{"id":17244,"date":"2009-07-15T12:23:00","date_gmt":"2009-07-15T12:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17244"},"modified":"2009-07-15T12:23:00","modified_gmt":"2009-07-15T12:23:00","slug":"idolos-super-herois-e-pessoas-normais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/idolos-super-herois-e-pessoas-normais\/","title":{"rendered":"\u00cddolos, super-her\u00f3is e pessoas normais"},"content":{"rendered":"<p>Cristiano Reinaldo e Michael Jackson ocuparam p\u00e1ginas inteiras de jornais e tempos de antena sem conta, nas r\u00e1dios e televis\u00f5es. Foram ocasi\u00e3o de regozijo estrondoso e de l\u00e1grimas capazes de inundar um continente. Cansaram outros at\u00e9 \u00e0 n\u00e1usea.<\/p>\n<p>O primeiro, conhecido pela arte de jogar futebol e pelas loucuras amorosas, custou 94 milh\u00f5es de euros ao clube de futebol ou algu\u00e9m que espera lucros. O esc\u00e2ndalo deste neg\u00f3cio continua nos jornais. Revistas de opini\u00e3o teorizam e falam de imoralidade e de excesso que ofende. O clube que o comprou tem d\u00edvidas de 500 milh\u00f5es! Mas Cristiano, \u00eddolo de multid\u00f5es, diz sem pejo dele pr\u00f3prio que vale mais do que o clube pagou\u2026<\/p>\n<p>O segundo, um rei da m\u00fasica pop, uma hist\u00f3ria sinuosa e uma morte inesperada e envolta em mist\u00e9rio, astuciosamente aproveitada para p\u00f4r as vendas do seus discos no topo, perpetuar a sua mem\u00f3ria e fazer contratos com a televis\u00e3o de concertos j\u00e1 requentados, repetidos agora at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o. T\u00e3o rico ele era, como se dizia, revelou-se agora que as suas d\u00edvidas s\u00e3o de centenas de milh\u00f5es, e n\u00e3o falta quem pergunte, dada a situa\u00e7\u00e3o da cidade de Los Angeles com um d\u00e9fice or\u00e7amental de 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares, quem ir\u00e1 pagar as despesas de um funeral fara\u00f3nico.<\/p>\n<p>As multid\u00f5es entraram em histeria e os cr\u00edticos n\u00e3o param de opinar, em todos os tons, sobre estes \u00eddolos, tornados super-her\u00f3is, num mundo que perdeu o rumo do essencial.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas atr\u00e1s, definia-se o homem como animal racional. Uma defini\u00e7\u00e3o seca que dizia muito para o diferenciar dos outros animais, mas se ficava por impl\u00edcitos que, em linguagem comum, o deixavam empobrecido de muitos aspectos essenciais para a sua compreens\u00e3o. Davam-lhe a propriedade de raciocinar, que muitos j\u00e1 usam pouco.<\/p>\n<p>Hoje, pelo menos, em defini\u00e7\u00e3o mais realista e verdadeira, pode ir-se mais longe. <\/p>\n<p>O homem \u00e9 um ser-com-os outros, um ser aberto ao transcendente, um ser que leva consigo apelos de liberdade interior, de modo a que, se ele quiser, nada o pode limitar interiormente. \u00c9 cidad\u00e3o de um mundo globalizado e sem fronteiras, protagonista da hist\u00f3ria, n\u00e3o da historieta, t\u00e3o rico por sua natureza, que \u00e9 um ser  irrepet\u00edvel e \u00fanico. <\/p>\n<p>Acompanha-o um mist\u00e9rio em que nem ele pr\u00f3prio penetra por completo, mas se vai desvendando, a pouco e pouco, ao longo dos caminhos, direitos ou tortuosos, da sua exist\u00eancia. Um mist\u00e9rio que o ultrapassa, para al\u00e9m da sua vontade e da qualidade e abund\u00e2ncia dos seus sonhos e projectos. Capaz do melhor e do pior, de defender a sua liberdade at\u00e9 \u00e0 morte ou de se deixar agri-lhoar por coisas passageiras e ef\u00e9meras. Capaz de ser \u00e1guia altaneira que rompe os c\u00e9us, ou vulgar ave de capoeira, de voos curtos e sem hist\u00f3ria, mesmo que dele se fa\u00e7a um \u00eddolo ou o transformem em super-homem.<\/p>\n<p>Sempre que a pessoa, homem ou mulher, se esquece da sua verdadeira grandeza, escraviza-se  a si mesmo, ou outros o fazem escravo, em proveito pr\u00f3prio. A grandeza est\u00e1 na normalidade do que se \u00e9, se assume e se vive, n\u00e3o num alarido alienante.<\/p>\n<p>A proposta educativa de modelos normais, t\u00e3o normais que emergem da mediocridade, ajudou muita gente a ser gente. Hoje, o sonho de ser um cristiano ronaldo, para ganhar muito dinheiro, ou um michael jackson, para enlouquecer multid\u00f5es, come\u00e7a na escola e, por isso mesmo, a escola, para muitos os interessa cada vez menos, os enfastia e a vomitam. O dom de cada um cultiva-se. N\u00e3o se vive de sonhos, de fantasias ou invejas. <\/p>\n<p>Ganhar muito e ser famoso, sem esfor\u00e7o e depressa, \u00e9 ideal de muita gente nova. Mas n\u00e3o \u00e9 este o projecto que lateja no mais \u00edntimo de cada pessoa. E esse \u00e9 o que conta.<\/p>\n<p>Estamos ante um problema cultural grave. S\u00f3 a educa\u00e7\u00e3o a s\u00e9rio o poder\u00e1 ir resolvendo. Criticou-se Ant\u00f3nio Guterres quando falou da \u201cpaix\u00e3o pela educa\u00e7\u00e3o\u201d. Os profetas incomodam. Mas a vida d\u00e1-lhes sempre raz\u00e3o. \u00c0s vezes, tarde demais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cristiano Reinaldo e Michael Jackson ocuparam p\u00e1ginas inteiras de jornais e tempos de antena sem conta, nas r\u00e1dios e televis\u00f5es. Foram ocasi\u00e3o de regozijo estrondoso e de l\u00e1grimas capazes de inundar um continente. Cansaram outros at\u00e9 \u00e0 n\u00e1usea. 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