{"id":17396,"date":"2011-06-01T09:17:00","date_gmt":"2011-06-01T09:17:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17396"},"modified":"2011-06-01T09:17:00","modified_gmt":"2011-06-01T09:17:00","slug":"a-crise-as-crises-e-como-sair-delas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-crise-as-crises-e-como-sair-delas\/","title":{"rendered":"A crise, as crises e como sair delas"},"content":{"rendered":"<p>O que dizem&#8230; <!--more--> Isabel Jonet, presidente da Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, e Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, padre e poeta, director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, protagonizaram o segundo \u201cdi\u00e1logo na cidade\u201d, na noite de 19 de Maio, no Teatro Aveirense, numa iniciativa da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura. O tema de fundo era \u201cigualdade e diferen\u00e7a\u201d no mundo em que vivemos. Aqui fica o registo das principais ideias em discurso directo (IJ \u2013 Isabel Jonet; TM \u2013 Tolentino Mendon\u00e7a).<\/p>\n<p>Teatro, lugar de encontro<\/p>\n<p>(TM) O teatro \u00e9 s\u00edmbolo da cultura ocidental, lugar de entretenimento e de encontro connosco pr\u00f3prios, espelho da cultura humana, do sentido da vida, da exorciza\u00e7\u00e3o dos medos. Uma conversa deste g\u00e9nero num teatro reabilita a fun\u00e7\u00e3o social que a cultura tem de ter. Cultura n\u00e3o \u00e9 apenas ornamento e procura de consola\u00e7\u00e3o, mas lugar onde nos encontramos mais profundamente naquilo que \u00e9 a humanidade nas nossas procuras, esperan\u00e7as e expectativas.<\/p>\n<p>Cultura, lugar de miss\u00e3o<\/p>\n<p>(TM) S\u00e3o Paulo trouxe a novidade da cultura como lugar de miss\u00e3o \u00e0 mentalidade crist\u00e3. Na d\u00e9cada de 1980, a cria\u00e7\u00e3o do Conselho Pontif\u00edcio para a Cultura actualizou a convic\u00e7\u00e3o da cultura como lugar de evangeliza\u00e7\u00e3o. O tempo presente interroga e interpela. N\u00e3o se cr\u00ea muito nas respostas, mas todos temos o dever da cultura e da busca. O culto e a cultura caminham a par. A busca do sagrado dialoga com a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Crise e decis\u00e3o<\/p>\n<p>(IJ) A procura de igualdade n\u00e3o anula a diferen\u00e7a. No per\u00edodo em que estamos temos de nos deixar interpelar pelo significado de crise em grego: decis\u00e3o. Chegou o momento de algumas decis\u00f5es. Todos fazemos parte uns dos outros. Viver \u00e9 conviver. Todos somos respons\u00e1veis pelo bem comum (que \u00e9 diferente do interesse geral).<\/p>\n<p>Raiz da igualdade<\/p>\n<p>(TM) Passados os fervores e os radicalismos, podemos verificar que o cristianismo est\u00e1 na origem do ide\u00e1rio da liberdade, igualdade e fraternidade proclamados na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789. A igualdade, no discurso das origens crist\u00e3s, liga-se \u00e0 universalidade. O valor da pessoa dependia da fam\u00edlia, da etnia, da classe. Com o cristianismo, passa a estar ligado ao universal da f\u00e9 em Jesus. Por isso, diz S\u00e3o Paulo que \u201cn\u00e3o h\u00e1 homem e mulher, judeu e grego, livre e escravo\u2026\u201d<\/p>\n<p>Vidas desassossegadas<\/p>\n<p>(IJ) Pessoas desassossegadas n\u00e3o t\u00eam vidas sossegadas. Os bancos alimentares nasceram nos Estados Unidos de uma ideia simples mas genial, um \u201covo de colombo\u201d, ir buscar onde sobra para p\u00f4r onde faz falta. O meu \u00fanico m\u00e9rito foi ter deixado ser um instrumento de amor, dizer sim a sorrir e mobilizar pessoas que querem ser boas mas n\u00e3o sabem muito bem como.<\/p>\n<p>Capital maior \u00e9 o da esperan\u00e7a<\/p>\n<p>(TM) O amor e a rela\u00e7\u00e3o s\u00e3o compet\u00eancias. N\u00e3o s\u00e3o inatas. Falta humanidade. H\u00e1 d\u00e9fice de fraternidade. H\u00e1 pouca disponibilidade para a cultura democr\u00e1tica. \u00c9 tudo deixado para os pol\u00edticos. Na resolu\u00e7\u00e3o da crise temos de dizer que os valores fundamentais s\u00e3o compet\u00eancias. O capital maior \u00e9 o da esperan\u00e7a. Empobrecemos muito na capacidade de transmiss\u00e3o deste capital espiritual e humano, social e \u00edntimo. Oxal\u00e1 a crise nos ajude a acordar e a perceber que as coisas n\u00e3o v\u00e3o acontecer por si pr\u00f3prias mas precisam da ajuda de cada um para nascer.<\/p>\n<p>Expectativas defraudadas<\/p>\n<p>(IJ) Grande parte da crispa\u00e7\u00e3o actual decorre da incapacidade de aceitar algo que n\u00e3o vamos poder ter. Estava interiorizada a certeza de um n\u00edvel de vida sem grande esfor\u00e7o. Mas a crise tudo mudou, ainda que n\u00e3o queiramos admiti-lo. A crispa\u00e7\u00e3o reflecte-se nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais e nas fam\u00edlias. Quando se deixa de partilhar a refei\u00e7\u00e3o \u00e0 mesma mesa, perdem-se valores, refer\u00eancias, hist\u00f3rias de vida, afectos que s\u00e3o os lubrificantes dos valores na sociedade. Aparecem-nos no Banco Alimentar, com maior frequ\u00eancia, gr\u00e1vidas que deixaram de ter a refer\u00eancia do pai e da m\u00e3e e da mesa comum. E mesmo em escolas cat\u00f3licas, assustam os actos de brutalidade entre alunos. Uma sociedade sem afectos \u00e9 insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mesa<\/p>\n<p>(TM) A mesa \u00e9 um s\u00edmbolo extraordin\u00e1rio da comunidade e da comunh\u00e3o. O antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss relacionou a humaniza\u00e7\u00e3o com a passagem do cru ao cozido. Dos abor\u00edgenes aos utlratecnol\u00f3gicos, todos sentados \u00e0 volta da mesa. Isto importa para o crist\u00e3o. Comemos juntos porque n\u00e3o nos alimentamos apenas de alimentos, mas tamb\u00e9m uns dos outros. Comer na solid\u00e3o \u00e9 desumano se n\u00e3o encontrarmos um sentido maior.<\/p>\n<p>Ilus\u00e3o do tempo ocupado<\/p>\n<p>(IJ) Falta aos jovens e \u00e0s crian\u00e7as de agora a no\u00e7\u00e3o do tempo. T\u00eam todo o tempo ocupado, por vontade dos pais, pelo que n\u00e3o t\u00eam tempo para criar, pensar, ver as coisas bonitas. E se t\u00eam tempo livre, \u00e9 ocupado com os ru\u00eddos que os invadem. Mas \u00e9 uma ilus\u00e3o pensar que se pode controlar o mundo ocupando o tempo todo. \u00c9 necess\u00e1rio reintroduzir valores. Sem eles n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel contrariar as tend\u00eancias.<\/p>\n<p>Sentido da propor\u00e7\u00e3o <\/p>\n<p>das dificuldades<\/p>\n<p>(TM) Temos de reaprender o culto da proximidade, o que significa viver juntos. Como dizia Dostoi\u00e9vksi, temos medo de sermos respons\u00e1veis por todos diante de todos. Mas n\u00e3o pode haver demiss\u00e3o. Tem de haver implica\u00e7\u00e3o de todos para l\u00e1 dos ju\u00edzos morais. Faltam mestres, modelos, exemplos. Mas aten\u00e7\u00e3o que as dificuldades que vamos tendo s\u00e3o incomparavelmente menores do que as de outros povos e momentos. No sofrimento e nas dificuldades n\u00e3o podemos perder o sentido da propor\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso ganhar a no\u00e7\u00e3o do provis\u00f3rio. Neste momento \u00e9 assim, mas que me garante que ser\u00e1 assim no momento seguinte? H\u00e1 caminho. N\u00e3o \u00e9 beco sem sa\u00edda. N\u00e3o \u00e9 o fim da hist\u00f3ria, mas etapa que cada um pode melhorar, que est\u00e1 a ser escrita por cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Felicidade com identidade<\/p>\n<p>(TM) Precisamos de par\u00e1bolas. H\u00e1 hist\u00f3rias que merecem ser contadas. Na sociedade da comunica\u00e7\u00e3o, h\u00e1 demasiada incomunicabilidade, solid\u00e3o, sil\u00eancio for\u00e7ado. Precisamos de novos moldes e perguntas, mestres que nos ensinem uma felicidade acess\u00edvel. Precisamos de tirar felicidade daquilo que posso ser. Ser feliz dentro da minha realidade. A pobreza em si mesma n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 humanidade. H\u00e1 muito para transformar nas mentalidades, h\u00e1 que questionar os modelos de felicidade e valorizar outras dimens\u00f5es como a capacidade de acolher, de amar, de inspirar os outros.<\/p>\n<p>Crentes e laicos<\/p>\n<p>(TM) \u00c9 importante que as sociedades olhem para as religi\u00f5es como parceiras da constru\u00e7\u00e3o e repudiem o laicismo exacerbado que quer retirar legitimidade ao crente. O inimigo do crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o ate\u00edsmo ou o agnosticismo, mas a fome, a exclus\u00e3o, o \u00f3dio. De ambas as partes h\u00e1 que desistir de atitudes sobranceiras, do mon\u00f3logo sobre os outros. O trabalho dos crentes \u00e9 testemunhar humildemente a f\u00e9 no espa\u00e7o p\u00fablico. A vida \u00e9 uma sucess\u00e3o de come\u00e7os.<\/p>\n<p>Os novos pobres s\u00e3o velhos<\/p>\n<p>(IJ) A grande maioria de pobres est\u00e1 na popula\u00e7\u00e3o idosa. H\u00e1 mais de um milh\u00e3o a viver com menos de 280 euros por m\u00eas. A comunica\u00e7\u00e3o social s\u00f3 apresenta pobres novos porque n\u00e3o \u00e9 sexy ser velho, como me disse uma jornalista. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que dizem&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-17396","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17396","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17396"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17396\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17396"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17396"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17396"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}