breve?<\/p>\n<p>Acredito que sim, se houver aten\u00e7\u00e3o ao essencial, agilidade e modera\u00e7\u00e3o, aliviando o peso do acess\u00f3rio. Uma solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o apague o direito a uma forma\u00e7\u00e3o moral e religiosa no Ensino de acordo com a express\u00e3o da vontade da maioria do povo, que \u00e9 quem deve mandar numa democracia, mas que garanta a liberdade de op\u00e7\u00e3o religiosa de cada indiv\u00edduo e salvaguarde os direitos das minorias. Tudo depende do modelo adoptado e, tendo em conta a evidente maioria de cat\u00f3licos (praticantes), poder-se-ia ir para um modelo em que as aulas continuassem a constar dos \u201ccurricula\u201d, mas abrindo a possibilidade de recusa por raz\u00f5es \u00f3bvias de op\u00e7\u00e3o diferenciada. N\u00e3o estando na posse de todos os elementos e, especialmente, daquilo que \u00e9 proposto pelo Governo, torna-se dif\u00edcil ter uma opini\u00e3o esclarecida sobre as op\u00e7\u00f5es de entendimento a colocar na mesa de eventual negocia\u00e7\u00e3o. Timor \u00e9 um pa\u00eds em transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social e isso obriga, na minha humilde forma de ver, a opini\u00f5es e medidas moderadas e cautelosas, assentes na realidade timorense. Oxal\u00e1 sejam poss\u00edveis os passos, de parte a parte, que se exigem para que exista e se consolide a paz, t\u00e3o necess\u00e1ria ao desenvolvimento por todos almejado. N\u00e3o me parece haver outro caminho, e, estou em crer, imperar\u00e1 certamente uma solu\u00e7\u00e3o de compromisso que garanta a continuidade do sucesso que o processo de edifica\u00e7\u00e3o de um Estado Independente e Democr\u00e1tico estava a ser.<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c2ngelo Ferreira, depois de tr\u00eas anos em Timor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-17057","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-igreja"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17057","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17057"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17057\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17057"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17057"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17057"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}