{"id":17612,"date":"2011-06-22T10:10:00","date_gmt":"2011-06-22T10:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17612"},"modified":"2011-06-22T10:10:00","modified_gmt":"2011-06-22T10:10:00","slug":"familia-em-foco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/familia-em-foco\/","title":{"rendered":"Fam\u00edlia em foco"},"content":{"rendered":"<p>Neste espa\u00e7o mensal da responsabilidade do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas (ISCRA), P.e Georgino Rocha aborda a tem\u00e1tica familiar. A Fam\u00edlia, como \u00e9 p\u00fablico, estar\u00e1 em foco na pr\u00f3xima etapa pastoral diocesana.<\/p>\n<p>O que fundamenta o reconhecimento da fam\u00edlia como c\u00e9lula base da sociedade? Isto \u00e9 uma especificidade crist\u00e3?<\/p>\n<p>O reconhecimento jur\u00eddico da fam\u00edlia \u00e9 de extrema import\u00e2ncia, sobretudo numa \u00e9poca civilizacional em tr\u00e2nsito. De contr\u00e1rio, fica exposta \u00e0 sua pr\u00f3pria fragilidade perante grupos de press\u00e3o aguerrida, de redes virtuais ou de outros grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, perante medidas legais e pr\u00e1ticas pol\u00edticas fracturantes. <\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 a fam\u00edlia, qual \u00e9 a verdade do seu ser que configura os rostos familiares que v\u00e3o surgindo ao longo da hist\u00f3ria? Encontrar respostas a estas perguntas \u00e9 avan\u00e7ar nos fundamentos do reconhecimento pretendido.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia \u00e9 uma realidade humana e social, alicer\u00e7ada no amor de doa\u00e7\u00e3o entre um homem e uma mulher, seres com individualidade pr\u00f3pria e sociabilidade espec\u00edfica, que vivem uma rela\u00e7\u00e3o est\u00e1vel e definitiva, rec\u00edproca e complementar, aberta ao amor fecundo, respons\u00e1vel e generoso. <\/p>\n<p>Esta compreens\u00e3o \u00e9 a que melhor corresponde ao ser humano enquanto indiv\u00edduo solid\u00e1rio e \u00e0 sociedade enquanto organiza\u00e7\u00e3o impregnada por aquela sociabilidade relacional. A configura\u00e7\u00e3o de cada uma, seja em que \u00e9poca for da hist\u00f3ria, n\u00e3o pode desvirtuar estes elementos b\u00e1sicos, mas deve facilitar a realiza\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es que a ambas est\u00e3o atribu\u00eddas pela natureza, pelas culturas e religi\u00f5es. Estas fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o redesenhadas, mas n\u00e3o adulteradas, pelos projectos dos protagonistas em novos contextos sociais ou pelo direito positivo. <\/p>\n<p>Esta realidade, sendo designada de v\u00e1rios modos, encontra-se praticamente em todas as civiliza\u00e7\u00f5es, segundo estudos feitos por diversos ramos das ci\u00eancias, designadamente da antropologia cultural. O cora\u00e7\u00e3o humano, no seu n\u00facleo mais profundo, \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o familiar e aspira a viver numa fam\u00edlia, onde o masculino adquire rosto paterno e o feminino toma as fei\u00e7\u00f5es maternas, onde o amor conjugal se abre com naturalidade \u00e0 fecundidade e faz brilhar novos perfis da masculinidade e da feminilidade, os filhos.<\/p>\n<p>O reconhecimento e apre\u00e7o, a consist\u00eancia e o vigor desta realidade n\u00e3o s\u00e3o apenas como os de um c\u00e9lula em rela\u00e7\u00e3o ao organismo \u2013 como pretendem alguns biologistas -, mas lan\u00e7a ra\u00edzes mais profundas na compreens\u00e3o do ser humano na harmonia do seu todo, no respeito pela sua individualidade e autonomia, na rela\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria com outras pessoas organizadas em sociedade e na abertura ao Infinito de Deus que faz da consci\u00eancia de cada uma o espa\u00e7o preferido de encontro interpessoal.<\/p>\n<p>A express\u00e3o pertence ao soci\u00f3logo franc\u00eas Le Play que, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia, exerceu uma forte influ\u00eancia em Le\u00e3o XIII, ganhou \u201cestatuto\u201d, mas vem sempre enriquecida com novas refer\u00eancias. <\/p>\n<p>A especificidade crist\u00e3 n\u00e3o altera em nada a realidade, mas descobre uma dimens\u00e3o profunda: o olhar mergulha na interioridade de cada um e abre-se \u00e0 transcend\u00eancia de Deus que se manifesta de tantos modos, especialmente em Jesus Cristo e, a partir dele, na Igreja e nos seus sacramentos. O que est\u00e1 velado torna-se manifesto. A fam\u00edlia natural converte-se em igreja dom\u00e9stica. <\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o da Igreja nos temas da fam\u00edlia \u00e9 fruto desta novidade, que brilha em Jesus Cristo, e da reflex\u00e3o de tantos s\u00e9culos de hist\u00f3ria em que pessoas dotadas de raz\u00e3o s\u00e1bia mergulharam nos segredos da natureza, os desvendaram e lhes deram nome. Paulo VI, em documento not\u00e1vel de 1970, dois anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da enc\u00edclica \u201cHumanae Vitae\u201d, exortava dois mil casais reunidos na bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro a cultivar um novo olhar, a viver um nova espiritualidade conjugal, a pensar, a querer e a agir rectamente. Jo\u00e3o Paulo II d\u00e1 seguimento a esta novidade nas catequeses semanais feitas durante anos. E n\u00e3o faltam outras interven\u00e7\u00f5es clarificadoras.<\/p>\n<p>Por que motivos resiste a Igreja Cat\u00f3lica a aceitar o div\u00f3rcio?<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o \u00e9 muito s\u00e9ria. Uma nova onda cultural varre a sociedade e suas institui\u00e7\u00f5es, a Igreja e suas pr\u00e1ticas mais consistentes. O que parecia est\u00e1vel e definitivo entra em mudan\u00e7a acentuada. Tamb\u00e9m na viv\u00eancia do amor conjugal, na compreens\u00e3o da sexualidade humana, no apre\u00e7o pelos valores do matrim\u00f3nio.<\/p>\n<p>Neste contexto que provoca tantos problemas e in\u00fameros dramas, sobretudo quando h\u00e1 filhos pequenos, que desestabiliza a sociedade e se repercute fortemente na Igreja, reclama-se uma atitude s\u00e1bia que alie a suavidade da pedagogia e a firmeza da mensagem, sem descurar a interpreta\u00e7\u00e3o dos acontecimentos e a busca do seu sentido humanizante.<\/p>\n<p>A Igreja \u00e9 pela verdade do casamento e da fam\u00edlia e vive com dor intensa a situa\u00e7\u00e3o que o div\u00f3rcio provoca. Aquela verdade \u00e9 claramente afirmada pelo magist\u00e9rio eclesial e motiva os cuidados pastorais que as comunidades e os movimentos apost\u00f3licos desenvolvem em prol dos noivos e dos casados a fim de que tenham sempre o maior apre\u00e7o pela realidade nova que constitui a sua op\u00e7\u00e3o conjugal.<\/p>\n<p>Esta realidade nova surge plasticamente na express\u00e3o b\u00edblica \u201cOs dois ser\u00e3o um s\u00f3 carne\u201d e concretiza-se em deixar outros bens preciosos, em cultivar a liberdade de comunh\u00e3o definitiva, em intensificar o relacionamento de reciprocidade construtiva, em enraizar o amor, em cada fase da vida, na doa\u00e7\u00e3o ao outro e no servi\u00e7o \u00e0 fam\u00edlia e a outras causas nobres.<\/p>\n<p>\u201cSer uma s\u00f3 carne\u201d \u00e9 prop\u00f3sito que envolve um projecto de vida, definido e assumido pelos c\u00f4njuges, antes do casamento nos seus elementos estruturantes fundamentais e, ao longo da vida, em outros aspectos indispens\u00e1veis que podem ser reajustados, conforme as circunst\u00e2ncias. Este projecto familiar tem como suporte revigorante a vontade positiva de cada um e como for\u00e7a suave e persistente a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus por meio de Jesus Cristo e da sua Igreja: pessoas amigas, grupos de casais, movimentos apost\u00f3licos, comunidades crist\u00e3s, associa\u00e7\u00f5es de entreajuda. <\/p>\n<p>O div\u00f3rcio surge normalmente como surpresa desagrad\u00e1vel que provoca uma ruptura fundamental neste itiner\u00e1rio de crescimento e de servi\u00e7o, neste projecto de vida amorosamente sonhado e intensamente vivido. A Igreja sente a dor de quem vive a situa\u00e7\u00e3o criada e procura oferecer-lhe a ajuda poss\u00edvel, a come\u00e7ar pelo reconhecimento do valor da op\u00e7\u00e3o inicial at\u00e9 que seja provado o contr\u00e1rio. <\/p>\n<p>Feita esta prova nas inst\u00e2ncias devidas, procede-se \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de nulidade, se for caso disso. Mantendo-se a d\u00favida fundada, o processo pode continuar a ser reexaminado em inst\u00e2ncias judiciais de recurso. Chegando-se \u00e0 conclus\u00e3o de que o matrim\u00f3nio mant\u00e9m toda a sua verdade original, os c\u00f4njuges ter\u00e3o de repensar o que pretendem fazer: recome\u00e7ar a aproxima\u00e7\u00e3o, enveredar pela separa\u00e7\u00e3o, assumir o div\u00f3rcio como facto consumado. <\/p>\n<p>Nesta \u00faltima hip\u00f3tese, nunca a Igreja rejeita os divorciados que optam por recasarem, oferecendo-lhes os meios adequados \u00e0 sua nova situa\u00e7\u00e3o. Por este facto, n\u00e3o ficam exclu\u00eddos da comunh\u00e3o eclesial, beneficiando da palavra de Deus que alimenta a f\u00e9 e a ora\u00e7\u00e3o, participando em ac\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas e caritativas, oferecendo a sua vida como servi\u00e7o generoso em prol do bem comum acess\u00edvel.<\/p>\n<p>A Igreja resiste a que o matrim\u00f3nio perca o valor que tem em si mesmo e caia na categoria de mero acto social, de simples cerim\u00f3nia tradicional ou de rito religioso vazio de sentido. Da\u00ed, a urg\u00eancia de ajudar os noivos a tomarem consci\u00eancia da riqueza do casamento, quer a n\u00edvel do civil, quer do religioso e sacramental. Esta ajuda reveste muitas formas, mas nenhuma substitui o auto-conhecimento de quem pretende casar nem as condi\u00e7\u00f5es em que o quer fazer ou para que o deseja realizar. O recurso \u00e0s ci\u00eancias humanas, designadamente da \u00e1rea psicol\u00f3gica, pode dar um contributo positivo. <\/p>\n<p>Existe um modelo crist\u00e3o de fam\u00edlia? Que respostas pastorais tem a Igreja para aqueles que n\u00e3o correspondem a esse poss\u00edvel modelo?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 correcto identificar o modelo da fam\u00edlia tradicional com a fam\u00edlia crist\u00e3. E s\u00f3 por raz\u00f5es preconceituosas se pode manter essa sobreposi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 muito redutor apresentar o modelo da fam\u00edlia nuclear como fam\u00edlia secularizada, indiferente a valores religiosos ou crist\u00e3os. A vis\u00e3o hist\u00f3rica desinibida faz-nos ver elementos estruturantes positivos num e noutro modelo, assim como o contr\u00e1rio. <\/p>\n<p>A fam\u00edlia lan\u00e7a as suas ra\u00edzes na natureza criada por Deus e modelada pelas culturas e pelas religi\u00f5es ao longo da hist\u00f3ria. Esta \u00e9 a sua matriz original para quem tem uma vis\u00e3o crente. Toda a fam\u00edlia cont\u00e9m um g\u00e9rmen divino, que ser\u00e1 modelado, mas n\u00e3o destru\u00eddo, pela vontade humana. Nela se unem, em admir\u00e1vel harmonia estruturante, o sonho promissor de Deus confiado generosamente ao par humano, ser masculino e ser feminino. O matrim\u00f3nio constitui o seu n\u00facleo original que tende a fazer surgir a sua realidade envolvente, a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Jesus Cristo veio introduzir uma grande novidade, mas n\u00e3o anular o que havia sido criado. Reafirma Deus como Pai, a fraternidade universal alicer\u00e7ada na filia\u00e7\u00e3o divina, a centralidade da pessoa na diversidade em harmonia das formas de vida, a reaprecia\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia biol\u00f3gica neste horizonte mais vasto a que chama Reino de Deus.<\/p>\n<p>Este modelo constitui como que a fonte de refer\u00eancia fundamental para todo o ser humano. Jesus Cristo constituiu-se aliado natural de quem pretende fazer um casamento, a partir destes valores. E deu a conhecer os seus apoios.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o corresponde aos tra\u00e7os principais do modelo referido, n\u00e3o est\u00e1 exclu\u00eddo da b\u00ean\u00e7\u00e3o original de Deus dada a toda a humanidade. A Igreja tem como miss\u00e3o recordar esta realidade e dar as m\u00e3os a todos os que lutam por construir uma vida digna e honesta. Seja em que cultura for e revista a modalidade que revestir. <\/p>\n<p>No interior da Igreja cresce a consci\u00eancia do valor que tamb\u00e9m existe em outras modalidades de realizar o casamento e, al\u00e9m do que fica enunciado em resposta anterior, intensifica-se a urg\u00eancia de proporcionar o apoio adequado a cada uma, sobretudo quando os protagonistas \u201cs\u00e3o\u201d crist\u00e3os. <\/p>\n<p>Uma pluralidade de formas vai-se perfilando, devendo a Igreja estar atenta e, dentro da sua miss\u00e3o, centrar as suas preocupa\u00e7\u00f5es onde for mais necess\u00e1rio. Por exemplo, se as uni\u00f5es heterossexuais de facto est\u00e3o a aumentar, torna-se necess\u00e1rio um acompanhamento mais personalizado por meio de casais que reconhe\u00e7am este servi\u00e7o como priorit\u00e1rio. Se o n\u00famero de casamentos de cat\u00f3licos pelo civil vai crescendo, \u00e9 urgente uma atitude semelhante. Outras modalidades de vida sexual activa, designadamente entre pessoas do mesmo sexo, merecem ponderada reflex\u00e3o e apoio adequado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o especial em que se encontram. <\/p>\n<p>A fam\u00edlia, apesar das in\u00fameras fragilidades que comporta e dos desafios que enfrenta, \u00e9 o ber\u00e7o donde todos provimos, o lar a que nos acolhemos, a escola da vida onde aprendemos os valores fundamentais que sempre nos servem de refer\u00eancia, ainda que difusa, a for\u00e7a estruturante da constru\u00e7\u00e3o social em que nos situamos, o projecto de felicidade em realiza\u00e7\u00e3o com que sonhamos e aspiramos que atinja a medida m\u00e1xima. <\/p>\n<p>Quanta riqueza e beleza encerra a fam\u00edlia alicer\u00e7ada no matrim\u00f3nio natural, assumido por um homem e uma mulher, alicer\u00e7ado em Jesus Cristo, celebrado em Igreja e valorizado na sociedade! Ela \u00e9 verdadeiramente \u201cesperan\u00e7a da Igreja e do Mundo\u201d, como afirmam os Bispos Portugueses na carta pastoral de 2004.  <\/p>\n<p>Georgino Rocha<\/p>\n<p>P\u00e1gina da responsabilidade do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA). Sai na 4.\u00aa quarta-feira de cada m\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste espa\u00e7o mensal da responsabilidade do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas (ISCRA), P.e Georgino Rocha aborda a tem\u00e1tica familiar. A Fam\u00edlia, como \u00e9 p\u00fablico, estar\u00e1 em foco na pr\u00f3xima etapa pastoral diocesana. O que fundamenta o reconhecimento da fam\u00edlia como c\u00e9lula base da sociedade? Isto \u00e9 uma especificidade crist\u00e3? 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