{"id":17530,"date":"2011-06-15T10:45:00","date_gmt":"2011-06-15T10:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17530"},"modified":"2011-06-15T10:45:00","modified_gmt":"2011-06-15T10:45:00","slug":"ninguem-existe-para-viver-sozinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ninguem-existe-para-viver-sozinho\/","title":{"rendered":"Ningu\u00e9m existe para viver sozinho"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> O domingo de Pentecostes festejou a comunh\u00e3o, animada pelo fogo alegre e pacificador do esp\u00edrito divino. <\/p>\n<p>Pouco a pouco, por\u00e9m, come\u00e7ou a guerra das \u00abc\u00e1tedras\u00bb: Quem deve ter a \u00abcadeira\u00bb principal? (1Cor\u00edntios 1,12-13). Quem tem o melhor discurso sobre Deus? Quem tem a melhor experi\u00eancia de Deus?&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 muita confus\u00e3o entre autoridade e poder \u2013 que n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa: a \u00abautoridade\u00bb \u00abaumenta\u00bb (do mesmo radical \u00abaug\u00bb) tudo o que \u00e9 bom; o \u00abpoder\u00bb \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o de for\u00e7a para impor. Mas, em verdade, a imposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria ser necess\u00e1ria: \u00e9 o resultado de o ser humano n\u00e3o saber gerir a sua liberdade, tornando-se \u00abo homem lobo para o homem\u00bb; s\u00f3 se justifica perante situa\u00e7\u00f5es de incapacidade para procurar o pr\u00f3prio bem ou o bem comum \u2013 \u00e9 preciso impor \u00e0 crian\u00e7a, ao doente, e em geral a quem n\u00e3o hesita perante comportamentos agressivos que destroem a conviv\u00eancia. Mas se \u00e9 um poder que \u00abaumenta\u00bb o bem,  nessa medida tem o estatuto supremo de \u00abautoridade\u00bb.<\/p>\n<p>A tentativa de descrever Deus como \u00abuno e trino\u00bb revela como o mist\u00e9rio de Deus fica sempre infinitamente al\u00e9m do discurso humano mais l\u00f3gico e cultivado. Resta-nos a consci\u00eancia de que a nossa \u00abcomplica\u00e7\u00e3o\u00bb pode ser bem intencionada\u2026 na medida em que procura a \u00abextrema simplicidade\u00bb de Deus. (C\u00e1 entre n\u00f3s e \u00e0 boca pequena: quem \u00e9 que gostaria de viver com um Deus \u00abcomplicado\u00bb? Se j\u00e1 nos queixamos de passar a vida com gente complicada \u2013 sobretudo se se vive na mesma casa\u2026). Nessa linha \u00e9 que Jesus Cristo prop\u00f4s: que o vosso sim seja sim, e o n\u00e3o seja n\u00e3o \u2013 muito palavreado d\u00e1 lugar \u00e0s ervas daninhas\u2026 <\/p>\n<p>Pois esta \u00abcomplicada\u00bb afirma\u00e7\u00e3o de Deus \u00abuno e trino\u00bb deu origem a uma festa, no s\u00e9c. XIV: o Domingo da Sant\u00edssima Trindade. <\/p>\n<p>Por\u00e9m, nenhuma f\u00f3rmula teol\u00f3gica, nem as palavras da B\u00edblia, podem ser \u00abidolatradas\u00bb como possuindo uma for\u00e7a m\u00e1gica, \u00abditadas\u00bb pelo pr\u00f3prio Deus e por isso inatac\u00e1veis (o desejo humano de possuir \u00abrel\u00edquias de Deus\u00bb \u00e9 comum a v\u00e1rias religi\u00f5es). O valor simb\u00f3lico de ideias e imagens antigas pode ser reavivado continuamente, com muito proveito espiritual e cultural, mas sem nos fixarmos nessas f\u00f3rmulas: correr\u00edamos o risco de esperar \u00abresultados m\u00e1gicos\u00bb, sem nos comprometermos neste mundo em mudan\u00e7a; e de n\u00e3o descobrirmos como a sabedoria do passado pode alimentar uma vida espiritual cada vez mais adulta. A experi\u00eancia religiosa do passado da Humanidade deve suscitar em n\u00f3s o desejo de novas experi\u00eancias religiosas, com a linguagem adequada aos problemas que vivemos. <\/p>\n<p>O respeito que nos merecem a arte e os textos mais antigos do cristianismo exige que saibamos descobrir neles, pela nossa intelig\u00eancia e pelo nosso cora\u00e7\u00e3o, o essencial da experi\u00eancia religiosa que lhes deu origem. Segundo muitos especialistas, Deus-Trindade \u00e9 uma tentativa de reflectir a multiforme ac\u00e7\u00e3o de Deus na hist\u00f3ria humana. Confessamos que Deus, fundamento de toda a exist\u00eancia, a quem Jesus se referia carinhosamente como Pai (\u00abAbba\u00bb \u2013 uma \u00abautoridade\u00bb e n\u00e3o um \u00abpoder\u00bb) , se tornou sens\u00edvel, historicamente identific\u00e1vel, nesse mesmo Jesus. E ao seu amor t\u00e3o forte e t\u00e3o acima dos condicionamentos humanos, chamamos Esp\u00edrito (\u00absopro de vida\u00bb) \u2013 a For\u00e7a que Jesus prometeu que estaria sempre a nosso lado, mas implica vontade aut\u00eantica de nos ligarmos com Deus.<\/p>\n<p>Existencialmente, o mist\u00e9rio da Trindade diz que vida \u00e9 incompat\u00edvel com solid\u00e3o ou ego\u00edsmo. Arriscando mais uma pobre express\u00e3o do Homem sobre Deus, dir\u00edamos que \u00abnem Deus podia existir sozinho\u00bb. Nem se contentou com ser aquele \u00abrelojoeiro\u00bb que construiu o universo e quando muito lhe d\u00e1 corda para se expandir ou contrair segundo \u00ableis\u00bb que n\u00f3s tentamos descobrir; nem \u00e9 apenas a metaf\u00edsica \u00aboposi\u00e7\u00e3o ao nada\u00bb, que sustenta a exist\u00eancia de todas coisas.<\/p>\n<p>O \u00fanico e grande mist\u00e9rio permanece o mesmo e sempre debaixo dos nossos olhos: \u00e9 um Deus que n\u00e3o atrapalha a nossa vida e nos convida a falar com ele, atrav\u00e9s das hist\u00f3rias mais tristes e mais alegres, atrav\u00e9s das calamidades com que a natureza ou os seres humanos nos surpreendem. Deixou-se revelar como \u00abo membro mais querido da fam\u00edlia\u00bb, respeitador do bom ou mau humor dos \u00abfilhos\u00bb, e cujo grande prazer \u00e9 que, com t\u00e3o grandes diferen\u00e7as, saibamos organizar uma grande festa de fam\u00edlia, onde ningu\u00e9m se sinta a viver sozinho\u2026<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-17530","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17530","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17530"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17530\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17530"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17530"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17530"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}