{"id":18359,"date":"2011-10-26T10:11:00","date_gmt":"2011-10-26T10:11:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18359"},"modified":"2011-10-26T10:11:00","modified_gmt":"2011-10-26T10:11:00","slug":"afinal-quem-leva-deus-a-serio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/afinal-quem-leva-deus-a-serio\/","title":{"rendered":"Afinal, quem leva Deus a s\u00e9rio?"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Para o profeta Malaquias, nem sequer os sacerdotes escapam todos \u00e0 \u201clista negra\u201d. Na lista em que Jesus p\u00f5e os escribas e os fariseus. <\/p>\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 ainda mais chocante se lermos o texto de Malaquias na \u00edntegra: \u00abPois bem, \u00f3 sacerdotes, se n\u00e3o tomardes a peito dar gl\u00f3ria ao meu nome (&#8230;) vou despeda\u00e7ar o vosso bra\u00e7o e lan\u00e7ar-vos esterco ao rosto \u2013 o esterco das vossas solenidades \u2013 e sereis atirados fora juntamente com ele\u00bb (2,1-3). Como Jesus dizia aos disc\u00edpulos: \u00abV\u00f3s sois o sal da terra&#8230; Se o sal perder o sabor, ser\u00e1 deitado fora e calcado por todos os homens\u00bb (Mateus 5,13).<\/p>\n<p>Talvez por isso, para n\u00e3o se deixarem seduzir pelas regalias e hipocrisias do poder, \u00e9 que S. Paulo e seus ajudantes, apostados em servir a s\u00e9rio, mostram a preocupa\u00e7\u00e3o que tinham em partilhar com os demais crist\u00e3os (e tamb\u00e9m com os n\u00e3o-crist\u00e3os) as durezas e prazeres da vida, sem adular os mais poderosos, sem abusar dos mais fracos ou dos que t\u00eam \u201cbom cora\u00e7\u00e3o\u201d. Procuravam sobretudo entusiasmar-se a si e aos outros pelo \u00abreino de Deus\u00bb, sem o palavreado vaidoso (= vazio) daqueles doutores, mestres e \u201cgrandes senhores\u201d, que esquecem que s\u00f3 podem ter verdade na medida em que d\u00e3o aten\u00e7\u00e3o e primazia \u00e0 \u00fanica fonte da verdade. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, Jesus Cristo n\u00e3o fundou um minist\u00e9rio de sacerdotes (que s\u00f3 se organizou claramente como tal no s\u00e9culo III), nem muito menos uma hierarquia \u2013 termo aplicado \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o eclesial apenas no s\u00e9culo V. Jesus \u201climitou-se\u201d a entusiasmar a humanidade a organizar-se segundo o desejo de bem, que \u00e9 o esp\u00edrito de Deus dentro de n\u00f3s. <\/p>\n<p>Se se diz, e bem, que religi\u00e3o e pol\u00edtica est\u00e3o separadas, \u00e9 porque Jesus foca toda a aten\u00e7\u00e3o na atitude interior de cada homem, \u00fanica garantia de honestidade e sensatez numa pol\u00edtica sempre melhor. Por\u00e9m, estas virtudes exigem denunciar claramente o que est\u00e1 mal, sem cosm\u00e9ticas interesseiras, e (como no caso de universidades cat\u00f3licas) exigindo estudos arrojados, pr\u00f3prios de uma raz\u00e3o sem medo da f\u00e9, que fundamentem tomadas de posi\u00e7\u00e3o e planos exequ\u00edveis em justi\u00e7a social \u2013 uma \u00ab\u00e9tica global\u00bb, onde vinguem os princ\u00edpios da dimens\u00e3o social da riqueza. Faltar\u00e1 liberdade e coragem aos \u00abmestres cat\u00f3licos\u00bb?<\/p>\n<p>Muitas vezes, os \u00abpr\u00edncipes da Igreja\u00bb (designa\u00e7\u00e3o nada apropriada a representantes de Jesus) entregam-se a jogos diplom\u00e1ticos e financeiros, unindo-se aos poderosos da terra, talvez com a desculpa de os poderem tornar mais \u00abhumanos\u00bb (e assim mais crist\u00e3os).<\/p>\n<p>Mas quando moramos em pal\u00e1cios, temos que mostrar, pela nossa ac\u00e7\u00e3o no mundo, que os utilizamos para defender a justi\u00e7a e levar a s\u00e9rio os pobres e os fracos. A tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 grande de deixar este trabalho para \u00abas bases\u00bb, e limitar-se a palavras bonitas ou a cita\u00e7\u00f5es de uma Teresa de Calcut\u00e1 ou Padre Am\u00e9rico. E por que ser\u00e1 que o pr\u00f3prio \u00abevangelho dos pobres\u00bb da Am\u00e9rica Latina \u00e9 olhado com desconfian\u00e7a pelos \u201cpr\u00edncipes da Igreja\u201d?<\/p>\n<p>O profeta Malaquias acusa os sacerdotes de darem a Deus borregos defeituosos, quando n\u00e3o teriam coragem de fazer o mesmo para com os grandes deste mundo. Deus n\u00e3o se v\u00ea&#8230; n\u00e3o castiga nem premeia \u201c\u00e0 vista\u201d&#8230; \u2013 ser\u00e1 que vale a pena ser levado a s\u00e9rio?<\/p>\n<p>Quem o leva mais a s\u00e9rio? O sacerdote atarefado com os seus afazeres ou o samaritano que se aproximou e ajudou quem precisava de ajuda (Lucas 10,29-37)?<\/p>\n<p>E quem n\u00e3o precisa de ajuda? E quem n\u00e3o precisa de ajudar?<\/p>\n<p>Pensamos que n\u00e3o precisamos de ajuda, na medida em que nos sentimos seguros pelos nossos compadrios mais ou menos pol\u00edticos, guindados \u00e0 classe de \u00abdoutores e mestres\u00bb desdenhosos dos outros. N\u00e3o queremos ajudar, porque d\u00e1 trabalho ensinar toda a gente a ser \u00abatleta\u00bb para vencer na vida \u00abna terra, como \u00e9 vontade de Deus no c\u00e9u\u00bb, sobretudo quando esse trabalho nos impede de ocupar os lugares mais ilustres e tamb\u00e9m mais venais na sociedade. S\u00f3 quem tem Deus por mestre \u00e9 que sabe trabalhar bem espontaneamente \u2013 e se for publicamente louvado, d\u00e1 testemunho do fasc\u00ednio da justi\u00e7a. <\/p>\n<p>Este domingo \u00e9 contra a vaidade, contra as palavras e ac\u00e7\u00f5es que acabam por ser vazias, porque longe da sabedoria de Deus. E por isso, ao longo de toda a Escritura Sagrada e da hist\u00f3ria da espiritualidade crist\u00e3, quando Deus pede que o levem a s\u00e9rio, pede que nos levemos a s\u00e9rio uns aos outros.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-18359","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18359","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18359"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18359\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18359"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18359"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18359"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}