{"id":1847,"date":"2010-06-16T10:25:00","date_gmt":"2010-06-16T10:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1847"},"modified":"2010-06-16T10:25:00","modified_gmt":"2010-06-16T10:25:00","slug":"duas-visoes-sobre-o-humano-a-pretexto-da-lei-que-casa-a-uniao-homossexua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/duas-visoes-sobre-o-humano-a-pretexto-da-lei-que-casa-a-uniao-homossexua\/","title":{"rendered":"Duas vis\u00f5es sobre o humano, a pretexto da lei que \u00abcasa\u00bb a uni\u00e3o homossexua"},"content":{"rendered":"<p>Os tempos n\u00e3o se prestam a grande reflex\u00e3o\u2026 Nem a parecem desejar, sequer! Tudo \u00e9 decidido a um ritmo, cedendo a uma tal vertigem, que todos parecemos perder o p\u00e9. A ser verdade que esta seja a \u00faltima condi\u00e7\u00e3o do humano, muito temos a temer pelo futuro. O pensamento ser\u00e1 reserva de uns poucos, eleitos e privilegiados, merecedores do fecundo \u00f3cio que os cl\u00e1ssicos tanto desejavam e opunham ao azafamado neg\u00f3cio, que mais n\u00e3o era do que aus\u00eancia do famigerado f\u00e9rtil sossego (Nec+otium \u2013 \u00abaquilo que n\u00e3o \u00e9 \u00f3cio\u00bb). Porque n\u00e3o quero entregar de m\u00e3o beijada t\u00e3o precioso privil\u00e9gio, ouso interrogar-me sobre os motivos por que combate a Igreja uma batalha aparentemente perdida, face \u00e0 pot\u00eancia n\u00e3o desvelada de for\u00e7as decididas a mudar, pelo impl\u00edcito desejo de maiorias medi\u00e1ticas supostas, os alicerces sobre que se estruturara, durante mil\u00e9nios, a organiza\u00e7\u00e3o das sociedades. Por que ousa a Igreja continuar a manifestar a sua consterna\u00e7\u00e3o perante a mudan\u00e7a das leis que se pronunciam sobre mat\u00e9rias que muitos insistem em considerar como sendo \u00abde consci\u00eancia\u00bb?<\/p>\n<p>Importa, desde j\u00e1, denunciar um contrato que n\u00e3o selei com tal express\u00e3o que, para mim, nada diz, pois, ao falarmos de mat\u00e9rias referentes ao humano, todas elas dever\u00e3o ser, enfim, mat\u00e9rias \u00abde consci\u00eancia\u00bb. De outro modo, ter\u00edamos de admitir que o homem decidisse sobre o que quer que fosse de forma \u00abinconsciente\u00bb, facto que n\u00e3o abonaria nada a favor dos alicerces de uma sociedade que tais pressupostos tivesse.<\/p>\n<p>Mas regressemos \u00e0 pergunta: o que justifica que a Igreja continue o seu combate contra leis que afirma fragilizarem a civiliza\u00e7\u00e3o e, entre elas, mais recentemente, a que permite considerar casamento a uni\u00e3o entre pessoas do mesmo sexo? <\/p>\n<p>Recordemos, antes de mais, que, apesar de a Igreja ser muitas vezes apelidada, por movimentos que se lhe op\u00f5em, como sendo obscurantista, ela \u00e9, hoje, paradoxalmente, uma das poucas reservas de racionalidade que se verificam nas sociedades vertiginosas em que vivemos, pelo que importa afirmar, antes de mais, que, na g\u00e9nese das suas tomadas de posi\u00e7\u00e3o, est\u00e3o motivos coerentes, l\u00f3gicos, n\u00e3o sendo devidas a circunst\u00e2ncias vol\u00faveis e ef\u00e9meras. <\/p>\n<p>Tendo em conta tal pressuposto, t\u00e3o dif\u00edcil de explicitar quando as discuss\u00f5es se situam no plano das meras opini\u00f5es (que, pela sua natureza, s\u00e3o inconsistentes e mut\u00e1veis como cana ao vento!), explicitemos os dados que importa ter em conta para compreender os motivos do combate, pois ser\u00e1 de um efectivo combate que se tratar\u00e1, na medida em que algo se perde ou algo se protege. <\/p>\n<p>As diversas medidas que v\u00eam suscitando este discurso de que algo de civilizacional se est\u00e1 a perder t\u00eam como ponto comum, antes de mais, a verifica\u00e7\u00e3o de que \u00e0s leis deixou de se reconhecer, por parte do legislador, um papel pedag\u00f3gico. As leis eram, at\u00e9 esta vertigem devedora do positivismo jur\u00eddico assomar \u00e0 porta da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, antes de mais, um conjunto de propostas de refer\u00eancias valorativas, capazes de indiciar aos cidad\u00e3os para que horizonte deveriam encaminhar-se. A realidade encarregava-se de evidenciar as situa\u00e7\u00f5es que deveriam constituir-se como excep\u00e7\u00e3o. No novo cen\u00e1rio, s\u00e3o as pr\u00f3prias leis que parecem feitas a partir da excep\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o inverso.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, j\u00e1 no que se refere \u00e0 mat\u00e9ria em causa nas leis (pois este primeiro ponto era apenas de natureza formal), as leis sempre contribu\u00edam para o desenvolvimento da no\u00e7\u00e3o clara de que os indiv\u00edduos devem visar, com os seus comportamentos, o bem de cada um (em que o pr\u00f3prio se inclui) e de todos. Em situa\u00e7\u00e3o de conflito, o bem da comunidade deveria prevalecer. A nova conjuntura jur\u00eddica parece encaminhar o vector no sentido contr\u00e1rio. N\u00e3o s\u00f3 resolve as situa\u00e7\u00f5es de conflito em favor sempre do indiv\u00edduo, como at\u00e9 cria conflitos onde eles s\u00e3o inexistentes.<\/p>\n<p>Por fim, o princ\u00edpio que regia a elabora\u00e7\u00e3o das leis era sempre a de que o humano \u00e9 mais forte do que \u00e9 sub-humano em si mesmo. O homem \u00e9 senhor de si e se n\u00e3o o \u00e9, aguarda-o a esperan\u00e7a da reden\u00e7\u00e3o. Hoje, as circunst\u00e2ncias, os genes, o passado infantil, o contexto socioecon\u00f3mico de cada um parecem determinar (determinar \u00e9 muito mais do que condicionar, \u00e9 de \u00abdeterminar\u00bb que estamos aqui a falar e n\u00e3o apenas de \u00abcondicionar\u00bb) o insucesso total da vontade e da raz\u00e3o humanas. Apetece perguntar, neste cen\u00e1rio, onde est\u00e1, de facto, o humano, se lhe sonegam a liberdade, a vontade, a possibilidade de mudar? E \u00e9 contra isto que se insurgem os que afirmam que as mudan\u00e7as em curso visam uma altera\u00e7\u00e3o civilizacional grave: prevalece um individualismo sem futuro, infecundo, incapaz de se mudar, impotente perante os m\u00faltiplos determinismos que sempre a Igreja combateu, ao longo da hist\u00f3ria. Devo afirmar que me causa perplexidade e estranheza a facilidade com que se aceita que nada haja a fazer quando algo se nos afigura incompleto, n\u00e3o correspondendo ao que deva ser proposto como modelo. Num plano de princ\u00edpios, n\u00e3o se me afigura conceb\u00edvel que o humano n\u00e3o possa mudar ou mudar-se a si mesmo, que tudo seja determinado, seja pelos genes, seja pela conjuntura hist\u00f3rica pessoal, por muita capacidade de condicionamento que tais factores possam ter na defini\u00e7\u00e3o de cada um. <\/p>\n<p>Neste quadro, considero que as m\u00faltiplas leis \u00abcivilizacionais\u00bb, latentes a esta reflex\u00e3o (nas quais incluo as leis abortistas, eug\u00e9nicas, eutan\u00e1sicas, em favor de modelos de fam\u00edlia que pretendem equiparar-se ao que nasce de uma rela\u00e7\u00e3o heterossexual fiel e aberta \u00e0 fecundidade), dimanam de uma mesma considera\u00e7\u00e3o de que o humano n\u00e3o deve encaminhar-se para a plenitude de si, mas bastar-se com o que j\u00e1 \u00e9 e tem diante de si. Os Estados parecem ter desistido de ousarem propor modelos. A ser assim, eles pr\u00f3prios ter\u00e3o tra\u00e7ado o seu desenlace: sucumbirem perante uma realidade avessa a qualquer poder da lei. Sobreviver\u00e1 quem for mais forte, porque os Estados ter\u00e3o falido na sua fun\u00e7\u00e3o de protegerem o que vale a pena ser protegido. Neste novo modelo de Estado flui um veneno para o qual ter\u00e1 de se encontrar r\u00e1pido ant\u00eddoto: o do neutralismo moral que conduz ao amorfismo. Os humanos n\u00e3o sobrevivem \u00e0 aus\u00eancia de motivos pelos quais valha a pena viver e a que chamam \u00abvalores\u00bb. Quando tudo vale nada vale!<\/p>\n<p>Ora, a Igreja n\u00e3o poder\u00e1 nunca comprazer-se nem identificar-se com um mundo que n\u00e3o sabe para onde vai, por n\u00e3o saber de onde vem. E, se \u00e9 essa a sua fragilidade num tempo que n\u00e3o tem tempo para se perguntar sobre se vai para algures, tamb\u00e9m \u00e9 essa a sua fortaleza: \u00e9 o horizonte aberto que lhe concede o tempo que este tempo n\u00e3o tem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os tempos n\u00e3o se prestam a grande reflex\u00e3o\u2026 Nem a parecem desejar, sequer! Tudo \u00e9 decidido a um ritmo, cedendo a uma tal vertigem, que todos parecemos perder o p\u00e9. A ser verdade que esta seja a \u00faltima condi\u00e7\u00e3o do humano, muito temos a temer pelo futuro. 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