{"id":17092,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17092"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"pragmatismo-e-moralismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/pragmatismo-e-moralismo\/","title":{"rendered":"Pragmatismo e moralismo"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 problemas humanos e sociais, de solu\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, que todos os dias incomodam. A toxicodepend\u00eancia, o alcoolismo, a sida, as muitas e variadas formas de mis\u00e9ria, o desemprego, a inseguran\u00e7a, a loucura na estrada, a viol\u00eancia em todas as dimens\u00f5es, a situa\u00e7\u00e3o de muitos idosos. Estes e muitos outros, os problemas de n\u00f3s todos.<\/p>\n<p>A procura, a qualquer pre\u00e7o, de resultados imediatos, mostra depressa que \u00e9 cada vez menos v\u00e1lida e consistente a sua solu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 praxis acertada, quando vazia de conte\u00fados e raz\u00f5es que norteiam um projecto s\u00e9rio, a prosseguir com objectividade, no tempo e com tempo. Mas, entre n\u00f3s, a tenta\u00e7\u00e3o de tudo resolver depressa \u00e9 real. <\/p>\n<p>J\u00e1 se vai dizendo que o que \u00e9 preciso \u00e9 pragmatismo. O moralismo n\u00e3o leva a nada. Por\u00e9m, os verdadeiros pragm\u00e1ticos n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o dispensam as ideias e os princ\u00edpios \u00e9ticos como sentem necessidade de reflectir sobre eles e o seu alcance, ao avaliar e ao tentar a solu\u00e7\u00e3o dos problemas. Os primeiros fizeram do seu m\u00e9todo filos\u00f3fico o \u00fanico crit\u00e9rio para julgar a verdade de qualquer ci\u00eancia e doutrina. Todo o pensamento, assim diziam, existe para a ac\u00e7\u00e3o e o valor das ideias \u00e9 apreciado consoante a influ\u00eancia nas atitudes e comportamentos e o modo como os orientam e controlam. <\/p>\n<p>O que se prop\u00f5e, se \u00e9 perif\u00e9rico \u00e0s pessoas, porque n\u00e3o as respeita na sua verdade, capacidade e ritmo, ainda que com algum resultado imediato, n\u00e3o passa de ilus\u00f3rio e passageiro. Os pragm\u00e1ticos s\u00e9rios procuram traduzir, em pr\u00e1tica exequ\u00edvel, conte\u00fados a promover e valores a preservar, n\u00e3o se vergando ao \u00eaxito f\u00e1cil e aos louvores.   <\/p>\n<p>Uma ac\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel n\u00e3o pode ser fruto de voluntarismo, nem pode ser valorada \u00e0 base de uma efici\u00eancia r\u00e1pida, nem dos apoios da comunica\u00e7\u00e3o social de turno.<\/p>\n<p>Hoje vive-se e proclama-se o prop\u00f3sito de ser pragm\u00e1tico em tudo, porque n\u00e3o se pode perder tempo, nem deixar que os problemas apodre\u00e7am. \u00c9 esta uma tend\u00eancia muito forte dos pol\u00edticos fren\u00e9ticos, encaixados nos poucos anos de poder que t\u00eam \u00e0 sua frente. N\u00e3o se pode perder tempo a estudar nem a avaliar o que j\u00e1 se fez. H\u00e1 que fazer de novo, mudar os nomes, multiplicar os projectos, esquecer as pessoas. Doen\u00e7a cr\u00f3nica.<\/p>\n<p>Na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade, na economia, nos problemas mais prementes, h\u00e1 que saber distinguir o que tem de se resolver j\u00e1 e que ver as causas que produzem e multiplicam os males. Os problemas s\u00e9rios n\u00e3o se compadecem com solu\u00e7\u00f5es de feira, nem com mezinhas que d\u00e3o para todos os males. O que por a\u00ed se l\u00ea e se ouve, mesmo por parte de pessoas e servi\u00e7os oficiais, \u00e9 confrangedor. A pol\u00edtica muda, mas os homens s\u00e3o iguais. <\/p>\n<p>Matar a fome de muitos anos, nem cura o faminto, nem gera riqueza. <\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de atitudes \u00e9 um processo lento, porque \u00e9 um processo educativo, que prop\u00f5e valores e estimula novos comportamentos. Se n\u00e3o se enfrenta a realidade, apenas se adiam e escondem os problemas graves, que est\u00e3o na pra\u00e7a p\u00fablica. <\/p>\n<p>\u201cUsa o preservativo e acabar\u00e1 a sida; despenaliza o aborto e terminam os abortos clandestinos; multiplica as salas de chuto, d\u00e1 seringas novas, logo dir\u00e1s adeus \u00e0 toxicodepend\u00eancia; promove cursos de forma\u00e7\u00e3o acelerada e n\u00e3o haver\u00e1 desemprego; multiplica e agrava as coimas e ter\u00e1s a estrada sem acidentes; aumenta as pens\u00f5es de velhice e d\u00e1 passeios aos idosos e sentir-se-\u00e3o amados; tira as crian\u00e7as e os jovens das institui\u00e7\u00f5es, d\u00e1-os \u00e0s fam\u00edlias e logo eles ser\u00e3o felizes; canoniza a homossexualidade e ser\u00e1s moderno; acaba com o ensino privado e o estatal ter\u00e1 mais qualidade; esquece o que disseste ontem e nega se for caso\u2026\u201d <\/p>\n<p>C\u00e1 est\u00e1 o pragmatismo pol\u00edtico, sem \u00e9tica e sem ideias. Em nome da modernidade. Para bem da p\u00e1tria. Para subir na tabela dos pa\u00edses evolu\u00eddos. Para ganhar votos.   <\/p>\n<p>Muitos h\u00e1 que n\u00e3o afinam por este diapas\u00e3o. Aceitam o inc\u00f3modo da verdade, respeitam e promovem os direitos das pessoas, s\u00e3o pragm\u00e1ticos com ideias. Felizmente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 problemas humanos e sociais, de solu\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, que todos os dias incomodam. A toxicodepend\u00eancia, o alcoolismo, a sida, as muitas e variadas formas de mis\u00e9ria, o desemprego, a inseguran\u00e7a, a loucura na estrada, a viol\u00eancia em todas as dimens\u00f5es, a situa\u00e7\u00e3o de muitos idosos. Estes e muitos outros, os problemas de n\u00f3s todos. 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