{"id":18009,"date":"2011-09-14T10:44:00","date_gmt":"2011-09-14T10:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18009"},"modified":"2011-09-14T10:44:00","modified_gmt":"2011-09-14T10:44:00","slug":"novo-acordo-para-a-tabuada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/novo-acordo-para-a-tabuada\/","title":{"rendered":"&#8220;Novo acordo&#8221; para a tabuada"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Aquela hist\u00f3ria do agricultor que teima em pagar o mesmo a quem trabalhou o dia todo como a quem pouco mais fez do que arrega\u00e7ar as mangas, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um erro de tabuada: ofende o mais elementar sentido de justi\u00e7a. Ainda por cima, o agricultor justifica-se dizendo que faz o que quer ao seu dinheiro, sem atender a sensibilidades. N\u00e3o convence l\u00e1 muito \u2026<\/p>\n<p>Quanto a S. Paulo, parece querer fazer-nos acreditar que morrer \u00e9 muito melhor do que viver. Diz que Jesus Cristo \u00e9 tudo para ele e portanto prefere deixar este mundo. Por fim, como que condescende em dizer que n\u00e3o ser\u00e1 m\u00e1 ideia continuar mais uns tempitos por c\u00e1, com a desculpa de poder continuar a fazer o melhor pelos outros\u2026<\/p>\n<p>Em tudo isto, h\u00e1 v\u00e1rias coisas dif\u00edceis de \u00abencaixar\u00bb. Valha-nos a primeira leitura: que \u00aba tabuada de Deus\u00bb se rege por um \u00abnovo acordo\u00bb.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida que a carta de Paulo revela profundo misticismo (conceito dif\u00edcil de definir, ou n\u00e3o fora afim a \u00abmist\u00e9rio\u00bb, como o de Deus e do universo): as alegrias da vida s\u00e3o s\u00edmbolo da alegria em Deus; e os sofrimentos s\u00e3o parte da caminhada com Cristo a caminho da ressurrei\u00e7\u00e3o (Carta aos Romanos 8,17). Ali\u00e1s, os sofrimentos alertam para a inconsist\u00eancia da vida, como tamb\u00e9m estimulam a for\u00e7a do amor que deve conduzir as nossas ac\u00e7\u00f5es mesmo at\u00e9 ao fim. A ang\u00fastia da morte \u00e9 mesmo mitigada, quando se sente o sabor de concorrer para que o \u00abteatro da vida\u00bb seja aplaudido com entusiasmo. \u00c9 agrad\u00e1vel ter consci\u00eancia de que entramos no palco com aprumo e beleza no gesto e no falar, e que aqueles que continuam a nossa ac\u00e7\u00e3o recebem de n\u00f3s as \u00abdeixas\u00bb devidas.<\/p>\n<p>O que interessa n\u00e3o \u00e9 o tempo que \u00abbrilhamos\u00bb em cena, mas o contributo imprescind\u00edvel para que a vida continue. Quem sabe se o grande momento n\u00e3o \u00e9 a fugaz apari\u00e7\u00e3o de uma carinha, sorridente ou triste, entre cortinas que se fecham?<\/p>\n<p>O m\u00edstico a s\u00e9rio, porque tem consci\u00eancia da grandiosidade do conjunto da obra, d\u00e1 toda a import\u00e2ncia quer \u00e0s pequenas quer \u00e0s grandes actua\u00e7\u00f5es, bem como a todo o cen\u00e1rio. Mesmo nos bastidores, n\u00e3o deixa de influir positivamente no esfor\u00e7o dos outros para o grande aplauso. Para ele, h\u00e1 harmonia entre as coisas do c\u00e9u e da terra, n\u00e3o caindo na tenta\u00e7\u00e3o de nada fazer sob a desculpa de se dedicar \u00ab\u00e0s coisas do c\u00e9u\u00bb, como se fosse superior, por direito divino, aos que trabalham para que a terra n\u00e3o seja um inferno.<\/p>\n<p>A mensagem de S. Paulo pode ser clara: o ser humano, fa\u00e7a ele o que fizer, tenha a idade que tiver, \u00e9 feito para Deus. E por isso, a nossa estrutura interior \u00e9 de cont\u00ednua insatisfa\u00e7\u00e3o. Somos lan\u00e7ados para os caminhos da vida e \u00e9 a\u00ed que a par\u00e1bola de Jesus nos diz muito.<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o da nossa vida, de um rec\u00e9m-nascido ou de um adulto, na sa\u00fade ou na debilidade, ser\u00e1 sempre o fruto de um convite feito por Deus \u00e0s horas mais desencontradas. Um convite pessoal\u00edssimo, \u00e0 luz do qual todos somos amados igualmente. Um convite que se confunde com a estrutura da nossa personalidade, habilitando-nos para trabalhar pela vida ao ritmo das possibilidades de cada qual (que na tabuada tradicional podem parecer igual a zero). <\/p>\n<p>(E aqueles trabalhadores da \u00faltima hora, que mal chegaram a arrega\u00e7ar as mangas, n\u00e3o ser\u00e3o tamb\u00e9m um s\u00edmbolo dos deixados de parte ou postos na rua, devido ao ego\u00edsmo dos companheiros, gan\u00e2ncia, materialismo e at\u00e9 falta de horizontes vastos na gest\u00e3o, sobretudo por parte de alguns \u00abempres\u00e1rios\u00bb \u2013 que de grande s\u00f3 t\u00eam a conta banc\u00e1ria?) <\/p>\n<p>Nascer \u00e9 ter um convite para trabalhar. E a vida s\u00f3 revela um pouco do seu sentido a quem partilha da experi\u00eancia do Deus da vida. Jesus, que vivia com Deus como um filho com o Pai, vem sublinhar que a vida humana \u00e9 fundamentalmente um dom, sem lugar para classifica\u00e7\u00f5es por antiguidade ou m\u00e9rito. Nenhum tipo de nascimento ou de actividade d\u00e1 direito especial ao \u00abreino de Deus\u00bb. <\/p>\n<p>O mundo \u00e9 obra de todos n\u00f3s, em que o valor incomensur\u00e1vel de cada pessoa \u00e9 base de cont\u00ednua multiplica\u00e7\u00e3o. Mas no \u00abnovo acordo\u00bb por que se rege a tabuada de Deus, o \u00abproduto\u00bb acaba por ser s\u00f3 aquilo que \u00e9 mesmo bom.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-18009","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18009","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18009"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18009\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18009"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18009"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18009"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}