{"id":17389,"date":"2011-05-25T09:45:00","date_gmt":"2011-05-25T09:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17389"},"modified":"2011-05-25T09:45:00","modified_gmt":"2011-05-25T09:45:00","slug":"tres-perguntas-e-respostas-sobre-a-biblia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/tres-perguntas-e-respostas-sobre-a-biblia\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas perguntas e respostas sobre a B\u00edblia"},"content":{"rendered":"<p>Qual \u00e9 o nome de Deus?<\/p>\n<p>A pergunta tem sentido pelo facto de algumas correntes religiosas insistirem no nome de Deus como sendo Jeov\u00e1, enquanto B\u00edblias cat\u00f3licas apresentam Yahweh (Jav\u00e9) ou Senhor. Em que ficamos?<\/p>\n<p>O Antigo Testamento come\u00e7ou por ser escrito em l\u00edngua hebraica, l\u00edngua que s\u00f3 tinha consoantes, tal como outras l\u00ednguas da \u00e9poca. Sendo assim, a palavra que aparecia era simplesmente YHWH. Como se lia? N\u00e3o existe uma certeza, visto faltarem as vogais. S\u00f3 no s\u00e9c. VII d.C. \u00e9 que a escola rab\u00ednica de Tiber\u00edades introduziu um sistema voc\u00e1lico para n\u00e3o se perder o texto. Mas temos alguns ind\u00edcios\u2026<\/p>\n<p>O respeito pelo nome de Deus (\u00abn\u00e3o invocar o nome de Deus em v\u00e3o\u00bb), dado o seu car\u00e1cter sagrado e para n\u00e3o ser usado como elemento m\u00e1gico, como acontecia entre os povos vizinhos, levou progressivamente a que os hebreus deixassem de o pronunciar.  Da\u00ed que, no s\u00e9c. III a.C., s\u00f3 o Sumo-sacerdote o invocava uma \u00fanica vez por ano na b\u00ean\u00e7\u00e3o ao povo no final da Festa da Expia\u00e7\u00e3o e come\u00e7o do Ano Novo. <\/p>\n<p>Por esta altura, surge a tradu\u00e7\u00e3o grega da B\u00edblia, chamada Setenta, feita por mestres judeus em Alexandria para a enorme col\u00f3nia judaica a\u00ed residente, verificando-se que onde aparece YHWH, a tradu\u00e7\u00e3o grega apresenta Kyrios (= Senhor). Isto vem confirmar o uso de se referirem a Deus simplesmente como \u00abSenhor\u00bb (em hebraico: \u201cadonay\u201d). <\/p>\n<p>Os rabinos do s\u00e9c. VII d.C. est\u00e3o nesta linha: mantiveram as consoantes da palavra mas colocaram as vogais da palavra hebraica \u201cadonay\u201d. A finalidade \u00e9 indicar que se deve ler Adonay = Senhor. \u00c9 isto que qualquer judeu ainda hoje entende e faz. Nenhum judeu l\u00ea Yehowah. <\/p>\n<p>Temos alguns ind\u00edcios de como seria a pron\u00fancia. O primeiro vem-nos da aclama\u00e7\u00e3o Hallel\u00fb-Yah (Louvai Yah). O segundo \u00e9 tirado dos nomes de pessoas: Isa\u00edas (Yi\u0161a\u2018iy&#257;h\u00fb \u2013 \u201cYah\u00fb \u00e9 salva\u00e7\u00e3o\u201d); Sofonias (Sefanyah \u2013 \u201cYah escondeu\u201d); Abdias (\u2018Oba-diy&#257;h\u00fb \u2013 \u201cservo de Yah\u00fb\u201d). O terceiro \u00e9 uma refer\u00eancia aos gregos que achavam piada ao facto de o nome do Deus dos judeus ter apenas vogais. <\/p>\n<p>Estes ind\u00edcios levam a concluir que o nome divino seria Yahaweh ou Yahweh. <\/p>\n<p>Quantos s\u00e3o os Evangelhos? <\/p>\n<p>Chegaram at\u00e9 aos nossos dias dezenas de escritos a que poderemos chamar \u201cevangelhos\u201d, pelo facto de narrarem acontecimentos que t\u00eam a ver com Jesus. Porqu\u00ea, ent\u00e3o, o Novo Testamento s\u00f3 apresenta quatro? <\/p>\n<p>A primeira resposta tem a ver com o tempo em que foram compostos. A maior parte deles surgem a partir de meados do s\u00e9c. II d.C. e seguintes. A segunda resposta prende-se com os autores: a comunidade primitiva aceitou como textos sagrados aqueles que foram escritos por ap\u00f3stolos (Mateus e Jo\u00e3o) ou intimamente ligados a ap\u00f3stolos (Marcos a Pedro; Lucas a Paulo). Outros textos com nomes de ap\u00f3stolos n\u00e3o foram considerados porque efectivamente s\u00e3o tardios e n\u00e3o foram escritos por esses ap\u00f3stolos. Outro aspecto prende-se com a doutrina, apresentada por muitos \u00abevangelhos\u00bb tardios, de car\u00e1cter her\u00e9tico. O Conc\u00edlio Vaticano II insiste neste aspecto: \u00abA Igreja sempre afirmou e afirma que os quatro evangelhos s\u00e3o de origem apost\u00f3lica&#8230;\u00bb (Dei Verbum, n. 18). <\/p>\n<p>Os testemunhos escritos que nos chegam do s\u00e9c. II, alguns deles muito curiosos, indicam-nos bem o crit\u00e9rio de escolha. Recordemos apenas o de S. Ireneu (130-200):<\/p>\n<p>\u00ab\u00c9 imposs\u00edvel que os evangelhos sejam em n\u00famero maior ou menor do que s\u00e3o. Pois como h\u00e1 4 regi\u00f5es no mundo em que vivemos, e 4 ventos dos 4 pontos cardeais, e como por outra parte a Igreja est\u00e1 disseminada por toda a terra, e coluna e suporte da Igreja \u00e9 o evangelho e o esp\u00edrito de vida, resulta que ela tem 4 colunas que de todas as partes respiram incorruptibilidade e vivificam os homens. Donde \u00e9 manifesto que o Verbo, art\u00edfice de todas as coisas, que est\u00e1 sentado sobre os Querubins e unifica tudo, quando se manifestou aos homens, deu-nos um evangelho quadriforme, unificado por um s\u00f3 esp\u00edrito&#8230; De facto n\u00e3o conhecemos a economia da nossa salva\u00e7\u00e3o por meio de outros sen\u00e3o daqueles atrav\u00e9s dos quais nos chegou o evangelho. O qual evangelho eles pregaram ent\u00e3o oralmente, depois por vontade divina transmitiram-no-lo por escrito&#8230; Mateus depois entre os Hebreus publicou um evangelho escrito na l\u00edngua deles, enquanto Pedro e Paulo evangelizavam em Roma e fundavam a Igreja. Depois que estes partiram, Marcos, disc\u00edpulo e int\u00e9rprete de Pedro, tamb\u00e9m nos transmitiu por escrito as coisas pregadas por Pedro. Tamb\u00e9m Lucas, seguidor de Paulo, comp\u00f4s um livro, o evangelho pregado por aquele. Depois Jo\u00e3o, o disc\u00edpulo do Senhor, aquele que repousou sobre o seu peito, tamb\u00e9m ele publicou um evangelho durante a sua estadia em \u00c9feso da \u00c1sia&#8230; \u00c9 tanta a certeza a respeito destes evangelhos que os pr\u00f3prios hereges d\u00e3o testemunho deles, e a partir deles cada um procura encontrar uma confirma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria doutrina\u00bb (Contra os Hereges, S. Ireneu, anos 130\u2013200). <\/p>\n<p>Dos testemunhos resulta que no s\u00e9c. II homens de t\u00e3o diversa proveni\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o, representantes de tradi\u00e7\u00f5es de comunidades distantes umas das outras, conhecem e citam s\u00f3 os 4 evangelhos e os 4 autores tradicionais. Notar particularmente:<\/p>\n<p>&#8211; A converg\u00eancia constante sobre os mesmos nomes como autores dos evangelhos; o que mostra como a atribui\u00e7\u00e3o dos 4 evangelhos a Mateus, Marcos, Lucas e Jo\u00e3o \u00e9 j\u00e1 no s\u00e9c. II uma coisa aceite, antiga e vener\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; A conex\u00e3o dos 4 autores com o grupo apost\u00f3lico. O que fundamenta a autoridade destes livros n\u00e3o \u00e9 tanto o facto de terem sido escritos por personagens particularmente qualificadas, mas o facto de por detr\u00e1s deles estar a prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica e alguma pessoa particular do grupo apost\u00f3lico. Mais do que autenticidade precisa do autor-escritor, tem valor o nexo dos evangelhos com a prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica autorizada e a capacidade de fix\u00e1-la com autoridade, que justificam precisamente a aceita\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios escritos diferentes sobre o \u00fanico tema central da f\u00e9: a vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo pregadas como salva\u00e7\u00e3o dos crentes.<\/p>\n<p>Os Evangelhos s\u00e3o hist\u00f3ria ou \u00abhistorinhas\u00bb?<\/p>\n<p>Ao olhar para os quatro evangelhos que o Novo Testamento nos apresenta, encontramos muitas coisas diferentes acerca do mesmo assunto e, por vezes, at\u00e9 contradi\u00e7\u00f5es. Os evangelhos s\u00e3o hist\u00f3ria ou \u00abhistorinhas\u00bb?\t<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 simples: n\u00e3o s\u00e3o uma coisa nem outra. Os evangelhos n\u00e3o s\u00e3o uma rela\u00e7\u00e3o filmada das obras de Jesus nem o pretendem ser. Porque os evangelhos n\u00e3o s\u00e3o uma cr\u00f3nica; s\u00e3o o an\u00fancio da salva\u00e7\u00e3o universal realizada por Cristo. Ora, o an\u00fancio da Boa Nova n\u00e3o se pode fazer \u00e0 maneira duma biografia no sentido moderno. Contudo a narra\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica reproduz a ess\u00eancia da prega\u00e7\u00e3o e da actividade de Jesus terreno, gra\u00e7as \u00e0 fidelidade do modo de transmitir dos judeus. <\/p>\n<p>Apesar de tudo, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel penetrar na vida de Jesus por meio duma cuidadosa investiga\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e puxar \u00e0 superf\u00edcie os factos e ditos que a igreja primitiva achou oportuno conservar. Os evangelistas, mesmo vendo tudo sob a luz da f\u00e9, investigam cuidadosamente os factos (cf. Lc 1,3). As condi\u00e7\u00f5es requeridas nos candidatos ao apostolado e a dar testemunho da ressurrei\u00e7\u00e3o exigiam que fossem \u00abdentre os homens que nos acompanharam durante todo o tempo que o Senhor Jesus viveu no meio de n\u00f3s a partir do baptismo de Jo\u00e3o at\u00e9 ao dia em que nos foi arrebatado para o Alto\u00bb (Act 1,21-22).<\/p>\n<p>H\u00e1 que exaltar o car\u00e1cter dos evangelhos. N\u00e3o s\u00e3o cr\u00f3nica-biografia, e ainda bem que o n\u00e3o s\u00e3o. O g\u00e9nero liter\u00e1rio \u00abevangelhos\u00bb, embora seja um tormento para o historiador, s\u00e3o a melhor forma de express\u00e3o para o te\u00f3logo e para o crist\u00e3o.<\/p>\n<p>A prega\u00e7\u00e3o de Jesus ficou propositadamente incompleta, deixando muitas quest\u00f5es em aberto. Jesus, por sua parte, n\u00e3o ignorava a situa\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3stolos: n\u00e3o entendiam, nem podiam entender muitas coisas antes da sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o; os mesmos ap\u00f3stolos e evangelistas o confessam sinceramente (Mc 9,32; Lc 9,45; Jo 2,22). Por isso Jesus omite muitas coisas, porque ainda n\u00e3o estavam mentalizados (Jo 16,12). N\u00e3o entendem as predi\u00e7\u00f5es (Jo 16,16-19). Jesus prev\u00ea e prov\u00ea com o envio do Esp\u00edrito, em nome do Pai, ou seja, em virtude da sua ressurrei\u00e7\u00e3o; o Esp\u00edrito da Verdade lhes ensinar\u00e1 toda a verdade (Jo 15,26; 16,13-15). <\/p>\n<p>A vida de Jesus, sendo t\u00e3o especial, precisava de uma interpreta\u00e7\u00e3o. E ningu\u00e9m estava em melhor condi\u00e7\u00e3o para isso do que os ap\u00f3stolos. Depois da ressurrei\u00e7\u00e3o a prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica n\u00e3o usava simplesmente as palavras de Jesus, pois o conhecimento sobre a sua pessoa e doutrina tinham progredido. Por outro lado o crist\u00e3o devia estar certo de que o an\u00fancio apost\u00f3lico era uma leg\u00edtima e fiel interpreta\u00e7\u00e3o da Pessoa e da obra de Jesus. Da\u00ed a necessidade de compor os evangelhos e de informar o crente sobre as palavras e os factos do Jesus hist\u00f3rico. Isto, por\u00e9m, s\u00f3 era uma parte da f\u00e9 em Cristo ressuscitado.  <\/p>\n<p>As palavras e os factos de Jesus tinham que ser completados pela fun\u00e7\u00e3o interpretativa das Escrituras e explicadas \u00e0 luz do Esp\u00edrito do Ressuscitado. O que os Evangelhos nos d\u00e3o mediante uma vers\u00e3o fiel do Jesus hist\u00f3rico j\u00e1 est\u00e1 completo na sua interpreta\u00e7\u00e3o. A Igreja nascente completa esta interpreta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o independentemente do Jesus hist\u00f3rico, mas como um prolongamento na hist\u00f3ria do acontecimento \u00fanico que \u00e9 a pessoa de Cristo.<\/p>\n<p>A f\u00e9 interpreta, acrescenta. Mas nem por isso est\u00e1 em pior condi\u00e7\u00e3o do que a ci\u00eancia. A observa\u00e7\u00e3o puramente natural, imparcial, da vida de Jesus impele-nos a ir mais adiante e a tirar conclus\u00f5es. E a conclus\u00e3o tirada pela f\u00e9 \u00e9, mesmo na linha da ci\u00eancia, a mais l\u00f3gica, e explica aquilo que a ci\u00eancia n\u00e3o pode explicar. Mas n\u00e3o \u00e9 uma f\u00e9 cega. D\u00e1-me a certeza (n\u00e3o a evid\u00eancia!).<\/p>\n<p>J. Franclim Pacheco<\/p>\n<p>P\u00e1gina da responsabilidade do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA). Sai na 4.\u00aa quarta-feira de cada m\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual \u00e9 o nome de Deus? 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