{"id":1753,"date":"2010-06-09T10:19:00","date_gmt":"2010-06-09T10:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1753"},"modified":"2010-06-09T10:19:00","modified_gmt":"2010-06-09T10:19:00","slug":"ajudamos-as-criancas-a-quebrar-o-ciclo-da-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ajudamos-as-criancas-a-quebrar-o-ciclo-da-pobreza\/","title":{"rendered":"&#8220;Ajudamos as crian\u00e7as a quebrar o ciclo da pobreza&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Maria do C\u00e9u da Concei\u00e7\u00e3o criou h\u00e1 cinco anos um projecto para ajudar crian\u00e7as de Daca, capital do Bangladesh (ver www.the-catalyst.org). Hospedeira de uma companhia a\u00e9rea dos Emirados \u00c1rabes Unidos, ficou sensibilizada pela pobreza das crian\u00e7as de uma das cidades para onde a sua companhia voa e resolveu fazer algo para quebrar o ciclo da pobreza.<\/p>\n<p>Porque passou parte da sua inf\u00e2ncia em Avanca, visitou no dia 16 de Maio esta comunidade, que a recebeu em festa. No dia 20 de Maio, para fugir \u00e0 burocracia de Lisboa, foi criada em Aveiro uma associa\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 o suporte oficial para as actividades do seu projecto, que j\u00e1 tem dimens\u00e3o internacional. Ontem, em Lisboa, Maria do C\u00e9u da Concei\u00e7\u00e3o foi uma das oradoras do Encontro COTEC \u201cEmpreendedorismo Inovador na Di\u00e1spora Portuguesa\u201d. Na pr\u00f3xima sexta-feira, 11 de Junho, Maria da Concei\u00e7\u00e3o estar\u00e1 na Esc. Sec. M\u00e1rio Sacramento, em Aveiro. A sess\u00e3o, aberta \u00e0 comunidade, \u00e9 \u00e0s 15h. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Estava \u00e0 espera da recep\u00e7\u00e3o que teve em Avanca?<\/p>\n<p>MARIA DA CONCEI\u00c7\u00c3O &#8211; Foi uma grande surpresa, na terra em que vivi desde os dois anos, de 1979 a 1987. Fiquei muito sensibilizada com a comunidade de Avanca. Muito grata. Foram muito generosos. Ofereceram o dinheiro do ofert\u00f3rio da Missa desse dia para o projecto. O P.e Jos\u00e9 Henriques quer envolver todas as crian\u00e7as da catequese para que cada uma ponha num mega mealheiro um euro por m\u00eas para ajudar as nossas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Nesta sua passagem por Aveiro, falou com universit\u00e1rios. Espera algo da Universidade?<\/p>\n<p>Fal\u00e1mos do nosso trabalho, de como come\u00e7amos e dos projectos para o futuro. Estamos a tentar associar as universidades. N\u00e3o temos professores do secund\u00e1rio em Daca. Por isso, vamos \u00e0s universidades e pedimos para nos enviarem professores, m\u00e9dicos, enfermeiros\u2026 Tamb\u00e9m gostar\u00edamos de criar programas de forma\u00e7\u00e3o espec\u00edficos para oferecer bolsas a pessoas de l\u00e1 que venha c\u00e1 formar-se. Para isso, criamos [no dia 20 de Maio] a Maria Concei\u00e7\u00e3o Project Association, entidade jur\u00eddica que vai ser a base formal para os projectos.<\/p>\n<p>Ficou surpreendida com o eco dos projectos?<\/p>\n<p>Quando come\u00e7\u00e1mos, h\u00e1 cinco anos, n\u00e3o imagin\u00e1vamos que iriam falar de n\u00f3s. Agora pensamos que se quisermos voar mais alto, temos de ter um nome global.<\/p>\n<p>Tudo o que fizemos fizemos porque havia necessidade de ajudar. Como cidad\u00e3 do mundo ou portuguesa, era dif\u00edcil virar as costas e n\u00e3o ajudar aquelas crian\u00e7as. N\u00e3o o fizemos para ter reconhecimento, nem para ganhar pr\u00e9mios ou outras surpresas. Ficamos muito contentes com esta visibilidade, porque significa que vamos poder aumentar a nossa ajuda. E quem vai beneficiar disto? As crian\u00e7as mas tamb\u00e9m os pais delas e as sucessivas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou porque, um dia, no seu trabalho de hospedeira visitou um bairro pobre. J\u00e1 algu\u00e9m sugeriu que ficou sens\u00edvel para a pobreza por ter tido uma inf\u00e2ncia que tamb\u00e9m passou por dificuldades\u2026 \u00c9 assim?<\/p>\n<p>A atitude de arrega\u00e7ar as mangas e fazer algo, mesmo sem ter nada, sim, vem da minha educa\u00e7\u00e3o. A senhora que me adoptou era de cor. Veio de Angola, fugindo da guerra. Foi viver para Avanca, pobre, com os filhos, praticamente s\u00f3 com a roupa que vestia. A comunidade teve que a ajudar. Dois anos depois conheceu a minha m\u00e3e. O meu pai tinha morrido e a minha m\u00e3e verdadeira estava a ter dificuldades em encontrar trabalho e me sustentar. A minha \u201cm\u00e3e\u201d Cristina, com seis filhos, a fazer uma hora aqui e outra ali como empregada dom\u00e9stica, adoptou-me. Ela dizia: \u201cQuem d\u00e1 comida a seis d\u00e1 comida a sete\u201d. \u201cO que os meus filhos comerem, a Maria tamb\u00e9m come\u201d. Claro que aquilo fica marcado na personalidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 muita gente que v\u00ea os problemas do mundo e pensa: \u201cA gente n\u00e3o consegue fazer nada. Somos impotentes\u201d. As pessoas pensam: \u201cN\u00e3o tenho possibilidades, n\u00e3o tenho estatuto, n\u00e3o tenho educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tenho dinheiro, n\u00e3o \u00e9 o meu dever, o governo \u00e9 que devia fazer\u201d. \u00c9 sempre o governo. Nunca \u00e9 a nossa responsabilidade de cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>O que penso que apanhei em Avanca e que formou o meu car\u00e1cter foi a generosidade: do nada pode-se fazer muito; fazendo t\u00e3o pouco podemos enriquecer a vida de outra pessoa, como enriqueceram a minha, pelo que agora posso retribuir e enriquecer a vida dos outros.<\/p>\n<p>Teve o reconhecimento do Presidente da Rep\u00fablica, que a recebeu no dia 17 de Maio\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 uma grande honra saber que o Presidente da Rep\u00fablica quis conhecer o nosso trabalho humanit\u00e1rio. D\u00e1 mais credibilidade e asas para voar mais alto.<\/p>\n<p>Mas no Bangladesh n\u00e3o reconhecem o seu trabalho. Tem tido muitas dificuldades\u2026<\/p>\n<p>No Bangladesh \u00e9 uma luta di\u00e1ria para fazer algo. O meu trabalho \u00e9 reconhecido em Portugal e nos Emiratos \u00c1rabes Unidos, mas no Bangladesh, n\u00e3o. Resist\u00eancias, resist\u00eancias e resist\u00eancias, na alf\u00e2ndega, nos bancos&#8230; Temos uma conta para onde nos enviam dinheiro, mas depois n\u00e3o conseguimos provar que o dinheiro est\u00e1 l\u00e1. A seguir o banco devolve-o \u00e0 origem, mas entretanto fica com os custos do processo. Outra dificuldade tem a ver com os vistos.<\/p>\n<p>Mas esses obst\u00e1culos t\u00eam a ver com o pa\u00eds ou com a sua pessoa em concreto?<\/p>\n<p>As duas coisas. Por um lado, sou uma mulher a liderar homens, o que \u00e9 mal visto. Por outro, o pa\u00eds n\u00e3o quer expor as suas dificuldades. H\u00e1 pessoas que enriquecem \u00e0 custa do trabalho infantil. Naturalmente n\u00e3o est\u00e3o interessadas na educa\u00e7\u00e3o infantil. H\u00e1 tamb\u00e9m a dificuldade da mentalidade. Costumo comparar a situa\u00e7\u00e3o ao elefante do circo. Quando \u00e9 pequeno prendem-no a uma estaca e ele n\u00e3o consegue libertar-se. O elefante cresce, fica grande e forte e poderia libertar-se facilmente, mas n\u00e3o o faz, porque est\u00e1 condicionado. Os adultos tamb\u00e9m est\u00e3o condicionados por certas ideias, como a do casamento das raparigas quando chegam \u00e0 adolesc\u00eancia. Temos de come\u00e7ar a mudar os bloqueios pela inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Quantas crian\u00e7as est\u00e3o agora no projecto?<\/p>\n<p>Temos 550 crian\u00e7as na escola. O problema agora \u00e9 que n\u00e3o tenho recursos para dar o salto. N\u00e3o temos professores para prosseguir. Gra\u00e7as \u00e0 nossa ajuda quatro adultos aprenderam e arranjaram empregos qualificados. N\u00f3s achamos que \u00e9 muito pouco, mas algumas pessoas dizem que j\u00e1 \u00e9 um sucesso. Eu penso que ainda s\u00e3o poucas flores num imenso charco.<\/p>\n<p>Essas resist\u00eancias t\u00eam levado a pensar que poderia fazer um projecto semelhante no Brasil\u2026<\/p>\n<p>Sim, no Brasil, vai haver as Olimp\u00edadas e o Campeonato do Mundo de Futebol e o governo est\u00e1 a tentar diminuir a pobreza das favelas. Pensamos que l\u00e1 poder\u00edamos fazer muito mais, at\u00e9 porque n\u00e3o h\u00e1 barreira da l\u00edngua, da cultura, da religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Como concilia o trabalho de hospedeira, de hor\u00e1rio incerto, com o voluntariado? <\/p>\n<p>Com sess\u00f5es de 20, 30 ou 40 horas sem dormir. Quando v\u00eaem que a Maria est\u00e1 de mau humor, j\u00e1 sabem do que \u00e9. Se estou 24 horas em Nova Iorque, podem pensar \u201cQue maravilha, anda a passear\u201d, mas n\u00e3o, passo muito tempo na Internet a tratar de assuntos do projecto.<\/p>\n<p>Quanto est\u00e1 a trabalhar, os passageiros reconhecem-na?<\/p>\n<p>Por vezes isso acontece, at\u00e9 porque sa\u00edram artigos sobre mim nas revistas da companhia. E sou ainda mais reconhecida pelos funcion\u00e1rios da companhia. No fundo, sou uma empregada de mesa a 39 mil p\u00e9s de altitude. Tive de ultrapassar a minha timidez e contactar pilotos para arranjar bens para as minhas crian\u00e7as: \u201cTem fam\u00edlia no Dubai [cidade base da companhia]? Pode dar-me a roupa dos seus filhos? Pode dar-me livros, brinquedos?\u201d Eu falava com os comiss\u00e1rios e pedia que me trouxessem coisas que n\u00e3o utilizavam dos hot\u00e9is. Quando me perguntavam: \u201cO que fazes?\u201d Eu falava do meu trabalho em Daca e a palavra foi passando. E comecei a ter muitas volunt\u00e1rias que passaram a recolher bens. Era uma maneira de arranjarem conversa com os pilotos [risos]&#8230; A sorte grande saiu-me quando um piloto de ascend\u00eancia portuguesa visitou o projecto e reconheceu nas crian\u00e7as as roupas que a sua mulher tinha dado. Ficou emocionado e mandou e-mails a todos os pilotos a dizer: \u201cT\u00eam que ajudar a Maria porque ela est\u00e1 a fazer algo\u201d. Foi a\u00ed que o projecto explodiu. O meu quarto ficou transformado num armaz\u00e9m de material. Come\u00e7aram a chegar volunt\u00e1rios. Uma jornalista do Dubai falou do projecto e isto tornou-se impar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tem tido ajuda de organiza\u00e7\u00f5es internacionais?<\/p>\n<p>Temos batido a muitas portas, mas a ajuda tem sido recusada. Um exemplo, o Programa Alimentar das Na\u00e7\u00f5es Unidas n\u00e3o nos d\u00e1 alimentos por estarmos numa zona urbana. Envi\u00e1mos cartas e mais cartas. As respostas negativas s\u00e3o como pedras que j\u00e1 d\u00e3o para construir um castelo. As nossas ajudas v\u00eam sempre de pessoas ou empresas particulares.<\/p>\n<p>Quanto custa ajudar uma crian\u00e7a?<\/p>\n<p>Patrocinar uma crian\u00e7a custa 200 euros por ano. D\u00e1 para o estudo, alimenta\u00e7\u00e3o e renda da casa. Um euro compra cinco quilos de arroz ou 50 bananas, que \u00e9 o alimento para o pequeno-almo\u00e7o.<\/p>\n<p>S\u00f3 temos uma oportunidade para educar uma crian\u00e7a. N\u00e3o podemos deixar que passe. O nosso trabalho \u00e9 dar \u00e0s crian\u00e7as a oportunidade de crescer, evoluir e quebrar o ciclo da pobreza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria do C\u00e9u da Concei\u00e7\u00e3o criou h\u00e1 cinco anos um projecto para ajudar crian\u00e7as de Daca, capital do Bangladesh (ver www.the-catalyst.org). 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