{"id":17732,"date":"2011-07-20T11:29:00","date_gmt":"2011-07-20T11:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17732"},"modified":"2011-07-20T11:29:00","modified_gmt":"2011-07-20T11:29:00","slug":"um-coracao-de-carne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/um-coracao-de-carne\/","title":{"rendered":"Um cora\u00e7\u00e3o de carne!"},"content":{"rendered":"<p>A palavra foi breve. Mas deixou muita gente a pensar. Uma manh\u00e3 destas, aos microfones de uma das nossas r\u00e1dios, o entrevistado confessava que, quando mais novo, se ria da atitude do seu Pai, o qual, na hora da refei\u00e7\u00e3o familiar, enquanto os outros comiam o que fora preparado, ele abria a porta do frigor\u00edfico e procurava compor a sua ementa com os restos que por l\u00e1 se encontravam.<\/p>\n<p>Um dia, as coisas mudaram radicalmente no seu esp\u00edrito. Vira uma daquelas reportagens de arrepiar, em que as crian\u00e7as definham de fome, chegando a estados de desnutri\u00e7\u00e3o tais que nem sequer conseguem sacudir as moscas que lhes invadem o rosto: os olhos, o nariz, a boca.<\/p>\n<p>A pancada no fundo da consci\u00eancia foi de tal ordem que se sentiu na obriga\u00e7\u00e3o de, a partir dessa altura, n\u00e3o desperdi\u00e7ar um bago que fosse de arroz! Das suas palavras, depreendia-se que aprendera a li\u00e7\u00e3o: o que esbanjamos em excessos e desperd\u00edcios \u00e9 o essencial que falta a uma multid\u00e3o de pobres, \u00e0 m\u00edngua do indispens\u00e1vel para sobreviver.<\/p>\n<p>O drama corre o mundo. Ningu\u00e9m pode dizer que n\u00e3o sabe que, na Som\u00e1lia, uma forte seca, a pior dos \u00faltimos sessenta anos, afecta milh\u00f5es de pessoas, entre elas mais de dois milh\u00f5es de crian\u00e7as, das quais cerca de meio milho corre risco eminente de morte por falta de alimentos e \u00e1gua pot\u00e1vel. <\/p>\n<p>Os deslocados para pa\u00edses vizinhos, tamb\u00e9m eles cheios de carenciados, engrossam o caudal dos famintos, que se estima em cerca de onze milh\u00f5es de pessoas. O Santo Padre, no \u00faltimo domingo, apelou \u00e0 Comunidade Mundial, pedindo a mobiliza\u00e7\u00e3o de todos os recursos para salvar o povo deste pa\u00eds africano, que, a par com um conflito entre governo e rebeldes, viveu, na realidade, duas d\u00e9cadas sem governa\u00e7\u00e3o efectiva.<\/p>\n<p>Quando se fala de crise, entre n\u00f3s, e de pobreza real, mesmo com a fome a bater \u00e0 porta de muita gente, o drama n\u00e3o \u00e9, de modo algum, compar\u00e1vel. E, com a cultura de uma vida s\u00f3bria e de uma partilha solid\u00e1ria, \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel superar as urg\u00eancias mais prementes e recriar a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>E os recursos mundiais, geridos com justi\u00e7a e equidade, podem perfeitamente colmatar as calamidades que as causas naturais v\u00e3o criando \u00e0 face da terra. Mas para isso, a palavra do profeta urge que se realize e que, do peito de muita gente, se arranque um cora\u00e7\u00e3o de pedra, para germinar um cora\u00e7\u00e3o de carne!<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os sabem que esse \u00e9 um dos par\u00e2metros de avalia\u00e7\u00e3o do uso que fazemos da vida que Deus nos concede e do modo como nos servimos dos bens que nos p\u00f5e \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Um copo de \u00e1gua dado por caridade fraterna n\u00e3o ficar\u00e1 sem recompensa. E cada gesto de solidariedade que tivermos com quem necessita ser\u00e1 com o pr\u00f3prio Cristo que o temos, como tamb\u00e9m essa omiss\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A palavra foi breve. Mas deixou muita gente a pensar. 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