{"id":17488,"date":"2011-06-08T10:35:00","date_gmt":"2011-06-08T10:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17488"},"modified":"2011-06-08T10:35:00","modified_gmt":"2011-06-08T10:35:00","slug":"tiques-de-riquismo-com-a-pobreza-em-pano-de-fundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/tiques-de-riquismo-com-a-pobreza-em-pano-de-fundo\/","title":{"rendered":"Tiques de riquismo com a pobreza em pano de fundo"},"content":{"rendered":"<p>A gente pobre sempre sonhou e trabalhou para um dia poder viver melhor. E fazia o poss\u00edvel para isso. Aprendia-se na fam\u00edlia a poupar, a n\u00e3o estragar, a n\u00e3o exigir aquilo que n\u00e3o se podia ter, a n\u00e3o fingir de rico quando n\u00e3o se era nem sequer remediado. Nos meios rurais, em que todas as pessoas t\u00eam nome e rosto, s\u00f3 raramente se passava fome, porque se partilhavam coisas da horta e n\u00e3o deixavam os pedintes irem embora s\u00f3 com a consola\u00e7\u00e3o das palavras. No tempo de racionamento, como foi o da guerra, as coisas l\u00e1 se foram arranjando com sacrif\u00edcios, mas sem deixarem grandes mazelas. Podia dizer-se, na verdade, que o comum das gentes aprendia a viver com muito e com pouco, na abund\u00e2ncia e na priva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os tempos foram mudando a vida e as pessoas come\u00e7aram a aprender na nova escola que ensina a comprar sem dinheiro. A depend\u00eancia de um ordenado certo tornara-se moeda corrente; a procura de um trabalho no Estado era garantia de seguran\u00e7a para o futuro; a emigra\u00e7\u00e3o para fora do pa\u00eds, que emigrar c\u00e1 dentro dava vistas curtas, mas l\u00e1 fora abria horizontes, dava para ter autom\u00f3vel e fazer casa nova na terra. Chegou-se, ent\u00e3o, a um tempo de melhor n\u00edvel de vida, por vezes vida sem grande n\u00edvel e com mais apar\u00eancias que realidade. De repente, tudo come\u00e7ou a mudar. Muitos encargos, rendimentos incertos. Poupan\u00e7as, bem como de h\u00e1bitos de modera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o faziam parte da hist\u00f3ria pessoal e familiar. Irrompeu a calamidade do desemprego que atinge todo o pa\u00eds, pobreza e mesmo vida remediada viraram fome, a car\u00eancia do essencial deixou de ser simples palavra para se tornar realidade dolorosa.  Muita gente, por\u00e9m, ou n\u00e3o acordou ou finge que nada mudou. Quem, c\u00e1 dentro ou vindo de fora, observar o que por a\u00ed se v\u00ea, n\u00e3o deixa de pensar, que, mesmo em plena crise, parecemos um pa\u00eds de gente rica, onde at\u00e9 muita gente nova, que ainda n\u00e3o ganhou nada, d\u00e1 nota p\u00fablica de opul\u00eancia. Autom\u00f3veis sem conta, telem\u00f3veis dos mais caros e sofisticados, roupa de marca, ida ao futebol ao estrangeiro, como se fosse  \u00e0 cidade ali do lado, muitos, ainda que minoria, a programar f\u00e9rias e lua-de-mel em pa\u00edses ex\u00f3ticos\u2026 <\/p>\n<p>Toda a gente se queixa, mas a raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sempre a mesma para todos. E o desemprego aumenta cada dia, o trabalho prec\u00e1rio mant\u00e9m-se, o recibo verde continua a fazer hist\u00f3ria, a fila dos que cada dia procuram o Banco Alimentar e batem \u00e0 porta das institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social  cresce, a ponto de j\u00e1 n\u00e3o se conseguir responder \u00e0s necessidades mais prementes.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que muitas pessoas continuam solid\u00e1rias ou porque passaram por experi\u00eancias id\u00eanticas ou porque ainda n\u00e3o se lhes entorpeceu o cora\u00e7\u00e3o. Um tempo diferente e de crise social grave, como o que a\u00ed temos para durar, torna urgentes atitudes diferentes das que t\u00eam sido comuns entre n\u00f3s. Mudar de atitude no uso do que se tem, na decis\u00e3o de produzir mais, quando \u00e9 caso, de poupar e partilhar,  com sensibilidade para com quem n\u00e3o tem, tornou-se uma responsabilidade di\u00e1ria e comum para os cidad\u00e3os, os governantes, os empres\u00e1rios, as institui\u00e7\u00f5es que nos servem, a sociedade em geral. <\/p>\n<p>Neste contexto, os tiques de riquismo s\u00e3o ofensivos, as ced\u00eancias ao sup\u00e9rfluo s\u00e3o provocadoras e escandalosas. Todos s\u00e3o chamados, \u00e0 medida de cada um, a entrar no processo da recupera\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e urgente do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 trabalho apenas dos governantes. Pouco ou nada se conseguir\u00e1 se cada um n\u00e3o se impuser a si pr\u00f3prio, atitudes de austeridade e gestos de partilha e a quem governa decis\u00f5es certas e exemplo convincente. Urge que todos digamos, de modo consequente, que somos pessoas respons\u00e1veis e solid\u00e1rias, irm\u00e3os e cidad\u00e3os com iguais direitos e deveres.<\/p>\n<p>Nesta crise, como sabemos, h\u00e1 gente especialmente atingida: os desempregados, j\u00e1 mais de 600 mil e muitos deles \u00e0 beira do desespero; os imigrantes estrangeiros mais pobres, sobretudo os africanos, muitos deles explorados por empregadores desonestos; as fam\u00edlias com problemas multiplicados e sem meios para os resolver; os que viram reduzidas as suas pens\u00f5es de reforma, os abonos de fam\u00edlia e outros apoios sociais, agora sem dinheiro para os medicamentos e outras urg\u00eancias graves; os mais pobres, idosos ou crian\u00e7as, n\u00e3o amados na casa de fam\u00edlia ou acolhidos em institui\u00e7\u00f5es que nunca d\u00e3o tudo; os filhos de fam\u00edlias desestruturadas, carentes permanentes de aten\u00e7\u00e3o e de carinho e, muitas vezes, tamb\u00e9m de p\u00e3o\u2026 Todos estes e tantos outros, s\u00e3o m\u00e3o estendida ao cora\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Depois da experi\u00eancia de um certo bem-estar, ainda que relativo para alguns, vemo-nos, de um momento para o outro, inst\u00e1veis como o vento. A maioria das pessoas n\u00e3o foi preparada para viver as crises e, muito menos, para agir nelas com coragem e esperan\u00e7a. H\u00e1 que come\u00e7ar esta aprendizagem na escola da fam\u00edlia, na escola dos livros e cadernos, na escola alargada da sociedade. Nesta \u00faltima, por certo a menos control\u00e1vel, nos seus diversos n\u00edveis de ac\u00e7\u00e3o, da comunica\u00e7\u00e3o social ao ambiente circundante, da publicidade ao respeito devido aos mais fr\u00e1geis. N\u00e3o se pode iludir ningu\u00e9m. A hora \u00e9 de verdade.<\/p>\n<p>Perante diferen\u00e7as inqualific\u00e1veis, injusti\u00e7as inexplic\u00e1veis, compadrios vergonhosos,  desprezo pelos mais carenciados e exclu\u00eddos, ou uma ac\u00e7\u00e3o positiva comum, operativa e r\u00e1pida, que pode ir at\u00e9 \u00e0 den\u00fancia, ou o des\u00e2nimo e a in\u00e9rcia dos j\u00e1 vencidos, ou a agressividade perigosa dos desesperados\u2026 Em tempo de desafio s\u00f3 tem sentido a honestidade, a uni\u00e3o e a responsabilidade colectiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gente pobre sempre sonhou e trabalhou para um dia poder viver melhor. E fazia o poss\u00edvel para isso. Aprendia-se na fam\u00edlia a poupar, a n\u00e3o estragar, a n\u00e3o exigir aquilo que n\u00e3o se podia ter, a n\u00e3o fingir de rico quando n\u00e3o se era nem sequer remediado. 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