{"id":18323,"date":"2011-10-19T11:18:00","date_gmt":"2011-10-19T11:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18323"},"modified":"2011-10-19T11:18:00","modified_gmt":"2011-10-19T11:18:00","slug":"conjugar-o-nobel-da-paz-no-feminino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/conjugar-o-nobel-da-paz-no-feminino\/","title":{"rendered":"&#8220;Conjugar&#8221; o Nobel da Paz no feminino"},"content":{"rendered":"<p>Em 2011, e de uma assentada s\u00f3, o Comit\u00e9 de Atribui\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9mio Nobel da Paz, resolveu premiar tr\u00eas mulheres: Ellen Johnson Sirleaf e Leymah Gbowee, ambas liberianas, al\u00e9m da activista do I\u00e9men, Tawakkul Karman. Com esta distin\u00e7\u00e3o, o Comit\u00e9 Nobel, ampliava para 15 o n\u00famero de mulheres que j\u00e1 foram galardoadas com o prestigioso Pr\u00e9mio, na categoria de Paz.<\/p>\n<p>Confesso que a n\u00edvel pessoal fiquei, a princ\u00edpio, um pouco desiludido. H\u00e1 algum tempo subscrevi uma campanha, promovida pela CIPSI, uma coordena\u00e7\u00e3o internacional de associa\u00e7\u00f5es de solidariedade, e pela senegalesa ChiAma \u00c1frica, que propunha a atribui\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9mio Nobel da Paz 2011 \u00e0s Mulheres Africanas. Seria um pr\u00e9mio colectivo, a premiar os milh\u00f5es de mulheres africanas que, diariamente, v\u00e3o calcorreando o continente-ber\u00e7o da Humanidade, em busca de paz e dignidade. No fim de contas, o movimento de assinaturas n\u00e3o se revelou t\u00e3o persuasivo ao ponto do Comit\u00e9 repartir o pr\u00e9mio por todas as mulheres africanas. Mas duas delas foram, para minha consola\u00e7\u00e3o, meritoriamente premiadas, na companhia de uma outra activista asi\u00e1tica, o que me permitiu constatar que a minha assinatura, afinal, n\u00e3o tinha sido em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas quem s\u00e3o, ent\u00e3o, as vencedoras do Nobel da Paz 2011? A mais conhecida internacionalmente \u00e9, sem d\u00favida, a presidente da Lib\u00e9ria, Ellen Johnson Sirleaf, a primeira mulher que foi democraticamente eleita chefe de Estado numa na\u00e7\u00e3o africana. Lutadora pela paz e reconcilia\u00e7\u00e3o nacional num pa\u00eds que sofreu uma sangrenta guerra civil, ela contou, na luta pelo fim dos enfretamentos b\u00e9licos na sua p\u00e1tria, com o contributo de uma outra mulher, Leymah Gbowee. Provavelmente menos reconhecida internacionalmente, o papel de Leymah Gbowee na promo\u00e7\u00e3o da paz na na\u00e7\u00e3o liberiana n\u00e3o tem sido menos relevante. Muito pelo contr\u00e1rio, a sua a\u00e7\u00e3o tem sido preponderante na reivindica\u00e7\u00e3o dos direitos das mulheres em todo o ocidente africano. Se quisermos, Gbowee est\u00e1, actualmente e com as devidas ressalvas na compara\u00e7\u00e3o, para os pa\u00edses africanos, como a sufragista Emmeline Pankhurst esteve para a Europa do final do s\u00e9culo XIX, in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Ambas as liberianas ladear\u00e3o, na cerim\u00f3nia de premia\u00e7\u00e3o, com Tawakkul Karman. Mais distante dos focos medi\u00e1ticos, o I\u00e9men tem, na jovem Karman (de apenas 32 anos de vida) uma defensora intransigente dos direitos da popula\u00e7\u00e3o em geral e das mulheres em particular. Na sua traject\u00f3ria de vida, a activista tem tido um papel determinante na luta pelos direitos civis nos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos, com maior relevo nestes \u00faltimos meses pela tentativa de levar ao regime autorit\u00e1rio do I\u00e9men os \u201cventos de mudan\u00e7a\u201d que t\u00eam soprado desde a \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d deste ano.       <\/p>\n<p>Pelo que tenho lido do percurso biogr\u00e1fico das tr\u00eas laureadas de 2011, o pr\u00e9mio \u00e9 perfeitamente justo. Lastimo somente que, na companhia de duas mulheres africanas e uma asi\u00e1tica, n\u00e3o estivesse uma mulher latino-americana, como por exemplo a fundadora da Pastoral da Crian\u00e7a do Brasil, Zilda Arns, a t\u00edtulo p\u00f3stumo. Contudo, regozijo-me porque o Comit\u00e9 Nobel est\u00e1 verdadeiramente decidido a alargar a, at\u00e9 agora diminuta, lista de mulheres premidas com o Nobel da Paz. <\/p>\n<p>Acompanho anualmente a atribui\u00e7\u00e3o do Right Livelihood Award e, a t\u00edtulo de curiosidade, merc\u00ea tamb\u00e9m das caracter\u00edsticas espec\u00edficas deste Pr\u00e9mio que \u00e9 considerado o Nobel da Paz Alternativo, a sua rela\u00e7\u00e3o de laureados tem incomparavelmente mais nomes femininos, ao longo dos 31 anos de exist\u00eancia, do que o centen\u00e1rio Nobel da Paz. Mas \u00e9 raz\u00e3o de j\u00fabilo que o Comit\u00e9 Sueco-noruegu\u00eas esteja a olhar cada vez mais para as ac\u00e7\u00f5es das Mulheres que, por todo o Mundo, a cada momento, tentam construir um mundo mais justo. <\/p>\n<p>No rescaldo desta atribui\u00e7\u00e3o, a par com a minha alegria pelas vencedoras do pr\u00e9mio, fica-me a esperan\u00e7a de que o primeiro Nobel coletivo seja, um dia, concedido \u00e0s Mulheres Africanas, como paradigma de todas no chamado terceiro mundo. Ficar\u00e1 assim reconhecido como, na simplicidade de uma tabanka, ou num pal\u00e1cio presidencial, a interven\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 exemplo de que Paz se \u201cconjuga\u201d, umbilicalmente, com o feminino. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2011, e de uma assentada s\u00f3, o Comit\u00e9 de Atribui\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9mio Nobel da Paz, resolveu premiar tr\u00eas mulheres: Ellen Johnson Sirleaf e Leymah Gbowee, ambas liberianas, al\u00e9m da activista do I\u00e9men, Tawakkul Karman. 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