{"id":17536,"date":"2011-06-22T09:29:00","date_gmt":"2011-06-22T09:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17536"},"modified":"2011-06-22T09:29:00","modified_gmt":"2011-06-22T09:29:00","slug":"e-preciso-repensar-as-manifestacoes-religiosas-populares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/e-preciso-repensar-as-manifestacoes-religiosas-populares\/","title":{"rendered":"\u00c9 preciso repensar as manifesta\u00e7\u00f5es religiosas populares"},"content":{"rendered":"<p>D. Ant\u00f3nio Vitalino, Bispo de Beja e presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Mobilidade Humana, fala sobre da import\u00e2ncia da piedade popular e do seu entendimento, \u00e0 luz da f\u00e9 e da necessidade de festa. Para este respons\u00e1vel, \u00e9 fundamental que a f\u00e9 e a festa se encontrem e se promova uma s\u00edntese que n\u00e3o deixe de lado a verdadeira motiva\u00e7\u00e3o religiosa. Entrevista conduzida por Lu\u00eds Filipe Santos, da Ag\u00eancia Ecclesia. <\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA \u2013 Durante o Ver\u00e3o, as festas e prociss\u00f5es s\u00e3o uma constante nas par\u00f3quias portuguesas. Na linha do documento dos bispos \u00abRepensar juntos a Pastoral da Igreja em Portugal\u00bb, o cap\u00edtulo da religiosidade popular tem sido estudado?<\/p>\n<p>D. ANT\u00d3NIO VITALINO \u2013 A religiosidade popular tem de ser repensada e renovada. Com o fluxo dos tempos inserem-se aspectos que n\u00e3o prov\u00eam da inspira\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica. No entanto, n\u00e3o se pode colocar de lado que o homem necessita de festas, romarias e peregrina\u00e7\u00f5es. A religiosidade popular tem a particularidade de lhe dar esses s\u00edmbolos concretos.<\/p>\n<p>Em Portugal realizam-se muitas festas, mas a principal prociss\u00e3o \u00e9 a do \u00abCorpo de Deus\u00bb. A Eucaristia \u00e9 o centro de toda a religiosidade crist\u00e3. Depois, v\u00eam as festas de Nossa Senhora e em honra dos santos dos padroeiros. Todavia, nem sempre elas est\u00e3o, totalmente, sintonizadas com o objectivo de honrar o padroeiro.<\/p>\n<p>Muitas vezes, o lado l\u00fadico prevalece em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vertente religiosa.<\/p>\n<p>O lado l\u00fadico e cultural \u00e9 necess\u00e1rio, mas as motiva\u00e7\u00f5es das festas nem sempre s\u00e3o as mais correctas. Nem sempre, as pessoas que se juntam para uma festa t\u00eam mesma f\u00e9 e vis\u00e3o festiva. Mas h\u00e1 uma coisa que as une: o desejo de conviver com os outros e de alegrar-se com as outras pessoas. Se repararmos, o Natal tem muita religiosidade popular \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>Mas um Natal tem um momento preparat\u00f3rio &#8211; o Advento -, suponho que tal n\u00e3o acontece em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s festas em honra do padroeiro?<\/p>\n<p>Antigamente havia\u2026 Nalguns lados ainda existe o tr\u00edduo preparat\u00f3rio, mas \u00e9 concorrido por pouca gente. Noutros, a festa da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o \u00e9 preparada por uma novena.<\/p>\n<p>Prepara-se a festa mais do lado exterior (arranjos dos andores e outras coisas) do que do lado interior. O aspecto econ\u00f3mico, cultural e l\u00fadico prevalece.<\/p>\n<p>Os p\u00e1rocos est\u00e3o sensibilizados para alterar a vertente preparat\u00f3ria da festa?<\/p>\n<p>Alguns est\u00e3o. Outros menos. \u00c9 sempre altura de muito cansa\u00e7o porque se acrescenta algo \u00e0quilo que \u00e9 o dia-a-dia. Dada a escassez do clero, h\u00e1 muita dificuldade em encontrar padres dispon\u00edveis para ajudar.<\/p>\n<p>E os crist\u00e3os conhecem a hist\u00f3ria do santo\/a que celebram?<\/p>\n<p>Alguns dos santos t\u00eam s\u00e9culos e nem sempre se sabe a vida deles. Mas h\u00e1 aspectos que passaram para a mentalidade do povo e sabem, sobretudo, do que \u00e9 que eles s\u00e3o padroeiros. Sabem que a Santa B\u00e1rbara \u00e9 padroeira dos mineiros, S\u00e3o Sebasti\u00e3o \u00e9 das pestes\u2026 \u00c0s vezes, fazem-se serm\u00f5es \u00e0 volta da vida do padroeiro, s\u00f3 que no ambiente de festa exterior nem tudo se ouve e percebe\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental a renova\u00e7\u00e3o pastoral para que os crist\u00e3os sejam mais adultos na f\u00e9.<\/p>\n<p>Neste repensar \u00e9 preciso muito cuidado, sobretudo quando se mexe na religiosidade popular. Por vezes, as pessoas herdaram as tradi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o est\u00e3o abertas \u00e0 novidade. Dizem: \u00absempre foi assim e vai continuar assim\u00bb.<\/p>\n<p>Este processo exige muito di\u00e1logo e prepara\u00e7\u00e3o. \u00c9 fundamental evitar tocar em aspectos sens\u00edveis ou, ent\u00e3o, explicar e ver se a reac\u00e7\u00e3o \u00e9 positiva. Outras vezes deve-se permutar com outro aspecto que seja mais realista. N\u00e3o se deve entrar em choque.<\/p>\n<p>N\u00e3o considera que o evangelho, muitas vezes, \u00e9 servido de \u00abforma enlatada\u00bb e sem novidade?<\/p>\n<p>Na pastoral temos de usar os meios todos, mesmo os meios interactivos. Confesso que fa\u00e7o muita coisa atrav\u00e9s do email porque \u00e9 mais personalizado. Atrav\u00e9s deles fa\u00e7o forma\u00e7\u00e3o e catequiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto \u00e9 urgente educar\u2026<\/p>\n<p>\u00c0s vezes acontecem problemas devido \u00e0 educa\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. Isto \u00e9 um processo lento, visto que s\u00e3o tradi\u00e7\u00f5es que cristalizaram durante s\u00e9culos. Muitas vezes, as raz\u00f5es dos padres ainda n\u00e3o se tornaram as raz\u00f5es das pessoas. Faz parte da sensibilidade profunda religiosa das pessoas.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o sacrificial ainda existe no povo?<\/p>\n<p>Basta ver F\u00e1tima.<\/p>\n<p>Mas a realidade de F\u00e1tima \u00e9 diferente\u2026<\/p>\n<p>Nas prociss\u00f5es tamb\u00e9m temos pessoas que fazem promessas. Ainda existe o aspecto de sacrif\u00edcio, mas nota-se que, actualmente, a devo\u00e7\u00e3o e religiosidade das pessoas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o profunda. Quando entregam esmolas ou velas \u00e9 porque acharam que foi por intercess\u00e3o do santo que se evitou tal mal ou curou-se tal doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Nos momentos de crises, como o vivido actualmente, as promessas aumentam?<\/p>\n<p>Se a crise atinge a pessoa e a fam\u00edlia, as promessas aumentam. Tentam superar a crise atrav\u00e9s de promessas ou novenas.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o do Alentejo tem algum santo predilecto?<\/p>\n<p>\u00c9 Nossa Senhora com os mais diferentes t\u00edtulos: Concei\u00e7\u00e3o, Guadalupe, Cola, Penha, Gra\u00e7a e Carmo.<\/p>\n<p>Os alentejanos s\u00e3o mais marianos do que cristol\u00f3gicos?<\/p>\n<p>Maria est\u00e1 mais difundida no Alentejo, mas tamb\u00e9m existem muitas festas em honra do Sant\u00edssimo Sacramento. Na cidade de Beja, o \u00abCorpo de Deus\u00bb \u00e9 a festa por excel\u00eancia. Nossa Senhora \u00e9 aquela que tem mais festas nas par\u00f3quias. No entanto, no m\u00eas de Maio e Outubro introduziu-se muito a devo\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora de F\u00e1tima.<\/p>\n<p>Quando se realizam as festas as igrejas est\u00e3o cheias. E nos outros domingos?<\/p>\n<p>No Alentejo, as mulheres e crian\u00e7as v\u00e3o \u00e0 igreja. Os homens ficam c\u00e1 fora \u00e0 espera da prociss\u00e3o. Por isso, n\u00e3o diria que no dia da festa tem muito mais gente na igreja. Os homens, quando as festas t\u00eam a parte folcl\u00f3rica, est\u00e3o ocupados na organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a dimens\u00e3o do voluntariado. A igreja tem sensibilizado para esta \u00e1rea?<\/p>\n<p>As festas trabalham muito com o voluntariado: limpar, organizar e adornar.<\/p>\n<p>A viv\u00eancia da religiosidade popular n\u00e3o \u00e9 o lado infantilizado da f\u00e9?<\/p>\n<p>N\u00e3o diria que \u00e9 infantil, mas uma express\u00e3o \u2013 para alguns um pouco infantil ainda \u2013 adulta da f\u00e9. As pessoas saem do espa\u00e7o lit\u00fargico (do templo) e v\u00e3o para a rua. Sabemos que em meios adversos as pessoas s\u00e3o apontadas.<\/p>\n<p>Ainda existe esse estigma?<\/p>\n<p>No Alentejo sim. Em algumas partes criou-se a mentalidade que o homem n\u00e3o deve ir \u00e0 igreja. Muitas vezes afirmo: \u201cO alentejano fora do Alentejo \u00e9 um crist\u00e3o muito empenhado\u201d. Basta ver na grande Lisboa e nas migra\u00e7\u00f5es, o empenho dos alentejanos.<\/p>\n<p>T\u00eam medo de professar a sua f\u00e9?<\/p>\n<p>As pessoas agem por motiva\u00e7\u00f5es e press\u00f5es sociais. Evitamos fazer determinadas coisas quando somos marginalizados. Mas aqueles que participam mostram que s\u00e3o adultos e n\u00e3o t\u00eam medo de enfrentar as cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Quando se realiza a festa, as localidades recebem os \u00abfilhos da terra\u00bb que migraram.<\/p>\n<p>Normalmente, os conterr\u00e2neos voltam a terra natal. Muitos, fazem quest\u00e3o de marcar as f\u00e9rias na altura das festas da sua terra. Outros marcam casamentos e baptismos para esse tempo. Como est\u00e3o ausentes muito tempo do ano, n\u00e3o recebem a catequiza\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, \u00abarmam\u00bb conflitos porque n\u00e3o acompanharam o processo.<\/p>\n<p>Nesses casos, o bispo desempenha um papel moderador.<\/p>\n<p>Recebo cartas, telefonemas e delega\u00e7\u00f5es. Em primeiro lugar, tenho de ouvir o padre e aconselh\u00e1-lo. Depois tento que as pessoas resolvam o problema em paz. \u00c0s vezes, os padres t\u00eam de ceder para evitar conflitos de maior. \u00c9 um trabalho que temos de fazer ao longo do ano: formar e informar as pessoas sobre o evangelho.<\/p>\n<p>O documento \u00abRepensar juntos a Pastoral da Igreja em Portugal\u00bb foi publicado h\u00e1 cerca de um ano. J\u00e1 existem directivas ap\u00f3s este tempo de reflex\u00e3o?<\/p>\n<p>As dioceses e grupos enviaram as respostas sobre as luzes e sombras pastorais at\u00e9 ao final de Mar\u00e7o. Na diocese de Beja \u2013 apesar de ser dispersa \u2013 convid\u00e1mos os colaboradores de todas as par\u00f3quias (n\u00e3o apenas o conselho pastoral) para ouvir as suas propostas.<\/p>\n<p>O que retiraram desses trabalhos?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, que a igreja tem de ouvir mais os leigos. N\u00e3o pode ser o bispo a ditar ou o seu conselho presbiteral, mas coordenar. Temos de ouvir e assumir muita coisa porque Deus fala por todos.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma sombra que poder\u00e1 tornar-se luz brevemente?<\/p>\n<p>Poder\u00e1 tornar-se luz se mudarmos a nossa pr\u00e1tica pastoral. Os leigos n\u00e3o est\u00e3o sempre dispon\u00edveis para tudo, mas temos alguns que colaboram e est\u00e3o muito dispostos desde que sejam escutados.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o sejam considerados crist\u00e3os de segunda?<\/p>\n<p>De segunda ou \u00abpaus mandados\u00bb. O padre n\u00e3o pode ser o \u00abfaz tudo\u00bb. Mais vale fazer pouco, mas com os outros do que ir sozinho. Quando as pessoas ficam para tr\u00e1s, n\u00e3o se constr\u00f3i igreja. A comunidade constr\u00f3i-se com as pessoas. A igreja tem de agir de maneira sinodal.<\/p>\n<p>Os m\u00e9todos de evangeliza\u00e7\u00e3o t\u00eam de mudar muito. N\u00e3o podem ser s\u00f3 os tradicionais de debitar um catecismo ou uma homilia. Bento XVI falou-nos no \u00abdinamismo dos movimentos\u00bb. Se calhar temos de apostar no dinamismo da fam\u00edlia, dos pequenos grupos e dos servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Por outro lado, temos de ultrapassar o juridismo e burocracia geogr\u00e1fica paroquial porque, actualmente, existe uma grande mobilidade humana.<\/p>\n<p>Perante estes dados, conclui-se que a igreja tem mesmo de repensar a sua pastoral?<\/p>\n<p>Est\u00e1 na \u00abHora H\u00bb. O II Conc\u00edlio do Vaticano alertou-nos, mas essa renova\u00e7\u00e3o ficou muito no aspecto lit\u00fargico. A vida crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 apenas o aspecto lit\u00fargico. No acompanhamento da f\u00e9 dos adultos e da fam\u00edlia fizemos pouco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Ant\u00f3nio Vitalino, Bispo de Beja e presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Mobilidade Humana, fala sobre da import\u00e2ncia da piedade popular e do seu entendimento, \u00e0 luz da f\u00e9 e da necessidade de festa. 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