{"id":18358,"date":"2011-10-26T10:10:00","date_gmt":"2011-10-26T10:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18358"},"modified":"2011-10-26T10:10:00","modified_gmt":"2011-10-26T10:10:00","slug":"uma-imitacao-requentada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-imitacao-requentada\/","title":{"rendered":"Uma imita\u00e7\u00e3o requentada"},"content":{"rendered":"<p>Nota do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura sobre o romance \u201cO \u00faltimo segredo\u201d, de Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos.<\/p>\n<p>O romance de Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos, intitulado \u201cO \u00faltimo segredo\u201d, \u00e9 formalmente uma obra liter\u00e1ria. Nesse sentido, a discuss\u00e3o sobre a sua qualidade liter\u00e1ria cabe \u00e0 cr\u00edtica especializada e aos leitores. Mas como este romance do autor tem a pretens\u00e3o de entrar, com um tom de intoler\u00e2ncia desabrida, numa outra \u00e1rea, a hist\u00f3ria da forma\u00e7\u00e3o da B\u00edblia por um lado, e a fiabilidade das verdades de F\u00e9 em que os cat\u00f3licos acreditam por outro, pensamos que pode ser \u00fatil aos leitores exigentes (sejam eles crentes ou n\u00e3o) esclarecer alguns pontos de arbitrariedade em que o dito romance incorre.<\/p>\n<p>1. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da B\u00edblia e ao debate em torno aos manuscritos, Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos prop\u00f5e-se, com grande estrondo, arrombar uma porta que h\u00e1 muito est\u00e1 aberta. A quest\u00e3o n\u00e3o se coloca apenas com a B\u00edblia, mas genericamente com toda a Literatura Antiga: n\u00e3o tendo sido conservados os manuscritos que sa\u00edram das m\u00e3os dos autores torna-se necess\u00e1rio partir da avalia\u00e7\u00e3o das diversas c\u00f3pias e vers\u00f5es posteriores para reconstruir aquilo que se cr\u00ea estar mais pr\u00f3ximo do texto original. Este problema coloca-se tanto para o Livro do Profeta Isa\u00edas, por exemplo, como para os poemas de Homero ou os Di\u00e1logos de Plat\u00e3o. Ora, como \u00e9 que se faz o confronto dos diversos manuscritos e como se decide perante as diferen\u00e7as que eles apresentam entre si? H\u00e1 uma ci\u00eancia que se chama Cr\u00edtica Textual (Critica Textus, na designa\u00e7\u00e3o latina) que avalia a fiabilidade dos manuscritos e estabelece os crit\u00e9rios objetivos que nos devem levar a preferir uma variante a outra. A Cr\u00edtica Textual faz mais ainda: cria as chamadas \u201cedi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas\u201d, isto \u00e9, a apresenta\u00e7\u00e3o do texto reconstru\u00eddo, mas com a indica\u00e7\u00e3o de todas as variantes existentes e a justifica\u00e7\u00e3o para se ter escolhido uma em lugar de outra. O grau de certeza em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s escolhas \u00e9 diversificado e as pr\u00f3prias d\u00favidas v\u00eam tamb\u00e9m assinaladas.<\/p>\n<p>Tanto do texto b\u00edblico do Antigo como do Novo Testamento h\u00e1 extraordin\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, elaboradas de forma rigoros\u00edssima do ponto de vista cient\u00edfico, e \u00e9 sobre essas edi\u00e7\u00f5es que o trabalho da hermen\u00eautica b\u00edblica se constr\u00f3i. \u00c9 impens\u00e1vel, por exemplo, para qualquer estudioso da B\u00edblia atrever-se a falar dela, como Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradu\u00e7\u00e3o. A quantidade de incorre\u00e7\u00f5es produzidas em apenas tr\u00eas linhas, que o autor dedica a falar da tradu\u00e7\u00e3o que usa, s\u00e3o esclarecedoras quanto \u00e0 indig\u00eancia do seu estado de arte. Confunde datas e factos, promete o que n\u00e3o tem, fala do que n\u00e3o sabe.<\/p>\n<p>2. Chesterton dizia, com o seu not\u00e1vel humor, que o problema de quem faz da descren\u00e7a profiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 deixar de acreditar em alguma coisa, mas passar a acreditar em demasiadas. Poder\u00edamos dizer que \u00e9 esse o caso do romance de Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos. A nota a garantir que tudo \u00e9 verdade, colocada estrategicamente \u00e0 entrada do livro, seria j\u00e1 suficientemente elucidativa. De igual modo, o apontamento final do seu romance, onde arvora o m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico como a \u00fanica chave leg\u00edtima e verdadeira para entender o texto b\u00edblico. A validade do m\u00e9todo de an\u00e1lise hist\u00f3rico-cr\u00edtica da B\u00edblia \u00e9 amplamente reconhecida pela Igreja Cat\u00f3lica, como se pode ver no fundamental documento \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia na Igreja Cat\u00f3lica\u201d (de 1993). A\u00ed se recomenda o seguinte: \u00abos exegetas cat\u00f3licos devem levar em s\u00e9ria considera\u00e7\u00e3o o car\u00e1ter hist\u00f3rico da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica. Pois os dois Testamentos exprimem em palavras humanas, que levam a marca do seu tempo, a revela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que Deus fez\u2026 Consequentemente, os exegetas devem servir-se do m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico\u00bb. Mas o m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico \u00e9 insuficiente, como ali\u00e1s todos os m\u00e9todos, chamados a operar em complementaridade. Isso ficou dito, no s\u00e9culo XX, por pensadores da dimens\u00e3o de Paul Ricoeur ou Gadamer. Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos parece n\u00e3o saber o que \u00e9 um te\u00f3logo, e dir-se-ia mesmo que desconhece a natureza hipot\u00e9tica (e nesse sentido cient\u00edfica) do trabalho teol\u00f3gico. O positivismo ser\u00f4dio que levanta como bandeira f\u00e1-lo, por exemplo, chamar \u201chistoriadores\u201d aos te\u00f3logos que pretende promover, e apelide apressadamente de \u201cobras apolog\u00e9ticas\u201d as que o contrariam.<\/p>\n<p>3. A nota final de Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos esconde, por\u00e9m, a chave do seu caso. Nela aparecem (mal) citados uma s\u00e9rie de te\u00f3logos, mas o mais abundantemente referido, e o que efetivamente conta, \u00e9 Bart D. Ehrman. Rodrigues dos Santos faz de Bart D. Ehrman o seu teleponto, a sua revela\u00e7\u00e3o. Comparar o seu \u201cMisquoting Jesus. The Story Behind who Changed the Bible and Why\u201d com o \u201cO \u00daltimo segredo\u201d \u00e9 tarefa com resultados t\u00e3o previs\u00edveis que chega a ser deprimente. Ehrman \u00e9 um dos coordenadores do Departamento de Estudos da Religi\u00e3o, da Universidade da Carolina do Norte, e um investigador de erudi\u00e7\u00e3o ineg\u00e1vel. Contudo, nos \u00faltimos anos, tem orientado as suas publica\u00e7\u00f5es a partir de uma tese radical, claramente ideol\u00f3gica, longe de ser reconhecida cred\u00edvel. Ehrman reduz o cristianismo das origens a uma imensa batalha pelo poder, que acaba por ser tomado, como seria de esperar, pela tend\u00eancia mais forte e intolerante. E em nome desse combate pelo poder vale tudo: manobras pol\u00edticas intermin\u00e1veis, persegui\u00e7\u00f5es, fabrica\u00e7\u00e3o de textos falsos\u2026 Essa luta \u00e9 transportada para o interior do texto b\u00edblico que, no dizer de Ehrman, est\u00e1 repleto de manipula\u00e7\u00f5es. O que os seus pares universit\u00e1rios perguntam a Ehrman, com perplexidade, \u00e9 em que fontes textuais ele assenta as hip\u00f3teses extremadas que defende.<\/p>\n<p>4. Resumindo: \u00e9 lament\u00e1vel que Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos interrogue (e se interrogue) t\u00e3o pouco. \u00c9 lament\u00e1vel que escreva centenas de p\u00e1ginas sobre um assunto t\u00e3o complexo sem fazer ideia do que fala. O resultado \u00e9 bastante penoso e desinteressante, como s\u00f3 podia ser: uma imita\u00e7\u00e3o requentada, superficial e  ma\u00e7uda. O que a verdadeira literatura faz \u00e9 agredir a imita\u00e7\u00e3o para repropor a intelig\u00eancia. O que Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos faz \u00e9 agredir a intelig\u00eancia para que triunfe o pastiche. E assim vamos.<\/p>\n<p>Que tal conhecer mais a B\u00edblia a partir desta pol\u00e9mica?<\/p>\n<p>Na apresenta\u00e7\u00e3o de \u201cO \u00faltimo segredo\u201d, que decorreu em Lisboa, no s\u00e1bado passado, o padre e te\u00f3logo Anselmo Borges deixou um desafio a Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos: que o autor retire a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201ctodas as cita\u00e7\u00f5es de fontes religiosas e todas as informa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e cient\u00edficas inclu\u00eddas neste romance s\u00e3o verdadeiras\u201d, que surge antes do romance come\u00e7ar. \u201cN\u00e3o \u00e9 verdadeiro, n\u00e3o precisa disso, vai ser um bestseller\u201d, rematou Anselmo Borges.<\/p>\n<p>Analisar com profundidade um livro deste g\u00e9nero requerer\u00e1 uma leitura atenta. Mas se o jornalista parte com uma afirma\u00e7\u00e3o daquelas e no final acrescenta cinco p\u00e1ginas para justificar o rigor cient\u00edfico, lendo as cinco p\u00e1ginas, ficaremos com uma no\u00e7\u00e3o da suposta credibilidade cient\u00edfica. E o que encontramos? Esta afirma\u00e7\u00e3o vem na p\u00e1gina 561:<\/p>\n<p>Como fontes para as cita\u00e7\u00f5es b\u00edblicas recorri \u00e0 \u201cB\u00edblia Sagrada\u201d, edi\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada pela Verbo em 1976 para comemorar a visita do papa Jo\u00e3o Paulo II a Portugal nesse ano, e baseada nas melhores tradu\u00e7\u00f5es dos mais antigos manuscritos em grego ao dispor do Vaticano.<\/p>\n<p>Ora, em 1976 o papa era Paulo VI. Wojtyla estava em Crac\u00f3via e s\u00f3 seria eleito em Outubro de 1978. E s\u00f3 veio a Portugal, pela primeira vez, em 1982. Isto n\u00e3o \u00e9 relevante para o enredo da obra, mas revela a aten\u00e7\u00e3o posta na averigua\u00e7\u00e3o dos factos. Por outro lado, qualquer b\u00edblia com pretens\u00f5es de rigor cient\u00edfico, h\u00e1 muito que, \u00e9 traduzida de manuscritos gregos (NT e alguns livros do AT), hebraicos (AT) e aramaicos (vers\u00edculos e cap\u00edtulos do AT), as tr\u00eas l\u00ednguas b\u00edblicas, e n\u00e3o somente do grego.<\/p>\n<p>Da lista de livros que o romancista cita como fonte das suas afirma\u00e7\u00f5es de car\u00e1cter hist\u00f3rico e cient\u00edfico sobre Jesus notam-se duas aus\u00eancias de vulto: John P. Meier, que \u00e9 reconhecidamente o melhor te\u00f3logo actualmente a escrever sobre Jesus hist\u00f3rico (\u00e9 norte-americano e padre cat\u00f3lico) e Ratzinger\/Bento XVI. Na apresenta\u00e7\u00e3o do romance, a Ag\u00eancia Ecclesia colocou-lhe a quest\u00e3o da aus\u00eancia dos escritos do Papa, quando o primeiro volume sobre Jesus Cristo \u00e9 de 2007. E o que respondeu JRdS? \u201cAdmitiu n\u00e3o ter considerado esta obra do Papa na elabora\u00e7\u00e3o do seu novo livro por a considerar \u00abapolog\u00e9tica\u00bb e de um \u00e2mbito teol\u00f3gico, n\u00e3o hist\u00f3rico\u201d. <\/p>\n<p>Na realidade, podemos encontrar outra explica\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque n\u00e3o h\u00e1 cristologia (a teologia sobre Cristo) sem hist\u00f3ria. O Papa conhece os autores citados pelo jornalista-escritor e outros que o jornalista ignora, mais de tradi\u00e7\u00e3o alem\u00e3, onde a separa\u00e7\u00e3o entre o Jesus da hist\u00f3ria e o Cristo da f\u00e9 mais se colocou, de forma radical em meados do s\u00e9culo passado, principalmente a partir de Rudolf Bultmann. Ora a linha de fundo de Bento XVI, como a de muitos outros te\u00f3logos e exegetas de topo, \u00e9 a da continuidade entre o Jesus hist\u00f3rico e o Cristo da f\u00e9 (o das convic\u00e7\u00f5es dos crentes). Naturalmente isto vai contra a pretens\u00e3o de JRdS mostrar um novo Jesus e em contradi\u00e7\u00e3o com o da maioria cat\u00f3lica. Al\u00e9m do mais, como citar algu\u00e9m que est\u00e1 no centro da hierarquia, o Papa, quando a linha de fundo do romance \u00e9 mostrar que a igreja dominante ocultou e oculta, enganou e engana? N\u00e3o faria sentido.<\/p>\n<p>De qualquer forma, com Rodrigues dos Santos, Saramago, Dan Brown e outros escritores e projectos (como o \u201cEvangelho de Judas\u201d ou o suposto t\u00famulo de Jesus) que abordam a tem\u00e1tica religiosa com pretens\u00f5es de mostrar finalmente a verdade, temos apelos interessantes a conhecer mais e melhor a B\u00edblia. Infelizmente, as pol\u00e9micas d\u00e3o bom resultado aos autores, mas n\u00e3o fazem surgir iniciativas pastorais relevantes na \u00e1rea a B\u00edblia. E isto tamb\u00e9m d\u00e1 que pensar.<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura sobre o romance \u201cO \u00faltimo segredo\u201d, de Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos. O romance de Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos, intitulado \u201cO \u00faltimo segredo\u201d, \u00e9 formalmente uma obra liter\u00e1ria. Nesse sentido, a discuss\u00e3o sobre a sua qualidade liter\u00e1ria cabe \u00e0 cr\u00edtica especializada e aos leitores. 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