{"id":18350,"date":"2011-10-12T10:42:00","date_gmt":"2011-10-12T10:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18350"},"modified":"2011-10-12T10:42:00","modified_gmt":"2011-10-12T10:42:00","slug":"a-esperanca-contra-o-sonambulismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-esperanca-contra-o-sonambulismo\/","title":{"rendered":"A esperan\u00e7a contra o sonambulismo"},"content":{"rendered":"<p>Os tempos n\u00e3o est\u00e3o f\u00e1ceis para quem ainda quer ousar pensar. Vivemos tempos de vertigem, que pedem persist\u00eancia e resist\u00eancia. As mais inusitadas decis\u00f5es s\u00e3o-nos apresentadas como fatalidades e os seus opostos considerados como passadistas e superados.<\/p>\n<p>Querem fazer-nos crer que nada mais resta do que aceitar o rumo de uma hist\u00f3ria que parece movida pela for\u00e7a tr\u00e1gica de um destino invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>Nada mais errado do que deixar-se abater por esta convic\u00e7\u00e3o generalizada, que atrofia a liberdade e amarfanha a humanidade que subsiste em cada um.<\/p>\n<p>Parecemos personagens de \u00abo senhor das moscas\u00bb, obra de Golding que retrata o naufr\u00e1gio de um grupo de alunos de uma academia militar que se refugia numa ilha, perdida no oceano. Nos primeiros tempos, todos os n\u00e1ufragos parecem reunir-se em torno da esperan\u00e7a de que algu\u00e9m vir\u00e1 salv\u00e1-los. Por\u00e9m, o passar do tempo vai arrefecendo a esperan\u00e7a, e come\u00e7a a emergir um grupo, liderado pelo terr\u00edvel Jack, que desiste de esperar e come\u00e7a a viver o dia-a-dia sem amanh\u00e3. Sem futuro, este grupo passa a viver do prazer de comer e de ca\u00e7ar javalis, revoltando-se contra os que continuam a entender que devem manter acesa a chama da esperan\u00e7a de que ainda vir\u00e3o a ser salvos da ilha. Nesta voragem de fruir do presente, o grupo dos que perder\u00e3o a esperan\u00e7a come\u00e7a a viver uma submiss\u00e3o cega ao l\u00edder, Jack, que vive para o prazer de cada momento, iniciando uma persegui\u00e7\u00e3o mortal aos que resistem.<\/p>\n<p>Um a um, os que tinham alguma r\u00e9stia de esperan\u00e7a v\u00e3o sucumbindo, seja por desistirem, seja \u00e0s m\u00e3os dos que j\u00e1 n\u00e3o acreditam que haja futuro fora da ilha. At\u00e9 que s\u00f3 restar\u00e1 Ralph, o l\u00edder dos que mant\u00eam acesa a chama da esperan\u00e7a. Inicia-se uma \u00faltima persegui\u00e7\u00e3o, que p\u00f5e a ilha a ferro e fogo. Tudo arde e Ralph vai-se escondendo como pode e consegue. At\u00e9 que \u00e9 descoberto e perseguido pelos ca\u00e7adores, que o seguem at\u00e9 \u00e0s areias da praia, onde tudo parece estar acabado. Nesse momento, por\u00e9m, os perseguidores despertam da sua cegueira ao descobrirem que, ali mesmo, encontram-se os helic\u00f3pteros dos que v\u00eam salv\u00e1-los. <\/p>\n<p>&#8211; \u00abO que fizestes?\u00bb \u2013 \u00e9 a pergunta com que se encerra o drama, ficando a ecoar aos ouvidos como recupera\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia que andara adormecida e que inaugura o reconhecimento do sem-sentido de tudo o que fora feito at\u00e9 ali.<\/p>\n<p>\u00c9 a interroga\u00e7\u00e3o que muitos querem silenciar, pretendendo adormecer-nos sossegados enquanto o mundo arde.<\/p>\n<p>Confesso que \u00e9 frequente ocorrer-me a recorda\u00e7\u00e3o deste enredo quando me deparo com a indiferen\u00e7a com que se fala dos n\u00fameros do aborto, como se de mera estat\u00edstica fosse. E ainda que fossem s\u00f3 dados estat\u00edsticos j\u00e1 n\u00e3o seriam pouco. Na verdade, ap\u00f3s a mudan\u00e7a da legisla\u00e7\u00e3o, decorrente do referendo de 11 de Fevereiro de 2007, realizaram-se, at\u00e9 Dezembro de 2010, 62.254 abortamentos a pedido da mulher. Se tivermos em conta que nasceram, em 2010, cerca de 101 mil crian\u00e7as e que se realizaram, nesse mesmo ano, 18.911 abortos a pedido da mulher, estaremos a falar de quase 20% de portugueses da esp\u00e9cie humana que poderiam nascer nesse ano e a quem tal n\u00e3o foi permitido.<\/p>\n<p>&#8211; \u00abO que fizestes?\u00bb<\/p>\n<p>Muitos t\u00eam invocado que a mudan\u00e7a legislativa decorre de um processo impar\u00e1vel de progresso rumo \u00e0 modernidade, como se fosse um caminho para diante. Por\u00e9m, nada mais enganador. Na verdade, de moderno e de progresso nada t\u00eam estas decis\u00f5es, antes s\u00e3o um retrocesso de mais de 2000 anos. Basta, com efeito, recordar que j\u00e1 o juramento de Hip\u00f3crates (no s\u00e9culo V-IV a.C.) previa a proibi\u00e7\u00e3o de \u00abaplicar pess\u00e1rio em mulher para provocar aborto\u00bb, permitindo supor que era uma pr\u00e1tica existente. Tamb\u00e9m uma carta do s\u00e9culo II d.C., dirigida a um desconhecido Diogneto, reconhecia que os crist\u00e3os \u00abcasam como todos e geram filhos, mas n\u00e3o abandonam \u00e0 viol\u00eancia os rec\u00e9m-nascidos.\u00bb Era pr\u00e1tica, entre os povos ditos cl\u00e1ssicos, o infantic\u00eddio, o aborto, o abandono dos idosos. \u00c9 o Cristianismo que, ao reconhecer a igual dignidade de todos os humanos, enquanto imagem e semelhan\u00e7a de Deus, afirma o car\u00e1cter sacramental de cada vida humana e, por isso, merecedora de total respeito.<\/p>\n<p>Pretender-se entregar \u00e0 discricionariedade de algu\u00e9m (seja o Estado, seja o partido, seja a m\u00e3e ou o pai, etc.) o poder de decidir se outrem merece ou n\u00e3o viver \u00e9 retroceder n\u00e3o vinte ou cinquenta anos, mas dois mil. \u00c9 deitar por terra as conquistas lentas da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, na qual puderam emergir a ci\u00eancia e o reconhecimento dos direitos humanos. \u00c9 regressar \u00e0 barb\u00e1rie. Com a agravante de se julgar que se est\u00e1 a escapar a ela, o que \u00e9 ilus\u00e3o maior e mais dif\u00edcil de reconhecer e, por isso, de ultrapassar.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria parecia ter-nos ensinado que \u00e9 admiss\u00edvel errar uma vez, mas persistir no erro denuncia pouca sabedoria, pois, como dizia C\u00edcero, \u00aberrar \u00e9 humano, manter-se no erro \u00e9 de n\u00e9scio.\u00bb<\/p>\n<p>Que resposta estaremos em condi\u00e7\u00f5es de dar quando, finalmente, a consci\u00eancia nos perguntar \u00abo que fizestes?\u00bb? Ou lavaremos as m\u00e3os porque os outros \u00e9 que fizeram por n\u00f3s?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os tempos n\u00e3o est\u00e3o f\u00e1ceis para quem ainda quer ousar pensar. Vivemos tempos de vertigem, que pedem persist\u00eancia e resist\u00eancia. As mais inusitadas decis\u00f5es s\u00e3o-nos apresentadas como fatalidades e os seus opostos considerados como passadistas e superados. 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