{"id":17261,"date":"2009-07-15T11:56:00","date_gmt":"2009-07-15T11:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17261"},"modified":"2009-07-15T11:56:00","modified_gmt":"2009-07-15T11:56:00","slug":"o-papa-pio-xii-e-o-nazismo-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-papa-pio-xii-e-o-nazismo-ii\/","title":{"rendered":"O Papa Pio Xii e o Nazismo &#8211; II"},"content":{"rendered":"<p>Continua\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Verificada a morte de Pio XI, ocorrida em 10 de Fevereiro de 1939, procedeu-se \u00e0 escolha do sucessor, que seria o cardeal Eug\u00e9nio Maria Pacelli; eleito em 2 de Mar\u00e7o seguinte, ele adoptou o nome de Pio XII. Perante as press\u00f5es e as persegui\u00e7\u00f5es a que os judeus estavam a ser expostos, o novo pont\u00edfice convidou-os a acolherem-se no Vaticano e ofereceu-lhes ajuda para emigrarem; muitos aceitaram. Na sequ\u00eancia do seu antecessor, o novo papa tamb\u00e9m interveio persistentemente junto de embaixadores e c\u00f4nsules de outros pa\u00edses para concederem vistos em seu favor. Atendendo a este pedido, lembro aqui a benem\u00e9rita ac\u00e7\u00e3o do dr. Aristides de Sousa Mendes que, sendo c\u00f4nsul de Portugal em Bord\u00e9us de 1938 a 1940, se distinguiu no aux\u00edlio a foragidos e a refugiados da guerra e do \u00f3dio nazi. O pont\u00edfice, sentindo-se limitado em ac\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, iria fazendo o que lhe parecia ou o que podia atrav\u00e9s do sigilo da diplomacia, da influ\u00eancia do seu prest\u00edgio, da hospitalidade aos perseguidos, da ac\u00e7\u00e3o caritativa em favor das v\u00edtimas da guerra.<\/p>\n<p>Pio XII n\u00e3o desaproveitou o que estava ao seu alcance para impedir os confrontos b\u00e9licos, inclusive com tentativas diplom\u00e1ticas, com apelos aos Estados e com discursos p\u00fablicos; em Maio de 1939, dois meses ap\u00f3s a sua elei\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ou a ideia de uma confer\u00eancia internacional entre os Governos de Roma, Paris, Londres, Berlim e Vars\u00f3via \u2013 no que n\u00e3o seria ouvido. Quando, em 1 de Setembro de 1939, estalou a guerra com a invas\u00e3o da Pol\u00f3nia, o papa ainda diligenciou por evitar que a It\u00e1lia entrasse no conflito, de acordo com Franklin Roosevelt, presidente dos Estados Unidos da Am\u00e9rica do Norte; e, em 20 de Outubro, na sua primeira enc\u00edclica, \u201cSummi Pontificatus\u201d, condenou alguns erros capitais, como a nega\u00e7\u00e3o da igualdade do g\u00e9nero humano e da sua necess\u00e1ria solidariedade, fosse qual fosse o povo a que se pertencesse, e anatematizou ainda a eleva\u00e7\u00e3o do Estado ou da comunidade social, ocupando o lugar do pr\u00f3prio Criador, como fim \u00faltimo da vida humana e como \u00e1rbitro supremo da ordem jur\u00eddica e moral. Os esfor\u00e7os do sumo pont\u00edfice, considerado ent\u00e3o (mesmo pela imprensa livre) como um dos poucos baluartes da defesa da liberdade na Europa oprimida, iriam prosseguir durante os anos das hostilidades militares, tantas vezes correndo graves riscos. Pio XII era realista; n\u00e3o queria pagar com o sangue dos outros uma bela mas dura palavra que, no fundo, n\u00e3o lhe teria custado muito. \u00abQuando o papa gostaria de gritar alto e forte, infelizmente \u00e9 a espera e o sil\u00eancio que muitas vezes s\u00e3o impostos; quando gostaria de agir e ajudar claramente, \u00e9 a paci\u00eancia e a espera que se imp\u00f5em\u00bb &#8211; escreveu ele em 20 de Fevereiro de 1940.<\/p>\n<p>As desumanas crueldades executadas pelos nazis nos campos de concentra\u00e7\u00e3o apenas seriam claramente conhecidas ap\u00f3s o termo das opera\u00e7\u00f5es b\u00e9licas, quando os sobreviventes, ao serem libertados, puderam contar tudo o que viveram e sofreram e aquilo a que estavam sujeitos. O pr\u00f3prio projecto alem\u00e3o de exterm\u00ednio total dos judeus n\u00e3o era conhecido nem pelo Vaticano, nem pelas organiza\u00e7\u00f5es judaicas, nem pelos \u201cAliados\u201d ocidentais; o segredo \u00e9 \u00f3bvio em tempo de guerra. Ainda em 30 de Agosto de 1943, o secret\u00e1rio de Estado americano comunicava: &#8211; \u00abN\u00e3o h\u00e1 provas suficientes para justificar uma declara\u00e7\u00e3o a respeito das execu\u00e7\u00f5es em c\u00e2maras de g\u00e1s.\u00bb<\/p>\n<p>Apesar da falta de informa\u00e7\u00f5es fidedignas, Pio XII e os seus colaboradores fizeram cont\u00ednuos esfor\u00e7os para salvar as pessoas amea\u00e7adas de deporta\u00e7\u00e3o e para minorar as condi\u00e7\u00f5es dos campos, de que, apesar de tudo, iam surgindo suspeitas cada vez mais alarmantes. Outrossim, o aparente sil\u00eancio escondeu uma cont\u00ednua ac\u00e7\u00e3o discreta junto das nunciaturas, dos episcopados, das organiza\u00e7\u00f5es eclesiais e das autoridades civis para diminuir ou mesmo evitar as viol\u00eancias \u2013 o que se pode comprovar por documentos guardados nos arquivos. Como mero comprovativo da ac\u00e7\u00e3o do pont\u00edfice, sabe-se da sua interven\u00e7\u00e3o especial junto dos n\u00fancios, conforme aconteceu com o da Hungria, Mons. \u00c2ngelo Rotta, e com o da Bulg\u00e1ria, mons. \u00c2ngelo Roncalli (futuro Jo\u00e3o XXIII), que tiveram um papel decisivo em salvar a vida de alguns milhares de judeus. Tamb\u00e9m \u00e9 elucidativo o caso ocorrido no outono de 1941; o papa, numa audi\u00eancia a refugiados judeus, manifestou a sua estima pelo povo israelita, dizendo sofrer com a sorte dos prisioneiros, \u00abque t\u00eam a mesma dignidade de qualquer outro ser humano.\u00bb<\/p>\n<p>Todavia, as declara\u00e7\u00f5es e os protestos p\u00fablicos, se fossem feitos, n\u00e3o resultariam e at\u00e9 tornariam mais dif\u00edcil as gest\u00f5es secretas para salvar vidas e poderiam mesmo agravar a sorte das v\u00edtimas e multiplicar o seu n\u00famero, como aconteceu na Holanda ap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o formal sobre as deporta\u00e7\u00f5es de judeus; tal protesto foi corajosamente assinado pelos bispos cat\u00f3licos e pelos respons\u00e1veis de quase todas as Igrejas Protestantes, em telegrama enviado a Seyss-Inquart, comiss\u00e1rio local da Gestapo alem\u00e3. Ali\u00e1s, o cardeal-primaz da Holanda, Mons. Johannes de Jong, logo desde o come\u00e7o da ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 em 1940, reagira contra os crimes praticados pela pol\u00edcia germ\u00e2nica no seu pa\u00eds, dando directrizes que se leram publicamente nas igrejas, entre elas a proibi\u00e7\u00e3o de os cat\u00f3licos participarem em organiza\u00e7\u00f5es nazis. Estas medidas ajudaram o movimento clandestino da resist\u00eancia e estimularam a que muitos sacerdotes e leigos apoiassem os judeus.<\/p>\n<p>Numa primeira resposta, houve a garantia de que os judeus-crist\u00e3os n\u00e3o seriam perturbados. Por\u00e9m, como o seu sequestro continuava sem parar, as autoridades eclesi\u00e1sticas de v\u00e1rias Igrejas Crist\u00e3s entenderam n\u00e3o se calar e prepararam uma carta pastoral conjunta, cuja publica\u00e7\u00e3o foi vetada pelo comiss\u00e1rio do \u201cReich\u201d; o documento, sem qualquer refer\u00eancia \u00e0 situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica vigente, continha apenas um convite \u00e0 reflex\u00e3o pessoal perante os acontecimentos vividos. Os respons\u00e1veis das Igrejas Protestantes retrocederam, mas os bispos cat\u00f3licos ignoraram as suas ordens, fazendo saber ao ocupante que n\u00e3o tinha o direito de se intrometer nos assuntos da Igreja Cat\u00f3lica. A carta pastoral, em que se inclu\u00eda o dito telegrama, foi publicitada nas liturgias dominicais de 26 de Julho de 1942. Nela se lia, entre outras coisas: &#8211; \u00abQueridos fi\u00e9is, antes de mais, suscitemos em n\u00f3s mesmos um profundo sentimento de arrependimento e de humildade. Com efeito, n\u00e3o somos n\u00f3s tamb\u00e9m respons\u00e1veis pelas cat\u00e1strofes que nos afligem? Busc\u00e1mos sempre e acima de tudo o Reino de Deus e a sua justi\u00e7a? Pratic\u00e1mos sempre os nossos deveres de justi\u00e7a e de caridade para com o pr\u00f3ximo? Se reflectirmos seriamente, reconheceremos que todos estamos em falta&#8230; Supliquemos a Deus que se digne conceder depressa ao mundo uma paz justa. Que fortale\u00e7a o Povo de Israel, nestes dias t\u00e3o duramente provado, e o conduza \u00e0 verdadeira reden\u00e7\u00e3o de Cristo.\u00bb<\/p>\n<p>A reac\u00e7\u00e3o nazi \u00e0 palavra prof\u00e9tica da Igreja Cat\u00f3lica da Holanda n\u00e3o atrasou mais do que uma semana\u2026 e foi brutal. No dia 2 de Agosto, todos os judeus-cat\u00f3licos &#8211; cerca de trezentos, incluindo os que viviam em conventos &#8211; foram presos e logo for\u00e7adamente encaminhados para os campos de morte no Leste, nomeadamente Auschwitz, Birkenau e Breslau. Todos eles foram as v\u00edtimas inocentes da vingan\u00e7a e do \u00f3dio que os alem\u00e3es n\u00e3o puderam desferir sobre as autoridades eclesi\u00e1sticas. Foi nesta ocasi\u00e3o que o sumo pont\u00edfice decidiu imediatamente suspender a condena\u00e7\u00e3o p\u00fablica e formal do Nazismo alem\u00e3o e do Fascismo italiano, que ele pensava ler aos microfones da r\u00e1dio vaticana, tanto mais que soubera das desastrosas consequ\u00eancias, j\u00e1 programadas contra os cat\u00f3licos, no caso de ele n\u00e3o recuar.<\/p>\n<p>Continua<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continua\u00e7\u00e3o Verificada a morte de Pio XI, ocorrida em 10 de Fevereiro de 1939, procedeu-se \u00e0 escolha do sucessor, que seria o cardeal Eug\u00e9nio Maria Pacelli; eleito em 2 de Mar\u00e7o seguinte, ele adoptou o nome de Pio XII. 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