{"id":17491,"date":"2011-06-15T09:56:00","date_gmt":"2011-06-15T09:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17491"},"modified":"2011-06-15T09:56:00","modified_gmt":"2011-06-15T09:56:00","slug":"a-etica-e-a-politica-sao-indissociaveis-da-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-etica-e-a-politica-sao-indissociaveis-da-esperanca\/","title":{"rendered":"A \u00e9tica e a pol\u00edtica s\u00e3o indissoci\u00e1veis da esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>O que diz&#8230; <!--more--> Marcelo Rebelo de Sousa encerrou as \u201cTert\u00falias \u00e0 Quarta\u201d 2010\/11, do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA), no dia 8 de Junho, falando de \u00e9tica e pol\u00edtica. Segundo o professor e comentador pol\u00edtico, todos somos pol\u00edticos porque exercemos alguma forma de poder. Se o fizermos com \u00e9tica personalista, melhor. No final apontou alguns pol\u00edticos que admira. Ideias principais recolhidas por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>Origem da pol\u00edtica<\/p>\n<p>A pol\u00edtica existe porque existem bens raros, conflitos de interesses, problemas latentes. Surge como meio de definir as regras e resolver os conflitos de interesses nas organiza\u00e7\u00f5es, sejam pa\u00edses, funda\u00e7\u00f5es, autarquias ou quaisquer outras. Pol\u00edtica \u00e9 o exerc\u00edcio de poder.<\/p>\n<p>Todos somos pol\u00edticos<\/p>\n<p>Todos os membros de uma comunidade s\u00e3o pol\u00edticos porque exercem o poder e porque t\u00eam algo a dizer sobre ele quando escolhem e julgam os titulares do poder. Todos somos pol\u00edticos. N\u00e3o h\u00e1 \u201cos pol\u00edticos e n\u00f3s\u201d. Alguns exercem formas de poder espec\u00edficas em certos momentos e circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>\u00c9tica individualista e comunit\u00e1ria<\/p>\n<p>A \u00e9tica \u00e9 um conjunto de princ\u00edpios que concretizam escolhas morais. \u00c9 algo mais pr\u00f3ximo da viv\u00eancia social. Deve a pol\u00edtica obedecer a uma \u00e9tica? No s\u00e9c. XIX, com o segundo racionalismo e a afirma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo contra o clero e a aristocracia, d\u00e1-se a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e9tica. O indiv\u00edduo est\u00e1 no centro e pensa-se que o melhor para o indiv\u00edduo \u00e9 o melhor para o todo. Individualismo. Cada um com os seus princ\u00edpios. Passa-se da \u00e9tica comunit\u00e1ria \u00e0 \u00e9tica individual.<\/p>\n<p>Na realidade, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar \u00e9tica individual de \u00e9tica comunit\u00e1ria. Cada um de n\u00f3s, sabendo ou n\u00e3o, condiciona e \u00e9 condicionado pelos outros. N\u00e3o posso dizer que a minha \u00e9tica n\u00e3o tem nada a ver com a \u00e9tica comunit\u00e1ria. H\u00e1 tanto a fazer na comunidade pela comunidade que \u00e9 imperativo colaborarmos.<\/p>\n<p>\u00c9tica personalista<\/p>\n<p>H\u00e1 um aparente consenso em torno da ideia de que quando se fala de \u00e9tica fala-se de \u00e9tica personalista, a que est\u00e1 na base dos Direitos Humanos e da Constitui\u00e7\u00e3o Portuguesa, fundamentando-se na dignidade da pessoa humana.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 grandes d\u00favidas de que se deve obedecer \u00e0 \u00e9tica e vis\u00e3o personalista. A quest\u00e3o \u00e9 que, quando o direito de A colide com o de B \u2013 o que acontece muitas vezes \u2013 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel escolher o bem maior, sendo necess\u00e1rio optar pelo mal menor. H\u00e1 \u00e9tica na pol\u00edtica. A viola\u00e7\u00e3o \u00e9 sinal de que ela existe.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil ser pol\u00edtico<\/p>\n<p>Ser pol\u00edtico hoje \u00e9 mais complicado do que alguma vez foi. Somos membros de v\u00e1rias sociedades. H\u00e1 sobreposi\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o. Impera o relativismo, que diz que a verdade n\u00e3o \u00e9 de todo discern\u00edvel. Ao mesmo tempo exige-se a perfei\u00e7\u00e3o \u00e0 for\u00e7a, mesmo com comportamentos estereotipados. Para se ser pol\u00edtico \u00e9 preciso ter tr\u00eas qualidades &#8211; e n\u00e3o \u00e9 l\u00edquido que qualquer delas tenha car\u00e1cter \u00e9tico: imagem, resist\u00eancia f\u00edsica, resist\u00eancia ps\u00edquica.<\/p>\n<p>Esperan\u00e7a<\/p>\n<p>A \u00e9tica e a pol\u00edtica s\u00e3o indissoci\u00e1veis da esperan\u00e7a, embora hoje a pol\u00edtica n\u00e3o pense muito no futuro. A \u00e9tica \u00e9 intergeracional. Por exemplo, na ecologia, junta-se \u00e9tica e esperan\u00e7a no futuro.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica e cristianismo<\/p>\n<p>Como crist\u00e3o, vejo a rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \/ \u00e9tica na linha da \u201cGaudium et Spes\u201d [documento sobre a Igreja na sociedade contempor\u00e2nea], do II Conc\u00edlio do Vaticano: recusa da \u00e9tica individualista, porque o caminho da salva\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com os outros e n\u00e3o \u00e0 margem dos outros; obriga\u00e7\u00e3o de testemunho permanente nos espa\u00e7os p\u00fablicos num tempo de seculariza\u00e7\u00e3o (o tempo deixou de estar marcado pelo ritmo religioso) e de laiciza\u00e7\u00e3o (separa\u00e7\u00e3o de poderes do Estado e da Igreja).Vejo a actividade pol\u00edtica na linha de Pio XI, que falava em \u201ccaridade pol\u00edtica\u201d. A \u00e9tica personalista persegue o programa \u00e9tico radical das Bem-Aventuran\u00e7as.<\/p>\n<p>Europa sem esperan\u00e7a<\/p>\n<p>A Europa est\u00e1 velha. Velha n\u00e3o \u00e9 ter muita idade, \u00e9 n\u00e3o ser fecunda, tornando-se fechada, sem paci\u00eancia para os outros. A democracia perde muito se perde o sentido do servi\u00e7o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver democracias fortes se n\u00e3o forem solid\u00e1rias. Ego\u00edsmo \u00e9 envelhecer. A Europa foi rica e inspiradora quando foi generosa. Partidos intolerantes s\u00e3o sinal de fraqueza da Europa. Al\u00e9m disso, hoje a Europa \u00e9 comandada por pol\u00edticos pouco europe\u00edstas.<\/p>\n<p>Inst\u00e2ncias educadoras<\/p>\n<p>Estamos a assistir a mudan\u00e7as simult\u00e2neas brutais. As institui\u00e7\u00f5es que influenciaram a minha educa\u00e7\u00e3o foram, por esta ordem: Fam\u00edlia, Igreja, Escola, TV. Hoje, s\u00e3o: TV (ou, em alguns casos, Internet), Escola, Fam\u00edlia e Igreja \u2013 quando aparece. Para mais, estamos a assistir a uma descida do n\u00edvel cultural da televis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9tica dos eleitores<\/p>\n<p>A pol\u00edtica \u00e9 vista como lepra social. H\u00e1 uma falta de pedagogia para os valores da comunidade. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 coniv\u00eancia com os pol\u00edticos sem \u00e9tica: \u201cO homem faz. Interessa l\u00e1 como ele faz. Eu beneficio, tu beneficias\u2026\u201d Estes comportamentos n\u00e3o devem ser premiados. S\u00f3 l\u00e1 est\u00e3o porque os pusemos l\u00e1. S\u00f3 l\u00e1 ficam porque os deixamos l\u00e1.<\/p>\n<p>Pol\u00edticos admirados<\/p>\n<p>Na Europa, os chamados \u201cpais da Europa\u201d comunit\u00e1ria: Konrad Adenauer, Robert Schumann, Alcide de Gasperi, Jean Monnet. Agiram por idealismo e n\u00e3o por calculismo, num cen\u00e1rio dif\u00edcil e contra as opini\u00f5es p\u00fablicas. Ser estadista \u00e9, por vezes, estar contra a opini\u00e3o p\u00fablica em momentos-chave.<\/p>\n<p>Na Hist\u00f3ria de Portugal, \u00e9 f\u00e1cil: D. Jo\u00e3o II e P.e Ant\u00f3nio Vieira.<\/p>\n<p>No passado recente, os \u201cpais da p\u00e1tria\u201d, as figuras senatoriais como Adriano Moreira, que tem a capacidade de olhar para a hist\u00f3ria e para o futuro, distinguindo o essencial do acess\u00f3rio. Ramalho Eanes, que fez a transi\u00e7\u00e3o militar e, ap\u00f3s deixar fun\u00e7\u00f5es, um doutoramento para compreender a sociedade. M\u00e1rio Soares, europe\u00edsta convicto, defende a lusofonia \u00e0 sua maneira. Jorge Sampaio e as preocupa\u00e7\u00f5es sociais, ainda que por vezes muito te\u00f3rico. Adelino Amaro da Costa, o melhor orador do parlamento democr\u00e1tico, de uma criatividade incontida. Ern\u00e2ni Lopes e o personalismo social crist\u00e3o. Maria de Lourdes Pintasilgo, com o seu olhar de longo f\u00f4lego, a \u00f3ptica utopista. Sousa Franco, que de certa forma era um \u201cconjunturalista\u201d ing\u00e9nuo, teorizador da liberdade de ensino e da Doutrina Social da Igreja na Educa\u00e7\u00e3o e nos assuntos sociais.<\/p>\n<p>Esquerda cat\u00f3lica<\/p>\n<p>Falta uma esquerda social cat\u00f3lica. Identifica-se a Igreja Cat\u00f3lica apenas com certos quadrantes pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos. H\u00e1 muitos cat\u00f3licos de esquerda, mas sem r\u00f3tulo. Faz falta que se afirmem e estejam presentes nos debates da igreja, que \u00e9 plural.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que diz&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-17491","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17491","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17491"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17491\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17491"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17491"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17491"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}