{"id":17221,"date":"2009-07-08T14:56:00","date_gmt":"2009-07-08T14:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17221"},"modified":"2009-07-08T14:56:00","modified_gmt":"2009-07-08T14:56:00","slug":"uma-vida-que-deixou-marcas-e-continua-a-ser-sinal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-vida-que-deixou-marcas-e-continua-a-ser-sinal\/","title":{"rendered":"Uma vida que deixou marcas e continua a ser sinal"},"content":{"rendered":"<p>Foi em 1957. J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o muitos anos. Um tempo de trabalho pastoral, em Fran\u00e7a, durante o m\u00eas de Agosto, para que o p\u00e1roco de uma pequena cidade pudesse ter uns dias de f\u00e9rias, deu-me ocasi\u00e3o para ir em peregrina\u00e7\u00e3o a Ars. Uma aldeia pequena e pobre, cuja hist\u00f3ria \u00e9 de um p\u00e1roco humilde e santo. <\/p>\n<p>Respirei ali a presen\u00e7a e a ac\u00e7\u00e3o de um padre, simples e discreto, grande, como s\u00e3o sempre os santos. O seu rasto, que nunca se apagou, cento e cinquenta anos depois, ilumina agora mais. Entrou na hist\u00f3ria da Igreja como padroeiro dos p\u00e1rocos, t\u00edtulo que n\u00e3o \u00e9 de somenos. Agora, por decis\u00e3o do Papa, o Ano Sacerdotal tem-no como grande refer\u00eancia a atender.<\/p>\n<p>Templo, casa paroquial, tudo t\u00e3o pobre, t\u00e3o pequeno e t\u00e3o humilde! Dizem-me, e assim leio, que, hoje, Ars j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a pequena aldeia escondida na montanha. Recebe muita gente que vai no encal\u00e7o do seu famoso \u201ccura\u201d, e disp\u00f5e de meios adequados para a acolher e albergar. Posso testemunhar agora que ent\u00e3o n\u00e3o era assim. <\/p>\n<p>Para um padre novo de vinte e sete anos, destinado a formar padres ao regressar a Portugal, foi muito importante palpar em Ars a pobreza de tudo, para perceber melhor a riqueza de uma vida que se gasta a servir os outros, por amor, para perceber que os obst\u00e1culos a andar para a frente est\u00e3o dentro de n\u00f3s. N\u00e3o fora nem nos outros.<\/p>\n<p>Tinha lido, com entusiasmo incontido, a biografia de Jo\u00e3o Maria Baptista Vianney, assim se chamava o Cura de Ars. A visita \u00e0 que fora a sua par\u00f3quia, teve, por isso, um sabor especial. Uma peregrina\u00e7\u00e3o discreta, que deixou marcas. Andei pelas mesmas ruas, rezei na igreja paroquial, onde ele rezou, celebrou e foi confessor, horas sem conta, entrei na casa, onde viveu, guardada como no seu tempo e embelezada apenas com a baixela da maior pobreza, ouvi gente que trazia no cora\u00e7\u00e3o o padre que alimentou a f\u00e9 de seus av\u00f3s e trouxera a Ars gente de toda a Fran\u00e7a \u00e0 procura de perd\u00e3o e de paz.<\/p>\n<p>S\u00e3o assim os santos que nem sabem que o s\u00e3o, porque n\u00e3o perdem tempo a olhar para si. Todo o tempo \u00e9 pouco para contemplar, serenamente, o rosto de Deus e para escutar, com o cora\u00e7\u00e3o, apelos vindos de todo o lado. E, mais ainda, os apelos de muitos para quem o padre antes era indiferente, mas que, depois, j\u00e1 n\u00e3o dispens\u00e1vel, amigo e s\u00e1bio conselheiro, com o seu irresist\u00edvel fasc\u00ednio e o seu jeito de acolher, compreender e amar.<\/p>\n<p>Volto de novo a ler e a saborear, com calma e tempo, \u201cO Cura de Ars\u201d de Francis Trochu, uma obra premiada pela Academia Francesa. Releio com novo gosto, ao mesmo tempo que recordo os p\u00e1rocos que foram passando na minha vida, ao longo dos anos, e foram deixando, tamb\u00e9m eles, sinais de zelo generoso e de santidade a toda a prova. Cabouqueiros silenciosos de muitas vidas crist\u00e3s, her\u00f3icas e consistentes, moldadas pelo Evangelho por eles testemunhado, e capacitadas, assim, para traduzirem a for\u00e7a e a riqueza da sua f\u00e9, muitas vezes no meio de dificuldades e incompreens\u00f5es.<\/p>\n<p>No dia 4 de Agosto celebra-se a festa lit\u00fargica do santo Cura de Ars. Jamais me esque\u00e7o nesse dia, e noutros se tal se proporciona, de indagar dos crist\u00e3os presentes, se alguma vez se lembraram de agradecer a Deus os padres que passaram e est\u00e3o passando nas suas vidas e de lhes dar lugar na sua ora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o faltam surpresas. E, caso mais raro, gestos de gratid\u00e3o e f\u00e9, para recordar sempre, como o daquela velhinha que me dizia que rezava todos os dias pelos padres que, em nome de Deus, lhe absolveram os seus pecados durante a vida.<\/p>\n<p>O padre \u00e9, normalmente, mais criticado do que amado. Sobre ele recaem mais exig\u00eancias que gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>O Ano Sacerdotal deve ajudar os crist\u00e3os a serem mais fraternos com os seus padres. O padre n\u00e3o existe para si. Guarda consci\u00eancia que sempre cair\u00e3o sobre ele olhos de exig\u00eancia. Mas olhos que o estimulem. A sua vida e a sua hist\u00f3ria interfere na vida e na hist\u00f3ria de muitos jovens e adultos, que no padre amigo encontraram um rumo que os  dignifica e os torna \u00fateis aos outros. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi em 1957. J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o muitos anos. Um tempo de trabalho pastoral, em Fran\u00e7a, durante o m\u00eas de Agosto, para que o p\u00e1roco de uma pequena cidade pudesse ter uns dias de f\u00e9rias, deu-me ocasi\u00e3o para ir em peregrina\u00e7\u00e3o a Ars. 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