{"id":17949,"date":"2011-09-14T09:49:00","date_gmt":"2011-09-14T09:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=17949"},"modified":"2011-09-14T09:49:00","modified_gmt":"2011-09-14T09:49:00","slug":"brasil-pessoas-alegres-e-sofridas-numa-igreja-a-fervilhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/brasil-pessoas-alegres-e-sofridas-numa-igreja-a-fervilhar\/","title":{"rendered":"Brasil: Pessoas alegres e sofridas numa igreja a fervilhar"},"content":{"rendered":"<p>P.e Jos\u00e9 Carlos da Silva, de Aveiro, trabalha numa par\u00f3quia dos arredores de S\u00e3o Paulo, Brasil, depois de ter sido formador no Semin\u00e1rio Maior de \u00c9vora, durante 11 anos, e no Semin\u00e1rio de Malange, Angola, durante dois anos. De passagem por Aveiro em Agosto, antes de regressar ao Brasil falou ao Correio do Vouga sobre o seu actual trabalho e sobre a realidade da Igreja em Angola e no Brasil. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Da \u00faltima vez que falou a este jornal, h\u00e1 dois anos, estava de partida para Angola. Agora encontramo-lo no Brasil\u2026<\/p>\n<p>JOS\u00c9 CARLOS DA SILVA &#8211; Trabalho numa par\u00f3quia do chamado ABC de S\u00e3o Paulo. ABC \u00e9 a cintura industrial de S\u00e3o Paulo: Santo Andr\u00e9, S\u00e3o Bernardo e S\u00e3o Caetano. \u00c9 uma zona onde h\u00e1 muita ind\u00fastria, principalmente de autom\u00f3veis, e favelas. Fizeram f\u00e1bricas, nos anos 60, 70 e 80 do s\u00e9culo passado, mas n\u00e3o pensaram em estruturas para acolher os trabalhadores que vieram de todo o Brasil, principalmente do nordeste. O pessoal veio aos molhos, sem casas, escolas, hospital. O pessoal invadiu as herdades em volta das f\u00e1bricas, num sistema violento. Cada um fez o seu barraco, sem \u00e1gua nem electricidade \u2013 comodidades que s\u00f3 agora come\u00e7am a chegar.<\/p>\n<p>Eu estou numa par\u00f3quia com mais dois padres da associa\u00e7\u00e3o Fraternidade de Sacerdotes Oper\u00e1rios do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. Estamos ali porque est\u00e1vamos no Semin\u00e1rio de Santos, no litoral de S\u00e3o Paulo. Devido a altera\u00e7\u00f5es nas dioceses fomos parar a uma par\u00f3quia, onde tamb\u00e9m colaboramos na pastoral vocacional, mas o nosso carisma \u00e9 trabalhar nos semin\u00e1rios. Em Janeiro pr\u00f3ximo, deveremos mudar para o estado de Tocantins, no centro do Brasil, para trabalhar num semin\u00e1rio. Como estamos agora, agitamos v\u00e1rias \u00e1guas, mas acabamos por n\u00e3o estar em lado nenhum. Se n\u00e3o nos dedicarmos ao que nos \u00e9 espec\u00edfico, fracassamos.<\/p>\n<p>Como foi parar ao Brasil, visto que estava em Angola, precisamente a trabalhar num semin\u00e1rio?<\/p>\n<p>Estava em Malange, mas sempre num estado de inseguran\u00e7a, uma vez que s\u00f3 tinha visto de turista, nunca de resid\u00eancia, por muito que tentasse. De tr\u00eas em tr\u00eas meses tinha de sair de Angola e regressar como turista. Entretanto, um colega do Brasil conseguiu um visto para trabalhar l\u00e1 e fizemos, por assim dizer, a troca. Ele foi para Angola e eu fui para o Brasil. Por outro lado, aquilo n\u00e3o era um semin\u00e1rio. Tinha o nome de semin\u00e1rio, mas era um col\u00e9gio.<\/p>\n<p>O semin\u00e1rio n\u00e3o formava jovens para o presbiterado?<\/p>\n<p>Todos diziam que queriam ser padres, mas chegavam ao \u00faltimo ano e iam-se embora. \u00c9 pr\u00f3prio daquela realidade. No interior de Angola, n\u00e3o h\u00e1 escolas que funcionem, n\u00e3o h\u00e1 livros, electricidade, vivem em barracos de barro, comem uma vez por dia. O semin\u00e1rio, mal ou bem, tem quatro refei\u00e7\u00f5es por dia, casas de banho, \u00e1gua luz, biblioteca, cadeiras\u2026 Se quiserem, podem ter 200 mo\u00e7os l\u00e1 dentro. T\u00eam 80 ou 90, mas aquilo n\u00e3o \u00e9 semin\u00e1rio. Gastamos as for\u00e7as sabendo, \u00e0 partida, que ningu\u00e9m quer ser padre. \u00c9 um esquema esquizofr\u00e9nico. Aprendi muito. Foi uma experi\u00eancia de pobreza radical, mas eu estava a fazer o qu\u00ea? Era uma mentira institucional. Insisti algumas vezes com os respons\u00e1veis, mas o pessoal queria funcionar assim. Como trabalhei num semin\u00e1rio mesmo, em \u00c9vora, sei o trabalho que d\u00e1. Trabalha-se muito e por vezes n\u00e3o h\u00e1 resultados. Mas qual era o objectivo em Malange? Era o curso, n\u00e3o era ser padre. N\u00e3o fazia sentido. Por outro lado, passava o tempo a dar aulas. Dei aulas de Literatura, eu que nem gostava de letras. Distribu\u00edamos as aulas pelos padres e religiosas dispon\u00edveis e ficavam sempre umas 40 horas que ningu\u00e9m queria dar. N\u00e3o consegu\u00edamos professores para algumas disciplinas e distribu\u00edamo-las entre n\u00f3s. Eu dei Grego e Literatura Portuguesa. Eu nem sabia que sabia tanto!<\/p>\n<p>Esse desvio entre o ideal e a realidade tem a ver com o pa\u00eds em crescimento, precisando de recursos humanos qualificados, ap\u00f3s tantos anos de guerra?<\/p>\n<p>Dentro de todas as limita\u00e7\u00f5es, comparado com as outras escolas e semin\u00e1rios, era uma escola excelente, com uma equipa est\u00e1vel, acompanhamento espiritual, ordem. No final da forma\u00e7\u00e3o, tr\u00eas anos de Proped\u00eautico e tr\u00eas de Filosofia, as empresas e o Estado apanham-nos logo. V\u00e3o todos para os minist\u00e9rios e grandes empresas de Luanda ganhar 700 euros, quando a m\u00e9dia dos ordenados \u00e9 de 100 euros.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 aqui um outro factor perverso. O Vaticano d\u00e1 dinheiro por cabe\u00e7a, pelo que conv\u00e9m que os semin\u00e1rios estejam cheios. Parece que estamos a andar para tr\u00e1s. No entanto, a situa\u00e7\u00e3o pode estar a mudar, porque os recursos financeiros poder\u00e3o ir para o M\u00e9dio Oriente e a \u00c1sia. Por isso tamb\u00e9m j\u00e1 houve bispos angolanos a vir pedir dinheiro a Portugal, quando em Angola \u00e9 p\u00fablico que esse dinheiro n\u00e3o chega \u00e0s finalidades para que \u00e9 pedido. Havia um bispo que pagava a faculdade dos seus familiares, em Portugal, com dinheiro de uma organiza\u00e7\u00e3o de caridade da sua diocese. E depois veio pedir aos bispos portugueses para serem generosos com a Igreja angolana.<\/p>\n<p>Isto tem que se resolver. S\u00f3 criticar n\u00e3o resolve. L\u00e1, a luta \u00e9 di\u00e1ria, mesmo com os padres e as religiosas. Os dinheiros t\u00eam de ser muito bem geridos. Durante 30 anos, na guerra civil, o pessoal sobreviveu com a ajuda internacional. A Igreja, a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o abandonou o povo, era quem dava de comer. Durante anos e anos, prevaleceu esta ideia: vou \u00e0 igreja para comer. <\/p>\n<p>O que \u00e9 a igreja? \u00c9 a grande comunidade em que cada um, \u00e0 sua medida, com os seus dons, d\u00e1-se em servi\u00e7o aos outros. Mas l\u00e1 a ideia que persiste \u00e9 que se vai \u00e0 igreja para receber. A Igreja angolana est\u00e1 numa transi\u00e7\u00e3o que vai demorar anos. Mesmo ser padre e ser freira est\u00e1 relacionado com um alto estatuto social, talvez como em Portugal, h\u00e1 60 ou 70 anos.<\/p>\n<p>No Brasil, \u00e9 diferente?<\/p>\n<p>No Brasil, a realidade \u00e9 outra. No meio da pobreza e da viol\u00eancia \u2013 nas favelas da Venezuela, Brasil e Col\u00f4mbia morre mais gente do que no Iraque, Palestina ou Afeganist\u00e3o \u2013 h\u00e1 alegria, doa\u00e7\u00e3o, generosidade. H\u00e1 crime organizado e pol\u00edcias honestos. H\u00e1 muita droga. Todas as fam\u00edlias viram morrer um jovem por causa da toxicodepend\u00eancia ou dos crimes associados \u00e0 droga. E todos precisam de Deus. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que n\u00e3o tenha uma religi\u00e3o. H\u00e1 gente sofrida e muito alegre ao mesmo tempo. Por exemplo, como na zona onde estou s\u00f3 h\u00e1 pessoas vindas de outros lados. Como n\u00e3o havia qualquer estrutura jur\u00eddica, n\u00e3o havia Estado, as pessoas organizaram-se para distribuir os terrenos para fazer casas. Uns optaram por constituir comiss\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es, outros optaram pelo crime. No fundo, sempre gente muito lutadora.<\/p>\n<p>Como \u00e9 o seu trabalho pastoral?<\/p>\n<p>Trabalhamos por comunidades. No espa\u00e7o da minha par\u00f3quia h\u00e1 70 mil pessoas distribu\u00eddas por seis comunidades cat\u00f3licas e 74 ou 75 evang\u00e9licas. Os cat\u00f3licos s\u00e3o cerca de metade dos habitantes. As igrejas evang\u00e9licas, como se sabe, s\u00e3o aut\u00f3nomas e surgem espontaneamente. Uma pessoa, com uma garagem, pode criar uma igreja. E h\u00e1 igrejas com cada nome\u2026 Todas funcionam com o d\u00edzimo obrigat\u00f3rio. Na igreja cat\u00f3lica, o d\u00edzimo \u00e9 facultativo e funciona pior. N\u00f3s acompanhamos as comunidades nas diversas pastorais, da sa\u00fade, da fam\u00edlia, da inf\u00e2ncia\u2026 Como n\u00e3o h\u00e1 estruturas p\u00fablicas, a nossa igreja, durante a semana, funciona como escola e como centro de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Pensar na igreja brasileira \u00e9 pensar na teologia da liberta\u00e7\u00e3o, nos carism\u00e1ticos e nas novas comunidades. Continua a ser assim?<\/p>\n<p>Na Brasil, desde h\u00e1 d\u00e9cadas, cresceram a teologia da liberta\u00e7\u00e3o e os carism\u00e1ticos. Na Europa, s\u00f3 se ouviu falar dos excessos da teologia da liberta\u00e7\u00e3o, mas os carism\u00e1ticos estavam ao mesmo n\u00edvel. Acontece \u00e9 que os carism\u00e1ticos trazem dinheiro \u00e0 Igreja. A teologia da libera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o. Hoje, recupera-se a pastoral do povo, as comunidades eclesiais de base, t\u00edpicas da teologia da liberta\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Recentemente houve elei\u00e7\u00f5es da confer\u00eancia episcopal brasileira e, surpreendentemente, foi escolhido para presidente o bispo de Aparecida, um homem tranquilo, de equil\u00edbrios. Espera-se que signifique o in\u00edcio do fim da clericaliza\u00e7\u00e3o que se vem sentindo, principalmente em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>E quanto \u00e0s novas comunidades?<\/p>\n<p>\u00c9 de facto uma realidade muito interessante: tr\u00eas ou quatro jovens juntam-se para rezar a partir da B\u00edblia, para partilhar a Palavra, e dizem ao p\u00e1roco o que querem come\u00e7am a trabalhar na par\u00f3quia, assumir um compromisso social. Decidem viver juntos, rezam, partilham, comprometem-se. Isto est\u00e1 a acontecer muito. E esteve na origem de grupos como a Can\u00e7\u00e3o Nova ou o Shalom. Curiosamente, primeiro fazem e s\u00f3 depois reflectem e organizam, um pouco ao contr\u00e1rio do que acontece na pastoral na Europa. Por outro lado, estes grupos sentem-se muito \u00e0 vontade com os meios de comunica\u00e7\u00e3o modernos. Com todos os defeitos que podem ter, julgo que s\u00e3o sinais do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Coloca a possibilidade de regressar a Portugal?<\/p>\n<p>N\u00e3o depende s\u00f3 de mim. Depende tamb\u00e9m dos meus superiores. Somos poucos. Na Europa, n\u00e3o temos voca\u00e7\u00f5es. As poucas que h\u00e1 surgem como nos primeiros 20 a 30 anos da nossa associa\u00e7\u00e3o, que surgiu em Espanha no final do s\u00e9c. XIX: padres j\u00e1 ordenados que conhecem o nosso trabalho e decidem associar-se. Temos projectos em l\u00edngua portuguesa em \u00c9vora, Malange e Brasil. O problema das voca\u00e7\u00f5es sacerdotais est\u00e1 em todo o lado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P.e Jos\u00e9 Carlos da Silva, de Aveiro, trabalha numa par\u00f3quia dos arredores de S\u00e3o Paulo, Brasil, depois de ter sido formador no Semin\u00e1rio Maior de \u00c9vora, durante 11 anos, e no Semin\u00e1rio de Malange, Angola, durante dois anos. 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