{"id":18369,"date":"2011-10-26T10:21:00","date_gmt":"2011-10-26T10:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18369"},"modified":"2011-10-26T10:21:00","modified_gmt":"2011-10-26T10:21:00","slug":"clamor-dos-pobres-numa-sociedade-de-ricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/clamor-dos-pobres-numa-sociedade-de-ricos\/","title":{"rendered":"Clamor dos pobres numa sociedade de ricos?"},"content":{"rendered":"<p>Portugal est\u00e1 a tornar-se um mundo complexo, de leitura dif\u00edcil, cheio de contradi\u00e7\u00f5es e interroga\u00e7\u00f5es, com muitos opinadores desencontrados, muitas ideias que se entrechocam, muitos interesses em jogo, muita gente que mal ouviu e tem logo, debaixo da l\u00edngua, respostas de apoio ou de contesta\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Quando se trata de acertar caminhos que dever\u00e3o andar juntos, as diverg\u00eancias em campo, n\u00e3o se percebe se por ideologias, se por interesses pessoais e partid\u00e1rios, logo se dividem as pessoas e se estilha\u00e7am os prop\u00f3sitos mais urgentes, de ir ao encontro de problemas, que s\u00e3o comuns a todos. <\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica \u00e9 grave, muitas pessoas, por vezes as mais d\u00e9beis, est\u00e3o fortemente atingidas, a classe m\u00e9dia, que antes vivia com um certo desafogo, embora com regras, encontra-se em derrapagem. Os problemas multiplicam-se, tanto mais quando n\u00e3o se enfrentam em conjunto. Quem tem de decidir encontra-se ante for\u00e7as antag\u00f3nicas que ou apoiam ou nada encontram de v\u00e1lido nas decis\u00f5es anunciadas ou tomadas.<\/p>\n<p>O bem da comunidade v\u00ea-se sempre parcelado, mais a partir de ideologias diferentes que de interesses comuns. Assim, cada um agarra-se \u00e0 leitura pessoal ou de grupo, aos seus compromissos pol\u00edticos, a perspectivas e preconceitos, sem o aparente desejo de uma solu\u00e7\u00e3o que empenhe a todos. H\u00e1 na vida, e, mais ainda, na vida nacional, momentos em que t\u00eam de se arrear bandeiras e darem-se as m\u00e3os, sacrificando algo de pessoal a favor do bem poss\u00edvel de todos. A pol\u00edtica \u00e9 ac\u00e7\u00e3o do poss\u00edvel e o ideal torna-se o poss\u00edvel em cada situa\u00e7\u00e3o e em cada circunst\u00e2ncia. Parece, por\u00e9m, que isto pouco tem a ver com o debate parlamentar e as organiza\u00e7\u00f5es corporativas.<\/p>\n<p>Certamente que os decisores devem saber ler objectivamente a realidade, escutar, sem preconceitos, os que devem ou podem dar achegas para ver mais claro e decidir com maior realismo. A democracia n\u00e3o gera dogmas, mas consensos, os poss\u00edveis, n\u00e3o os ut\u00f3picos. A facilidade como se fala do povo vai-se tornando um ultraje ao mesmo.  <\/p>\n<p>As oposi\u00e7\u00f5es que pensam e querem o bem da comunidade de algum modo tamb\u00e9m governam pelo contributo respons\u00e1vel e s\u00e9rio que delas \u00e9 leg\u00edtimo esperar. O clamor dos pobres depara-se, com frequ\u00eancia, com a barreira de in\u00fameros pol\u00edticos e pensadores, de grupos e corpora\u00e7\u00f5es, que mais deviam ouvir esse clamor e ajudar quem grita, que levantar muros de incomunica\u00e7\u00e3o. Nunca foi f\u00e1cil, nem agrad\u00e1vel, governar e decidir em tempos de crise. Estamos passando por uma situa\u00e7\u00e3o igual \u00e0quela porque passaram outros pa\u00edses da Europa que, por fim, venceram, porque todos juntos foram capazes de procurar o melhor caminho poss\u00edvel e todos se decidiram and\u00e1-lo.  S\u00f3 as gera\u00e7\u00f5es mais jovens desconhecem talvez esta realidade.<\/p>\n<p>A comunidade adulta, com mem\u00f3ria e bom senso, n\u00e3o acredita e nunca acreditou nos que julgam saber tudo, terem toda a raz\u00e3o do seu lado e serem os \u00fanicos com lucidez para mostrar os caminhos certos. A verdade \u00e9 que o poder democr\u00e1tico de decis\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 dilu\u00eddo. Tem rosto para poder ser responsabilizado, a seu tempo.<\/p>\n<p>Tem feito falta julgar e responsabilizar quem governa e leva o pa\u00eds a situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas, como agora aconteceu. Os pobres n\u00e3o o s\u00e3o por op\u00e7\u00e3o, mas por um desgoverno que parece ter sido j\u00e1 esquecido, tanto por correligion\u00e1rios, como por opositores. N\u00e3o h\u00e1 efeitos sem causas, e estas est\u00e3o \u00e0 vista. \u00c9 normal que quem empresta ponha condi\u00e7\u00f5es, e que quem precisa encontre um terreno de negocia\u00e7\u00e3o limitado.<\/p>\n<p>Certamente que \u00e9 triste e duro ver o desemprego crescer, casais a entregar \u00e0 banca a casa que n\u00e3o conseguem pagar, aproximar-se o Natal sem o habitual subs\u00eddio, diminuir no ordenado o que \u00e9 indispens\u00e1vel para suportar despesas de educa\u00e7\u00e3o inevit\u00e1veis, a mesma gente que perdeu tamb\u00e9m o abono de fam\u00edlia e a bolsa de estudo\u2026 E muito mais por a\u00ed adiante\u2026 Mas tudo isto dar\u00e1 direito a algu\u00e9m de se considerar o \u00fanico defensor do povo a contrapor-se a quem se acusa ser o seu carrasco?<\/p>\n<p>A sociedade de ricos \u00e9 a daqueles que se julgam saber tudo, ter solu\u00e7\u00e3o para tudo, negar-se \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o com os que apodam de criminosos, s\u00f3 porque est\u00e3o no poder e as suas ideologias n\u00e3o se casam.<\/p>\n<p>Os governantes n\u00e3o s\u00e3o g\u00e9nios, nem infal\u00edveis. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o o s\u00e3o os que parece que s\u00f3 sabem criticar. Se n\u00e3o formos capazes de ser inteligentes e colaboradores, a crise ser\u00e1 cada vez maior e o clamor do povo sofredor n\u00e3o ter\u00e1 quem o ou\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal est\u00e1 a tornar-se um mundo complexo, de leitura dif\u00edcil, cheio de contradi\u00e7\u00f5es e interroga\u00e7\u00f5es, com muitos opinadores desencontrados, muitas ideias que se entrechocam, muitos interesses em jogo, muita gente que mal ouviu e tem logo, debaixo da l\u00edngua, respostas de apoio ou de contesta\u00e7\u00e3o. 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