{"id":18414,"date":"2011-11-02T10:42:00","date_gmt":"2011-11-02T10:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=18414"},"modified":"2011-11-02T10:42:00","modified_gmt":"2011-11-02T10:42:00","slug":"romance-ciencia-historia-e-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/romance-ciencia-historia-e-fe\/","title":{"rendered":"Romance, ci\u00eancia, hist\u00f3ria e f\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Conhecemos a hist\u00f3ria do sapateiro que falava de tudo e que, com este modo de agir, dizia, por vezes, coisas menos certas, sen\u00e3o mesmo disparates. At\u00e9 que algu\u00e9m lhe disse que se limitasse ao que sabia, sintetizando o conselho com uma recomenda\u00e7\u00e3o conhecida: \u201cN\u00e3o v\u00e1 o sapateiro al\u00e9m do chinelo\u201d. Com frequ\u00eancia, hoje, um tempo em que a liberdade de opinar \u00e9 direito de todos, vemos coisas que fazem lembrar a hist\u00f3ria do sapateiro sentenciador. Facilmente, se v\u00ea gente a pronunciar-se, com demasiada certeza, sobre coisas que ignora ou de que sabe menos.<\/p>\n<p>N\u00e3o li nenhum dos livros de Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos. Nem espero ler \u201cO \u00daltimo Segredo\u201d, agora publicado. Pela simples raz\u00e3o que, tendo livros e revistas de meu interesse e necessidade a aguardar leitura, isso me obriga a estabelecer prioridades. Por outro lado, n\u00e3o me soa bem que um jornalista romancista, pode ele ser, como tal, muito famoso, vender muito e at\u00e9 publicar em v\u00e1rias l\u00ednguas, apresentar mais um romance, assim anunciado, um livro de fic\u00e7\u00e3o, portanto, como obra de investiga\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e hist\u00f3ria, com pron\u00fancia sobre aspectos b\u00edblicos para o autor desconhecidos, mas tidos como verdade que prop\u00f5e. Confessa que no escrito est\u00e1 misturada a fic\u00e7\u00e3o com a n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o. Pois. E onde acaba uma e come\u00e7a outra? Que crit\u00e9rios tem o leitor comum para discernir? <\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o do livro foi precedida, como era de esperar, de um marketing bem urdido, com os maiores favores da comunica\u00e7\u00e3o social. Jornais, revistas, televis\u00e3o, tudo, antes e depois, como grande acontecimento da semana. Aconteceu a mesma montagem, h\u00e1 anos, com o \u201cC\u00f3digo Da Vinci\u201d, de Dan Brown, antes e depois da sua publica\u00e7\u00e3o. De t\u00e3o famoso para os interessados, autor e editora, era quase pecado n\u00e3o o ler. J\u00e1 passou a uma simples e triste recorda\u00e7\u00e3o, como produto de uma moda que, depressa, perde cota\u00e7\u00e3o e mercado. <\/p>\n<p>Num mundo em que o sobrenatural e o simplesmente religioso incomodam, h\u00e1 sempre p\u00fablico para ler as \u201cnovidades prometidas\u201d, mormente se tocam aspectos fundamentais de Jesus Cristo, da Igreja, do cristianismo em geral. Anunciou-se em grandes t\u00edtulos que se trata de um livro que aponta fraudes da B\u00edblia, que o Jesus Cristo dos Evangelhos tem pouco a ver com o Jesus Cristo hist\u00f3rico, que com este livro n\u00e3o se pretende atacar a Igreja, mas apenas abrir caminho para que o leitor seja ele mesmo investigador\u2026  Rodrigues do Santos, at\u00e9 como jornalista na televis\u00e3o, aparece como um lutador nervoso que, a golpes de vontade, quer levar tudo \u00e0 frente. Procurou agora autoridade no que escreve, dizendo que foi \u00e0 Terra Santa para ver localmente, consultou livros sem conta, leu autores de todas as correntes. N\u00e3o diz, por\u00e9m, se leu estudos s\u00e9rios das \u00faltimas d\u00e9cadas de grandes biblistas, protestantes e cat\u00f3licos, se tomou consci\u00eancia do valor reconhecido da Escola B\u00edblica de Jerusal\u00e9m, se compulsou escritos b\u00edblicos em hebraico, aramaico e grego, se investigou, paciente e longamente, se respeitou a cr\u00edtica textual, sem a qual nada de s\u00e9rio se faz em estudos b\u00edblicos.<\/p>\n<p>Jesus Cristo, na sua Pessoa e na f\u00e9 dos crentes, n\u00e3o tem nada a perder com mais este romance. Nem passa a ser um Jesus Cristo diferente daquele que inspira o seu seguimento, at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, de milh\u00f5es de crist\u00e3os, ao longo de dois mil anos. Renan e seus sequazes j\u00e1, s\u00e9culos atr\u00e1s, tentaram um outro Cristo, de tra\u00e7a apenas humana. Bastava negar a sua ressurrei\u00e7\u00e3o e logo ficava em causa a sua divindade. <\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Igreja, nas diversas confiss\u00f5es crist\u00e3s, tem sido pioneira nos estudos b\u00edblicos, sempre complexos, porque envolvem um trabalho s\u00e9rio e fundamentado, que n\u00e3o se faz sem aturados e longos estudos de outras ci\u00eancias, como a paleografia, a arqueologia, a hist\u00f3ria comparada. Por isso, tamb\u00e9m ela nada teme, porque nada esconde, e tem mesmo expurgado, com rigor cient\u00edfico, elementos introduzidos ao longo de s\u00e9culos, fruto de preocupa\u00e7\u00f5es espirituais explic\u00e1veis, de uma melhor e mais acess\u00edvel compreens\u00e3o do texto b\u00edblico, e at\u00e9, de uma apropria\u00e7\u00e3o indevida do mesmo, por parte de interesses de v\u00e1ria ordem. Por\u00e9m, elementos que, segundo as conclus\u00f5es cient\u00edficas nunca puseram em causa o essencial da mensagem b\u00edblica. A B\u00edblia, escrita ao longo de s\u00e9culos, n\u00e3o \u00e9 um livro cient\u00edfico, como cient\u00edfico tem de ser agora o seu estudo, por perda dos originais, por se tratar, em muitos dos seus livros, de uma narra\u00e7\u00e3o popular, com g\u00e9neros liter\u00e1rios diversos, ligados, obviamente, \u00e0s culturas locais e \u00e0 hist\u00f3ria de um povo, no meio de outros povos com hist\u00f3ria e cultura pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo julgar o autor de \u201c O \u00daltimo Segredo\u201d, nem fazer sobre ele e o seu romance qualquer ju\u00edzo de inten\u00e7\u00e3o. Respeito, mas n\u00e3o me co\u00edbo de escrever sobre o assunto, sem intuitos pol\u00e9micos e sem pensar em lhe roubar leitores, que muitos deles est\u00e3o sempre garantidos, e outros, sempre curiosos, sem crit\u00e9rios, n\u00e3o v\u00e3o deixar de procurar as \u201cnovidades\u201d do romance. J\u00e1 assim aconteceu com \u201cO C\u00f3digo Da Vinci\u201d, leitura de f\u00e9rias de muita gente. Devo dizer que tamb\u00e9m n\u00e3o o li.<\/p>\n<p>Continuo a ler, com interesse e proveito \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d, de Bento XVI. Nada vejo nele de livro apolog\u00e9tico, como aduz Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos para n\u00e3o o ter consultado, mas como uma grande e fundamentada experi\u00eancia de f\u00e9.<\/p>\n<p>Todo o ambiente que nos envolve, ao reflectir estes temas, tem, de facto, a ver com o dom da f\u00e9, pessoal e comunit\u00e1ria, enraizada e esclarecida. Esta a grande interpela\u00e7\u00e3o que hoje se faz aos crist\u00e3os e \u00e0s comunidades crist\u00e3s, cada dia convidados a passar de uma f\u00e9 tradicional passiva, a uma f\u00e9 motivada e consequente na vida. Espero que o Ano da F\u00e9, agora anunciado, ajude, com base na Palavra b\u00edblica, este objectivo, que se tornou urgente em tempo marcado por um laicismo militante, aguerrido, nem sempre s\u00e9rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhecemos a hist\u00f3ria do sapateiro que falava de tudo e que, com este modo de agir, dizia, por vezes, coisas menos certas, sen\u00e3o mesmo disparates. At\u00e9 que algu\u00e9m lhe disse que se limitasse ao que sabia, sintetizando o conselho com uma recomenda\u00e7\u00e3o conhecida: \u201cN\u00e3o v\u00e1 o sapateiro al\u00e9m do chinelo\u201d. 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