{"id":17351,"date":"2010-01-07T18:02:00","date_gmt":"2010-01-07T18:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17351"},"modified":"2010-01-07T18:02:00","modified_gmt":"2010-01-07T18:02:00","slug":"e-errado-entregar-criancas-a-familias-de-acolhimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/e-errado-entregar-criancas-a-familias-de-acolhimento\/","title":{"rendered":"\u00c9 errado entregar crian\u00e7as a fam\u00edlias de acolhimento"},"content":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Villas Boas, director do Ref\u00fagio Aboim Ascen\u00e7\u00e3o (Faro), voz inc\u00f3moda para o poder e para os tribunais quando se trata da defesa das crian\u00e7as, participou no congresso sobre a institucionaliza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as que decorreu em Recard\u00e3es, em Novembro de 2009. Psic\u00f3logo cl\u00ednico de forma\u00e7\u00e3o, criador do conceito de \u201cemerg\u00eancia infantil\u201d \u2013 quando h\u00e1 uma crian\u00e7a em risco ou j\u00e1 vitimada \u2013, afirma que \u00e9 um grave erro entregar crian\u00e7as com menos de cinco anos a fam\u00edlias de acolhimento<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA \u2013 Afirma que \u00e9 um erro entregar crian\u00e7as institucionalizadas a fam\u00edlias de acolhimento tempor\u00e1rio. Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>LU\u00cdS VILLAS BOAS &#8211; Toda a gente sabe que, em termos de psicologia, uma crian\u00e7a se vincula. Os afectos da crian\u00e7a transmitem-se para a m\u00e3e ou para o colo que lhe d\u00e1 protec\u00e7\u00e3o e em pouco tempo ocorre a vincula\u00e7\u00e3o emocional, uma esp\u00e9cie de simbiose entre a crian\u00e7a e o cuidador ou cuidadora, normalmente uma mulher. As crian\u00e7as com menos de cinco anos de idade vinculam-se rapidamente. E isto \u00e9 mais verdade quanto mais tenra \u00e9 a idade da crian\u00e7a. Um beb\u00e9 de quinze dias ao fim de quatro meses est\u00e1 colado a essa pessoa.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pr\u00e1tica a evitar, portanto.<\/p>\n<p>Mais do que evitar. Isto s\u00f3 \u00e9 bom para dar espect\u00e1culo na televis\u00e3o, quando se separa a crian\u00e7a da fam\u00edlia de acolhimento, como temos visto em casos recentes, e para os jornalistas. No entanto, a Seguran\u00e7a Social, em muitos pontos do pa\u00eds, ainda continua a colocar crian\u00e7as nessas amas ou fam\u00edlias de acolhimento. No Algarve, n\u00e3o h\u00e1 nesta altura fam\u00edlias de acolhimento para crian\u00e7as com menos de cinco anos de idade. E porqu\u00ea? Julgo que tal acontece porque h\u00e1 uma institui\u00e7\u00e3o adequada, pela qual sou respons\u00e1vel, que acolhe as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>O bem-estar das crian\u00e7as pode passar pela institucionaliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Os agentes no terreno \u00e9 que t\u00eam de intervir em caso de emerg\u00eancia infantil e com rapidez: comiss\u00f5es de protec\u00e7\u00e3o de menores, Seguran\u00e7a Social, tribunais\u2026 As institui\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia infantil, como o Ref\u00fagio Aboim Ascen\u00e7\u00e3o, recebem crian\u00e7as a pedido do Estado \u2013 tribunais, comiss\u00e3o de protec\u00e7\u00e3o de menores, Seguran\u00e7a Social, hospitais \u2013 e s\u00f3 a pedido do Estado. Depois de entrarem na institui\u00e7\u00e3o, o nosso trabalho deve durar o m\u00ednimo tempo. Ronda os 12 a 15 meses o tempo m\u00e9dio que uma crian\u00e7a permanece na institui\u00e7\u00e3o. Ao fim desse tempo, n\u00f3s temos um projecto de vida organizado.<\/p>\n<p>Qual pode ser o destino da crian\u00e7a?<\/p>\n<p>Ou a crian\u00e7a volta para a sua fam\u00edlia, se apenas havia um problema de pobreza\u2026 Ou, se houve maltrato, espancamento ou viola\u00e7\u00e3o, como os tribunais n\u00e3o permitem o regresso da crian\u00e7a a casa, acciona-se o processo de adop\u00e7\u00e3o. N\u00f3s trabalhamos com todos os agentes no terreno. Quase todos os dias vamos aos tribunais falar com os magistrados. Esta capacidade t\u00e9cnica s\u00f3 se obt\u00e9m quando se tem dentro da institui\u00e7\u00e3o os devidos t\u00e9cnicos.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 publicamente afirmou, n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de t\u00e9cnicos, mas tamb\u00e9m de cora\u00e7\u00e3o, de afecto\u2026<\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Mas passa pelos t\u00e9cnicos bem formados. O Estado fecha \u00e0s 5 da tarde de sexta-feira. N\u00f3s estamos sempre abertos. Temos pessoas que podem atender um telefonema \u00e0s 5 da madrugada. No Ref\u00fagio Aboim Ascens\u00e3o temos 94 pessoas a trabalhar. 89 s\u00e3o mulheres. 24 s\u00e3o licenciadas\/os. Quem paga? A Seguran\u00e7a Social paga 48%. O resto temos de captar na sociedade civil, no mecenato. Eu j\u00e1 devia ter recebido o Pr\u00e9mio Nobel da Pedincha\u2026<\/p>\n<p>Mas se me fala da falta de afecto, devo dizer que essa falta nota-se ainda mais na justi\u00e7a. Os tribunais portugueses n\u00e3o sabem como lidar com crian\u00e7as. As leis n\u00e3o t\u00eam afecto. Decidem sobre a vida de uma crian\u00e7a como quem decide a partilha de um terreno. E depois sobra para a crian\u00e7a \u2013 como a menina que vai para a Sib\u00e9ria apanhar tareia\u2026<\/p>\n<p>Disse que das 500 crian\u00e7as que foram dadas em adop\u00e7\u00e3o, das 2500 que ao longo de 25 anos passaram pela Ref\u00fagio, \u201cnenhuma foi devolvida\u201d \u00e0 institui\u00e7\u00e3o. A que se deve tal sucesso?<\/p>\n<p>De facto, temos uma taxa zero de retorno. Isto deve-se basicamente \u00e0 capacidade de avalia\u00e7\u00e3o dos candidatos pelos servi\u00e7os de adop\u00e7\u00e3o de Faro, e, por outro lado, ao estudo que fazemos de cada crian\u00e7a: a sua origem, os seus altos e baixos, a sua tipologia cl\u00ednica, etc. Quando o tribunal decreta \u201cadopte-se\u201d \u00e9 porque n\u00f3s requeremos a confian\u00e7a judicial para a adop\u00e7\u00e3o. Ora bem, com o perfil da crian\u00e7a totalmente conhecido por n\u00f3s e o perfil do casal ou candidato a adoptar conhecido pela Seguran\u00e7a Social, est\u00e3o criadas as condi\u00e7\u00f5es para uma boa adop\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 mais. Quando o casal \u2013 num caso t\u00edpico \u2013 chega para adoptar, n\u00e3o leva a crian\u00e7a da manh\u00e3 para a tarde. Nem fica l\u00e1 um dia a olhar para a crian\u00e7a. Fica cinco dias, no m\u00ednimo, dentro da institui\u00e7\u00e3o. Chamamos a isto \u201cvincula\u00e7\u00e3o observada\u201d \u2013 sou respons\u00e1vel por esta express\u00e3o estar na lei, mas sei que isto n\u00e3o \u00e9 cumprido. H\u00e1 institui\u00e7\u00f5es em Portugal, onde se entra de manh\u00e3 e sai-se \u00e0 tarde com a crian\u00e7a. \u00c0s vezes brincam uma hora ou duas. Isto \u00e9 a realidade. N\u00f3s exigimos cinco dias para ver como a crian\u00e7a se adequa \u00e0quele casal.<\/p>\n<p>\u00c9 costume as crian\u00e7as e fam\u00edlias voltarem ao Ref\u00fagio?<\/p>\n<p>Acontece com centenas delas. No dia 1 de Dezembro, ligamos as l\u00e2mpadas de Natal \u2013 s\u00e3o tr\u00eas mil \u2013 e convidamos toda a gente que conhece o Ref\u00fagio. Aparecem todos os anos mais de cem adoptados do pa\u00eds inteiro.<\/p>\n<p>Defende a altera\u00e7\u00e3o da lei que regula o mecenato social?<\/p>\n<p>Defendo a cria\u00e7\u00e3o de um verdadeiro mecenato social. H\u00e1 mecenato cultural e h\u00e1 mecenato social, mas \u00e9 t\u00edmido. Eu defendo contrapartidas sens\u00edveis para que as empresas sintam, sobretudo as que est\u00e3o na \u00e1rea da institui\u00e7\u00e3o, que ali podem dar um apoio, e que o Estado, tendo em conta esse apoio, o deduza nos impostos. Defendo uma bene-ficia\u00e7\u00e3o das empresas em 170 % em vez dos 140 % actuais. E uma fiscaliza\u00e7\u00e3o feroz sobre a efectividade do montante dado.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos muitos mecenas e todos eles conhecem o que estamos a fazer. Acompa-nham o que fazemos. Se eu pe\u00e7o uma viatura \u00e0 firma tal, essa firma fica satisfeita por ver que o carro que ofereceu, traz pintado: \u201cObrigado, Vodafone\u201d, \u201cObrigado TMN\u201d. Ou \u201cObrigado, RFM\u201d, como dissemos no ano passado por uma carrinha que nos foi ofere-cida numa campanha de Natal. Isso vincula a pr\u00f3pria empresa ao donativo. Outra coisa \u00e9 verem no terreno concreto como vivemos, como usamos o dinheiro.<\/p>\n<p>Defende uma institui\u00e7\u00e3o aberta \u00e0 comunidade?<\/p>\n<p>Toda aberta. Sou contra institui\u00e7\u00f5es sociais onde n\u00e3o podem entrar a comunidade ou os jornalistas. E h\u00e1, de facto, institui\u00e7\u00f5es para-estatais fechadas. Quem vive do dinheiro do Estado, por maior ordem de raz\u00e3o, n\u00e3o pode fechar as portas.<\/p>\n<p>Como surgiu o Ref\u00fagio Aboim Ascens\u00e3o?<\/p>\n<p>O Ref\u00fagio \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o particular crist\u00e3 de solidariedade. Come\u00e7ou com um coronel que morreu em 1930 e deixou \u00e0 fam\u00edlia uma verba para construir um ref\u00fagio. Quem o construiu foi um genro, engenheiro, tamb\u00e9m coronel, que deu \u00e0 institui\u00e7\u00e3o o nome da fam\u00edlia. Isto em 1933. Eu cheguei em 1985, quando esse senhor j\u00e1 com 90 anos me pediu ajuda. A institui\u00e7\u00e3o estava numa situa\u00e7\u00e3o praticamente de abandono. Nasceu ent\u00e3o a actual aventura do Ref\u00fagio. O que somos hoje foi constru\u00eddo nestes 25 anos. Arranjei estas rugas todas e perdi cabelo.<\/p>\n<p>Entrevista conduzida por<\/p>\n<p>Jorge Pires Ferreira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Villas Boas, director do Ref\u00fagio Aboim Ascen\u00e7\u00e3o (Faro), voz inc\u00f3moda para o poder e para os tribunais quando se trata da defesa das crian\u00e7as, participou no congresso sobre a institucionaliza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as que decorreu em Recard\u00e3es, em Novembro de 2009. Psic\u00f3logo cl\u00ednico de forma\u00e7\u00e3o, criador do conceito de \u201cemerg\u00eancia infantil\u201d \u2013 quando h\u00e1 uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-17351","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17351","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17351"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17351\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}