{"id":17945,"date":"2011-09-07T10:38:00","date_gmt":"2011-09-07T10:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17945"},"modified":"2011-09-07T10:38:00","modified_gmt":"2011-09-07T10:38:00","slug":"estimulos-e-travoes-no-processo-de-recuperacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/estimulos-e-travoes-no-processo-de-recuperacao\/","title":{"rendered":"Est\u00edmulos e trav\u00f5es no processo de recupera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Dizer que o momento que atravessamos \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o vai al\u00e9m de repetir o que todos sabemos e vamos sentindo. \u00c9 verdade, no entanto, que para uns as dificuldades s\u00e3o maiores do que para outros. Sendo assim, n\u00e3o podemos deixar de nos perguntar como consegue sobreviver uma fam\u00edlia modesta com um ou os dois pais desempregados ou um casal de idosos com uma reforma mais do que magra. Muitas perguntas pertinentes se podem e devem fazer para se poder interiorizar a crise. Multiplicam-se, \u00e9 certo, as express\u00f5es de solidariedade. Por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil a pessoas que sempre tiveram uma vida que se ia bastando por si pr\u00f3pria terem agora de recorrer a institui\u00e7\u00f5es para pedir alimento ou ajudas que lhes permitam responder a despesas inadi\u00e1veis. O que toca na auto-estima tamb\u00e9m empobrece as pessoas.<\/p>\n<p>As medidas de restri\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias s\u00e3o sempre dif\u00edceis e n\u00e3o se aceitam de bom grado. Enquanto alguns j\u00e1 se sentem esmagados, outros continuam na ilus\u00e3o de que, para si, as restri\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o chegaram e, quem sabe, at\u00e9 podem n\u00e3o chegar. A aten\u00e7\u00e3o vai sobretudo para a gente nova, quando n\u00e3o est\u00e1 habituada a sacrif\u00edcios que sempre atirou para os pais, ou estes lhe ocultaram o peso e a solu\u00e7\u00e3o dos problemas.<\/p>\n<p>N\u00e3o adianta chorar no muro das lamenta\u00e7\u00f5es, nem continuar \u00e0 procura dos culpados, de todos bem conhecidos. A hora \u00e9 de assumir a situa\u00e7\u00e3o, na parte que a cada um toca, como uma tarefa inadi\u00e1vel, a que \u00e9 preciso meter ombros. O peso toca mais a uns que a outros, e n\u00e3o h\u00e1 que atir\u00e1-lo, como tantas vezes acontece, para os eternamente fragilizados e provados pela vida. A equidade e a solidariedade s\u00e3o regra e completam-se quando, no horizonte das decis\u00f5es, est\u00e3o pessoas e situa\u00e7\u00f5es concretas.<\/p>\n<p> O sentido colectivo de responsabilidade \u00e9 um dever comum de cidadania. Esta n\u00e3o \u00e9 proclama\u00e7\u00e3o de com\u00edcio, nem \u00e9 um emblema de lapela. Por\u00e9m, se as dificuldades s\u00e3o de quem as sente, n\u00e3o podem parecer que o n\u00e3o s\u00e3o de quem tem de decidir neste dif\u00edcil contexto. Por tudo isto, n\u00e3o se pode perder na rua o que se vai tentando construir, dolorosamente, na casa de cada um e nos gabinetes dos decisores, presos por compromissos inadi\u00e1veis e vendo j\u00e1, ali ao lado, casas a ruir e a arder.<\/p>\n<p>\u00c9 leg\u00edtimo lutar por um lugar de trabalho, denunciar os desvios de quem se aproveita dos momentos de crise, chamar a aten\u00e7\u00e3o para a realidade presente na considera\u00e7\u00e3o dos problemas e na procura das melhores solu\u00e7\u00f5es, p\u00f4r a descoberto situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a, unir esfor\u00e7os para melhores resultados. Mas, sempre na preocupa\u00e7\u00e3o de encontrar caminhos e lan\u00e7ar pontes, nunca de levantar novos muros ou de aprofundar, mais ainda, fossos j\u00e1 antes dif\u00edceis de transpor. A uni\u00e3o de for\u00e7as n\u00e3o se faz apenas em fun\u00e7\u00e3o e proveito de grupos, mas do melhor bem poss\u00edvel, a favor de todos.<\/p>\n<p>J\u00e1 escrevi antes que, nesta hora, e penso que em todas as horas, quem governa e tamb\u00e9m quem \u00e9 governado n\u00e3o pode deixar de estar atento \u00e0s descrimina\u00e7\u00f5es e privil\u00e9gios, \u00e0 press\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es corporativas, quando mais voltadas para os seus membros que para a consecu\u00e7\u00e3o do bem comum, \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o das atitudes demag\u00f3gicas. Tudo isto pode provocar tens\u00f5es, dificultar o esp\u00edrito de colabora\u00e7\u00e3o e de conviv\u00eancia democr\u00e1tica, impedir solu\u00e7\u00f5es justas para os problemas em campo.<\/p>\n<p>Ao falar de est\u00edmulos e trav\u00f5es no processo de recupera\u00e7\u00e3o, tenho presente esta realidade. Pelos an\u00fancios e amea\u00e7as feitas, penso agora, especialmente, nas organiza\u00e7\u00f5es corporativas, sejam elas partidos pol\u00edticos, sindicatos ou ordens. Normalmente olha-se mais para o que se pretende do que para ver se isso \u00e9 possivel e para os meios para se conseguir. Nem sempre e em tudo, os fins justificam os meios. Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode dizer ao pa\u00eds que ou se ganha na sala de reuni\u00f5es ou se faz guerra na rua. N\u00e3o interessa ganhar mais s\u00f3cios ou prender os que podem fugir, criando um clima que n\u00e3o permite ir mais al\u00e9m na solu\u00e7\u00e3o dos problemas do pa\u00eds, tal como ele se encontra. <\/p>\n<p>H\u00e1 reivindica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o mudam de tom quando a intransig\u00eancia permanece e os interesses corporativos cavalgam o processo. Pode a vit\u00f3ria estar em impedir que se fa\u00e7a o que tem de ser feito? Sabemos que para responder a projectos de colectivos sociais, seria necess\u00e1rio um governo da cor de quem projecta. Isso, por agora n\u00e3o existe, nem se v\u00ea estar pr\u00f3ximo. N\u00e3o havendo alternativa, t\u00eam de jogar no tabuleiro da democracia, n\u00e3o no da demagogia, tanto os governantes como as corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A conquista de direitos, em si leg\u00edtimos, tem de ser considerada no contexto concreto que se vive no pa\u00eds. Decis\u00f5es de gabinete ou multid\u00f5es na rua, por si s\u00f3 n\u00e3o ganham batalhas. Antes, podem dificultar a participa\u00e7\u00e3o, socialmente exigida a todos. N\u00e3o interessa nem a pol\u00edtica da terra queimada, nem o orgulhosamente s\u00f3s. J\u00e1 todos sabemos o que isto significa e n\u00e3o estamos, por certo, ansiosos por um retorno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizer que o momento que atravessamos \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o vai al\u00e9m de repetir o que todos sabemos e vamos sentindo. \u00c9 verdade, no entanto, que para uns as dificuldades s\u00e3o maiores do que para outros. 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