{"id":17390,"date":"2011-05-25T09:48:00","date_gmt":"2011-05-25T09:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17390"},"modified":"2011-05-25T09:48:00","modified_gmt":"2011-05-25T09:48:00","slug":"gigantes-de-moinhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/gigantes-de-moinhos\/","title":{"rendered":"Gigantes de moinhos"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Onde Sancho v\u00ea moinhos<\/p>\n<p>D. Quixote v\u00ea gigantes.<\/p>\n<p>V\u00ea moinhos? S\u00e3o moinhos.<\/p>\n<p>V\u00ea gigantes? S\u00e3o gigantes.\t\t<\/p>\n<p>(Impress\u00e3o digital de Ant\u00f3nio Gede\u00e3o)<\/p>\n<p>S\u00f3 vemos em Jesus um judeu de h\u00e1 dois mil anos? \u2013 Vemos um homem morto. Vemos \u00abo Cristo que voltou \u00e0 vida pelo Esp\u00edrito\u00bb? (2.\u00aa leitura) \u2013 Vemos a garantia da  vida (Evangelho).<\/p>\n<p>\u00c9 pr\u00f3prio do ser humano debater-se entre a realidade daquilo que sente e v\u00ea e aquilo que sente mas n\u00e3o v\u00ea. Da dial\u00e9ctica destes dois sentimentos se faz o drama da nossa aventura.<\/p>\n<p>As religi\u00f5es orientais, conscientes deste drama, optaram por condenar o desejo. Real\u00e7am a sabedoria de que o nosso esfor\u00e7o pela felicidade \u00e9 muitas vezes falsificado por m\u00e1s escolhas, metendo por caminhos que levam \u00e0 opress\u00e3o dos outros e \u00e0 perda dos pr\u00f3prios \u201cbons sentimentos\u201d. Concentraram-se no desejo de nada termos a desejar, e de que o sonho da perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 diluirmo-nos na realidade fundamental \u2013 a realidade divina.<\/p>\n<p>Esta resposta ao drama humano n\u00e3o \u00e9 desconhecida da espiritualidade crist\u00e3, e dela encontramos tra\u00e7os nalguns m\u00edsticos e te\u00f3logos, desde o neoplatonismo at\u00e9 aos nossos dias. <\/p>\n<p>Contudo, o cariz \u201cpragm\u00e1tico\u201d da cultura ocidental revela-se no culto por vezes fan\u00e1tico da realidade sens\u00edvel, no culto do mundo que nos rodeia e que podemos medir e transformar. Esta obsess\u00e3o por \u00abmedir\u00bb levou os judeus a exigir sinais sens\u00edveis da verdadeira autoridade de Jesus, e S. Tom\u00e9 a querer \u00abmedir\u00bb as chagas do crucificado\u2026 Todos os que de algum modo tiveram a experi\u00eancia de Deus, seja um S. Jo\u00e3o da Cruz ou uma Teresa de Calcut\u00e1, sentiram que o essencial lhes fugia e que pareciam condenados a nada ver daquilo que tanto queriam crer. <\/p>\n<p>O desassossego dos primeiros crist\u00e3os levedou com o tempo e penetrou todo o pensamento religioso. Crescem em n\u00famero e rigor cient\u00edfico a interpreta\u00e7\u00e3o dos textos fundamentais, e cada vez mais podemos avaliar a mensagem aut\u00eantica de Jesus, discernindo o que podia significar no seu tempo e no nosso tempo. Nenhuma palavra humana \u00e9 definitiva, e as palavras de Jesus s\u00f3 podiam ser humanas. S\u00f3 lhes percebe o sentido divino, ou seja o sentido da plenitude do universo, quem est\u00e1 atento \u00e0 sua for\u00e7a simb\u00f3lica. <\/p>\n<p>No livro dos Actos dos Ap\u00f3stolos, \u00e9 not\u00f3ria a preocupa\u00e7\u00e3o por juntar todos os elos que podem unir a comunidade crist\u00e3 a Jesus que continua vivo como \u00abo Cristo (o \u00abescolhido\u00bb, o \u00abfilho\u00bb) de Deus\u00bb. Precisavam de sentir um Jesus que via moinhos mas que tamb\u00e9m sabia ver gigantes. Para poderem reviver e fortalecer o contacto com as origens, reuniam-se regularmente e praticavam o antiqu\u00edssimo (e t\u00e3o moderno) rito de imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os, transmissor da energia vital (desde tempos imemoriais e hoje muito revalorizada) e s\u00edmbolo da transmiss\u00e3o da For\u00e7a de Deus. <\/p>\n<p>Precisamos de continuar a reunir-nos e a partilhar o desejo e a d\u00favida do que ser\u00e1 a realidade fundamental. <\/p>\n<p>No realismo, por vezes discut\u00edvel, dos textos lit\u00fargicos, reflecte-se o valor da experi\u00eancia, o valor do mundo sens\u00edvel, o valor da actividade humana. Foi em todas estas dimens\u00f5es do dia-a-dia, que Jesus se ia encontrando com quem o queria ouvir. Jesus via os moinhos, que nos forneciam \u00abo p\u00e3o nosso de cada dia\u00bb. Mas pertencia aos \u00abgigantes\u00bb que se d\u00e3o conta da linguagem das aves, das flores, dos moinhos, do c\u00e9u e dos mares. \u00abGigantes\u00bb que parecem malucos, b\u00eabedos, fora deste mundo\u2026 Quem tem olhos de \u00abgigante\u00bb, cr\u00edtico de tudo o que o rodeia sensivelmente e que mede com justeza o que pode ser medido, n\u00e3o tem vergonha de os abrir contra os trocistas da pra\u00e7a.<\/p>\n<p>S\u00e3o estes que, como o pr\u00f3prio Jesus e muitas outras grandes figuras religiosas, s\u00e3o os verdadeiros realistas, n\u00e3o congeminando que a felicidade se encontra numa das voltas dos moinhos nem numa das passadas de gigante. Mas quem tem palas nos olhos n\u00e3o pode ser realista. Sem passadas de gigante, n\u00e3o melhoramos sequer os velhos moinhos e muito menos a qualidade do p\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>(m.alteveiga@netcabo.pt)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-17390","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17390","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17390"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17390\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17390"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17390"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17390"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}